Os remeiros

Os remeiros

Rio de Cima era como os ribeirinhos do médio São Francisco chamavam o trecho navegável do Velho Chico, entre Juazeiro, na Bahia, e Januária, em Minas Gerais.

Vários homens de Rodelas (BA) durante anos faziam o percurso de 1.371 quilômetros rio acima, nas classes inferiores dos vapores, em oito, dez ou mais dias de viagem, a depender dos humores do rio.

Na volta, rio abaixo, participavam de uma verdadeira aventura: formavam a tripulação das grandes balsas formadas por troncos de árvores – entre 600 e mil unidades.

A viagem demorava semanas sob o sol, lua e estrelas, chuva e vento, na velocidade do rio, que era uma quando cheio – mais rápida -, e outra, quando seco – mais lenta.

A madeira era de qualidade superior, abundante no norte mineiro até meados dos anos 70. Antônio Vítor e Dãozinho figuravam entre os organizadores destas caravanas.

Milhares de troncos de peroba, jacarandá, pau d’arco, cedro, pau ferro, dentre muitas outras espécies usadas no fabrico de móveis, barcos, portas e outros objetos desceram o rio durante anos.

Subiram e desceram o rio Adelício Leriano, Cordeiro de Maria José, Nozinho, os irmãos Pláscido e Antônio Vieira, Chico Vítor, os irmãos Manelão e Severinão e tantos outros.

O destino era Itacarambi, norte de Minas, localizado na margem esquerda do São Francisco, onde o grupo ficava entre cinco e seis meses cortando e transportando a madeira para o rio em caminhões antigos.

“Naquele tempo a gente não conhecia a motosserra. As árvores eram cortadas no machado e transportada em dois caminhões velhos, mas bons, de Antônio Vítor” – lembra Euclides Mateus dos Santos, o Cordeiro de Maria José.

Cordeiro define aquelas viagens como ‘sofrimento grande’.

“Nunca cheguei aqui com saldo, porque bebia e comia o que me tocava na viagem” – diz ele, que afirma não se arrepender das idas e vindas porque elas serviram como boas experiências de vida.

“A gente chegava aqui com os peitos em carne viva, de tanto segurar a balsa na vara, quando tinha necessidade (e esta necessidade aparecia com frequência). De dia parecia que a balsa procurava os melhores caminhos. À noite sempre encontrava um jeito para encalhar”.

As balsas tinham em média entre 40 e 45 metros de comprimento e cerca de nove metros de largura. Detalhe: era formada por duas camadas de toras de madeira, acondicionamento que tornava o seu manejo ainda mais difícil, pesado e perigoso.

Em parte dela colocavam uma camada de barro, onde uma lata usada para transportar querosene era transformada em fogão sob uma precária barraca de lona. Assim que as cordas eram desamarradas a longa viagem iniciava.

Remeiro do São Francisco
Remeiro do São Francisco

Cordeiro se lembra que na última que participou, a balsa foi desmontada em Xique-Xique, no norte da Bahia, pois o rio já sentia os efeitos da Barragem de Sobradinho. Mas o destino mais comum era Petrolina, onde quase toda madeira era vendida.

Na subida, lembra Zé Vítor, que participou de quatro viagens – ou expedições -, os homens passavam o tempo dormindo e comendo, se preparando para o trabalho da volta, que era dos mais duros.

Acumulavam energia para o demorado e pesado período em que ficavam em Minas e para o retorno. Ocupavam seus lugares na embarcação e dormiam em redes armadas no grande vão inferior. “Os quartos ficavam lá pra cima”.

As viagens aconteciam, geralmente, nos períodos de cheia, quando as grandes balsas desciam o rio sem ter que enfrentar as croas, bancos de areia que surgem no São Francisco durante os períodos de águas baixas.

Nelas as balsas naturalmente ‘estacionavam’, impedindo a descida, detalhe que além de atrasar a viagem, aumentava consideravelmente o desgaste físico da tripulação e os riscos de acidentes graves.

“A gente passava semanas descendo o rio”, lembra Zé Vítor.

