As memórias de Sento Sé

As memórias de Sento Sé

Pedagoga, jornalista e mestranda em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental, na Universidade Estadual da Bahia (Uneb), a juazeirense Adzamara Rejane Palha Amaral, 41 anos, tem dedicado a vida acadêmica aos impactos causados pela Barragem de Sobradinho, em Sento Sé, terra de seus antepassados desde que os bisavós se mudaram da vizinha Pilão Arcado para o povoado de Brejo da Brasida.

Depois participar de um trabalho de pesquisa sobre a história do jornalismo de Juazeiro, Adzamara escreveu o livro-reportagem “Sento Sé: memórias de uma cidade submersa” como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo, em 2012. Cem exemplares do livro foram distribuídos na jornada pedagógica de Sento Sé.

O tema agora é tratado na dissertação de mestrado em ecologia humana e gestão socioambiental. Nesta etapa, acaba de ser concluído é o documentário “Ecologia e Memória de Sento Sé – Bahia”, na qual moradores da cidade alagada, em 1976, o que enfrentaram quando o município – além de Pilão Arcado, Remanso e Casa Nova – deu lugar ao lago da Barragem de Sobradinho.

Adzamara Amaral. Arquivo pessoal
Adzamara Amaral

“Meus bisavós eram de Pilão Arcado. Depois se mudaram para o povoado Brejo da Brasida, em Sento Sé, onde a família se estabeleceu. Meus pais contavam que os animais que a família criava morreram afogados porque a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) não deu tempo para que fossem transferidos. Além disso, as pessoas foram colocadas nos caminhões às pressas.Contam que a Chesf perdeu o controle e a água chegou muito rápido” – diz a mestranda.

As memórias afetivas dos familiares motivaram Adzamara a entrevistar 11 pessoas, reconstituindo a antiga cidade e o sofrimento passado pelos morados. Um dos pontos altos do documentário, disponível no You Tube, são as fotografias da velha Sento Sé, onde só a igreja e a Casa Grande, símbolo da cidade, não foram demolidas.

Nas entrevistas feitas em abril deste ano, as pessoas que mudaram da velha para a nova Sento Sé contam que, a princípio, não era crível que as cidades pudessem ser alagadas. Diante da realidade, a imensa tristeza de perderem suas terras e de seus mortos ficarem para sempre debaixo d’água.

Os moradores contam que funcionários da Chesf usaram de terrorismo e de mentiras para retirar a população. Ora diziam que tudo seria alagado e ninguém sobreviveria, ora faziam promessas de que haveria mais empregos e mostravam imagens de plantações do Sul e do Sudeste do Brasil, dizendo que os agricultores teriam fartura de tomates e outros alimentos, o que não se concretizou.

A única fábrica existente nas terras de Castela, a 70 quilômetros de distância, onde a nova cidade foi construída, era uma cerâmica, usada para anunciar mais empregos. No entanto, ela fechou.

As opções de moradia eram casas de um ou dois quartos com área para quem tinha comércio reconstruir o negócio ou áreas em Serra do Ramalho, município criado para receber atingidos pela Barragem de Sobradinho. Nem todo mundo se adaptou à nova cidade, localizada a 436 quilômetros de Sento Sé. Alguns voltaram e tiveram que usar os últimos recursos para comprar uma casa.

ANTES DAS ÁGUAS

 

Outra queixa frequente está relacionada com as indenizações irrisórias, a perda dos carnaubais – fonte de renda para muitas famílias -, o impacto negativo ao meio-ambiente e o tratamento dado aos sento-seenses.

“As pessoas eram jogadas em caminhões fenemês com o pouco que tinham e levados de qualquer jeito para a nova Sento Sé”.

A lembrança faz o engenheiro Gilberto Oliveira, que projetou 90% dos prédios da nova cidade, chorar.

O filme fala ainda da Área de Proteção Ambiental Boqueirão da Onça, importantíssima por ser uma das maiores extensões de preservação do bioma caatinga, e dos riscos de destruição que existem em função da ação dos garimpeiros de ametistas e de mineradores. Pelo menos três mil garimpeiros atuam hoje na área.

Vale ressaltar que há um ponto favorável a mudança da cidade, segundo os entrevistados. Houve melhoria considerável na área educacional. Antes só existia poucas escolas com professores leigos, hoje segundo o IBGE são 58 de ensino fundamental e duas de ensino médio.

O documentário é anexo da dissertação “Análise dos Impactos Socioambientais provocados pela construção da Barragem de Sobradinho em Sento Sé”, que está sendo orientada pelo professor Juracy Marques dos Santos. A qualificação ocorrerá no mês que vem (setembro) e a defesa em fevereiro de 2020.

Com a primeira parte do trabalho concluída, Adzamara constatou que o poder público não está aí para a preservação da memória da cidade. Como não há cobrança, vereadores e políticos “vão empurrando os problemas com a barriga”. Ela também constatou que a maioria das pessoas fica com a memória guardada para si e não divide com a coletividade. Por isso, pretende fazer uma exibição pública do vídeo na cidade.

Outra triste constatação é que a natureza está sendo devastada e não há ação das três esferas de poder.

“Não vai sobrar nada” – alerta.

Paulo Oliveira Administrator
Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Criou dois jornais populares: Massa (BA) e Hoje (CE). Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *