Romeiro escapa de onça por milagre

Romeiro escapa de onça por milagre

O agricultor José Rodrigues dos Santos, em atividade aos 97 anos, é um personagem grandioso. Nascido no povoado de Cajueiro, viu o local se transformar em distrito de São José da Tapera, pertencente ao município de Pão de Açúcar, Alagoas, e depois se emancipar. Foi lá que conheceu o beato Pedro Batista, que seguiu até Santa Brígida, na Bahia, e de quem se tornou homem de confiança e cuidador.

José será o tema da série que estreia hoje e continuará às terças-feiras, marcando o mês em que o site Meus Sertões completa três anos. O primeiro capítulo trata de uma das muitas histórias contadas para o jornalista Paulo Oliveira nos três dias em que eles passaram juntos na Semana Santa deste ano. Dono de memória prodigiosa, José Rodrigues, relata casos envolvendo homens santos, guerras, reis e ensinamentos diversos que aprendeu com os pais, os avós, os beatos e em sua vasta experiência de vida.

Seu Zé saindo para trabalhar. Foto: Paulo Oliveira
Seu Zé saindo para trabalhar. Foto: Paulo Oliveira

Embora nunca tenha frequentado escola, seu Zé entremeia rico vocabulário com o jeito de falar regional, muitas vezes parecendo ter saltado das páginas de um livro. Portanto, decidimos transcrever as histórias da mesma forma que nosso personagem conta. E chega de enrolação, vamos direto ao assunto: como um jovem que ia para Juazeiro conhecer o Padre Cícero escapou de uma onça feroz.

“Ói, vou falar um negócio com o senhor assim: aqui (Santa Brígida, BA) mora um rapaz, que tinha muita vontade de ir pro Juazeiro. Tanta vontade que foi só, sem companhia nenhuma, sem conhecer dos caminhos, de nada.

Ele disse que passou em Floresta (PE) no pôrzinho do sol, aí entrou. Na ponta da rua, ele chegou procurou numa casa. Mais adiante tinha casa, eles nem aí. Eles têm esse negócio de dizer que tem casa perto, não tem. Deixa que era no fim das casas. Pra frente pegava era deserto. E aí anoiteceu e não apareceu mais casa. E ele andou, andou, andou e não viu casa. Lá os terrenos, aqui e acolá tem aqueles meia, aquele terreno defasado. Não tem mato, não tem nada. Aquele campão assim.

Aí, ele cansou. Já tava cansado. Aí sentou e disse: “Não tem casa mais”. Aí ficou sentado naquele limpo ali. Quando ele sentou, apareceu de longe um vulto que nem um bezerro, preto como o carvão. Aquele vulto de longe, veio a procura dele. Aquele vulto veio, veio, veio bater onde ele tá.

Quando chegou perto da onde ele tá parou. Deixa que era uma onça. A mais perigosa que tem: a onça preta. Ela quando chegou perto dele parou. Parou e ficou ali. Ele disse que aquela onça fazia tanto mongo no mundo e ele ia só a se pegá com meu Padrinho Ciço e com Nossa Senhora.

Uma fera daquela assim em cima dele, olhando assim. Ela ficou olhando assim pra ele, assim perto. Diz que tinha hora que ela alisava o couro da testa. Outra hora puxava o couro, chegava a cobrir os óio. Aqueles óio assim, oiando.

Naquele meio e ele só a se valer “Ah, meu Padrinho Ciço, Nossa Senhora, só vós agora é quem pode me socorrer. A gente vai se acabar aqui e ninguém dá notícia”.

Fazer o quê?  Ele tinha só uma faquinha assim, mas fazer o quê com uma fera daquela? Uma monstra que a munheca da mão é simplesmente um machado quando bate. Aí ela, naqueles meio, estava em pé. Deitou-se.

Ela deu uma chicotada com o rabo no lombo, que a ponta do rabo ficou entre as oreia. Deitou o rabo pra frente, deu aquela latadona que a ponta do rabo veio nas oreia. Ela ficou ali, pousada pra sartá, né?

Aí naquele meio, quando ela fez aquela posição pra sartá nele, no mesmo momento ela levantou-se. Levantou-se e saiu se afastando pra trás como que ela viu um negócio que temeu. Pia, seu Zé? (Depois de um tempo de conversa, José passou a chamar o repórter de seu Zé, do mesmo jeito que é chamado)

Ela levantou-se e aí saiu, se afastando de costa. Pia? Ele disse que uma distância longa, ela saiu andando só de costas, como quem tava vendo um negócio que ela assombrou-se. Saiu, saiu, saiu, se afastando até que se encobriu, foi-se embora.

Pia, seu Zé? Não perseguiu mais ele não. Como ela viu uma coisa que assombrou-se. Assombrou-se. Saiu numa distância longa se afastando só de costa, de costa, de costa, quando já tava na posição de saltar nele. Hein?

Ele disse:” Valei meu Padre Cícero se eu for me acabar aqui ninguém vai dar notícia. Só o senhor e Nossa Senhora pode me valer”. Hein, senhor? Tudo isso é coisa que eu tô falando aqui porque eu conheço a pessoa. Hein seu Zé?

Aconteceu essa passagem. O que Deus manda. Quem trabalhar no caminho errado chama as trevas, tudo chega é ruim. Quem trabalha nas direita, tudo só vem direito. Luís Chiquinha ia nessa história contrito a Deus no coração. E chamou por Ele, Ele valeu. Na maior agonia, hein seu Zé?

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “Romeiro escapa de onça por milagre”

  1. Alcivandes Santos SantanaDisse…
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    Muito fiel a fonte reveladora.
    A narrativa de fácil compreensão.
    Parabéns

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Mestre Alcivandes, seus livros sobre Santa Brígida, o Padrinho Pedro Batista e a Madrinha Dodô e os benditos são exemplares. Eles nos serviram de motivação para o desenvolvimento de matérias no município. Sua avaliação é muito importante para nossa equipe. Um grande abraço.

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