Na cheia, o percurso era concluído em 30 dias, mas durante a baixa das águas, a viagem demorava cerca de 50 dias. Ou mais, quando no seu comando não estava um barqueiro experiente que conhecia os segredos do rio.

A baixa velocidade nem sempre significava viagem tranquila, onde boa parte do tempo assistia-se o tempo passar. Não rara foram as situações tinham que ser resolvidas no braço, com auxílio das varas.

Nestas horas os homens tinham que suportar no peito todo peso da embarcação. Para afastar a balsa de pontos onde corriam risco de choque, que poderiam quebrar a corda que mantinha a madeira junta, era necessária esta intervenção.

Eram dias e noites sob o sol inclemente, noites estreladas ou dias chuvosos. O velho barqueiro Cordeiro, hoje com 73 anos, lembra que os encontros com os vapores nem sempre eram agradáveis.

“A mareta que eles provocavam quando passavam ou cruzavam com a gente fazia a água subir na balsa e causava problema maior ainda quando era de noite. A gente acordava com a água molhando tudo”.

Um dos algozes era o vapor Fernando da Cunha, um colosso que por décadas singrou as águas do São Francisco para cima e para baixo, transportando pessoas e mercadorias.

E quando estes encontros aconteciam à noite, geralmente registrava-se o estouro da madeira.

“Dava um trabalho medonho para a gente recuperar os troncos”, lembra Zé Vítor.

Para passar nos pontos mais estreitos do rio, a recomendação era que, caso a balsa se aproximasse deles no período da tarde, fosse amarrada nas barrancas.

A tripulação esperava até a madrugada do dia seguinte para que a viagem fosse retomada. “Era uma rara noite tranquila, de sono”, lembra Zé Vítor.

As viagens, verdadeiras aventuras, ficaram para sempre na memória de quem delas participou. Foram encerradas no final dos anos 70.

As leis ambientais não mais permitiram o corte indiscriminado das árvores, mesmo que naquela época ainda engatinhassem.

E o lago de Sobradinho definitivamente inviabilizou estas expedições.

Florestano de nascimento, coração rodelense e alma feirense, admirador de forró, MPB, autores nordestinos e músicas dos anos 80, Batista Cruz, Arfer, há 27 anos trocou a administração de empresas pelo jornalismo. O gosto pela reportagem alimenta diariamente o fogo da paixão que nutre pela profissão que abraçou, incentivado pelo irmão Anchieta Nery, também jornalista e professor universitário. Descende dos tuxás, tribo ribeirinha do São Francisco. Torce pelo Verde e o Bahia.

3 reflexões sobre “Os remeiros”

  1. Darlene AlmeidaDisse…
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    Narrativa cheia de significados para mim e para a minha família, já que foram essas viagens que nos levaram de nossa amada Rodelas. Meu pai, o Daozinho – Sebastião- amigo do Cordeiro José e João Vitor, figuras muito ilustres que estavam sempre em nossa casa, viveram intensamente com o pai, essas aventuras. Em meados dos anos 70, precisamente dezembro de 1973, o meu pai nos levou para morar em Itacarambi éramos crianças, e lá o meu os pais acolhiam os companheiros Rodelenses, amigos.
    Grata pela história, com certeza meu pai teria muitos outros fatos para contar

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Darlene, a equipe de Meus Sertões fica feliz quando consegue reavivar lembranças nas pessoas que nos seguem. No seu caso, além da alegria, ficamos emociondos. Meus Sertões está de portas abertas para você. Se quiser enviar um texto sobre seu pai e/ou de suas lembranças à época, se tiver fotos dessa tempo e quiser dividir conosco, por favor, faça contato pelos e-mails: paulo@meussertoes.com.br ou contato@meussertoes.com.br. Outra opção é o zap 71 9 86839936.

  2. batista cruzDisse…
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    peço-lhe desculpas por não citar Daozinho neste texto, visto que liderou algumas delas. numa das versões escritas – foram muitas, os citei, inclusive como ele, mais antonio vitor, conseguiam dinheiro paras as viagens. apaguei o paragrafo e me passei. abraços para seu pai e sua mãe

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