Peixes em extinção no São Francisco

Peixes em extinção no São Francisco

O padre italiano Pier Antonio Miglio, 65 anos, da Diocese de Floresta, pesca desde quando era criança. Há 40 anos, ele trabalha em cidades atravessadas pelo rio São Francisco, na Bahia e em Pernambuco. Responsável por um projeto de criação de peixes atualmente, ele não deixa de sair de manhã para pescaria no lago formado pela barragem de Moxotó.

Incentivador da aquaponia – sistema de produção de alimentos que combina aquicultura (criação de peixes, lagostas e camarões) com a hidroponia (cultivo de plantas em água) em ambiente simbiótico -, padre Antonio cria, experimentalmente, apaiaris e pacamãs, espécie ameaçada de extinção.

Antonio Miglio lembra que o pacamã está incluído na Arca dos Sabores, projeto internacional que visa salvar alimentos mais interessantes e tradicionais do mundo. Ele conseguiu três espécimes com o setor de piscicultura da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), que visa repovoar o rio.

Peixe
Pacamã, o “linguado do São Francisco”

A experiência com o sistema de aquaponia também serve para ver avaliar a possibilidade de implantar a criação comercial de pacamãs. Até o momento, estudos acadêmicos mostram que o peixe feio, carnudos, muito saboroso e quase sem espinhas, não conseguem desenvolver plenamente. Sua cabeça, equivalente à metade do corpo, costumava ser usada para fazer ensopado de pirão.

Desde quando chegou ao Brasil, em 1979, um ano após ser ordenado, Antonio nunca se afastou do São Francisco.

“Conheço todos os peixes do rio, inclusive os que desapareceram. O que sumiu mesmo foi o pirá, peixe de couro como o surubim, que crescia até 20 ou mais quilos. Era um peixe gorduroso, toucinho puro. A posta era branca com uns fiozinhos vermelhos. Até dois quilos dava para comer, depois era só gordura. O maior que vi tinha 25 quilos” – lembra.

Atualmente, segundo o religioso, é muito raro alguém pegar um surubim. Os dourados também sumiram. Eles eram pescados, geralmente, com anzóis. Os menores pesavam sete quilos; os maiores, cerca de 14 quilos. No passado, era possível pescar um ou dois por dia.

“Era muito peixe. Agora ficamos com pouca coisa. Todos os peixes de piracema, que precisam se deslocar até a nascente dos rios para procriação, estão quase extintos porque as barragens não deixam os peixes subirem” – explica, enquanto serve um café com suco de frutas, pão e pirambeba (piranha branca) em conserva.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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