Pescadores em barragem

Pescadores em barragem

Pescadores do rio São Francisco, que agoniza lentamente, conseguem sobreviver de seu trabalho em raros redutos. Um deles é no lago da barragem da Usina Hidrelétrica de Itaparica (hoje chamada de Luiz Gonzaga), no rio São Francisco, entre os estados de Pernambuco e Bahia. Lá, conseguem pescar tilápias, curimatãs, caris e piranhas, que são vendidos as feiras das cidades de Floresta e Belém de São Francisco, no lado pernambucano.

Para aproveitarem a fartura que ainda existe, pescadores montam acampamentos e passam dias trabalhando em dois turnos – de 8h às 10h, pela manhã, e das 14h às 17h, à tarde.

Bosco ao lado do ajudante Marcelo, que conserta as redes. Foto: Paulo Oliveira
Bosco ao lado do ajudante Marcelo, que conserta as redes. Foto: Paulo Oliveira

Bosco, como se identifica, é um profissional experiente. Há 20 anos tira o sustento das margens da barragem. Atualmente, montou o seu “apê”, cabana feita de lona, pedaços de madeira e panos, e o local onde faz a manutenção das redes, debaixo de pés de algaroba, em Itacuruba (PE).

Paraibano de Cabaceiras, pai de oito filhos entre 23 e 38 anos, Bosco conta que trabalhou como marceneiro e motorista antes de ser pescador. No entanto, foi com a pesca que conseguiu pagar os estudos dos filhos Júnior Alves da Silva, médico, Jaílson e Severina, ambos formados em administração. Casado pela segunda vez, comprou também a casa em que mora, em Riacho Pequeno, distrito de Riacho Pequeno.

Bosco mostra a cabana que chama de "apê". Ao fundo a moto que comprou com dinheiro da pesca. Foto: Paulo Oliveira
Bosco, a moto e o “apê” no acampamento à beira da barragem. Foto: Paulo Oliveira

O pescador trabalha com um ajudante, Marcelo. Ambos tiram cerca de 150 kg de peixe do rio por semana, o que garante cerca de R$ 1.500. Para maximizar o lucro, Bosco também cria galinhas caipiras ao redor do acampamento. Elas são vendidas a R$ 25, a unidade.

“Só saio da margem do rio se deus quiser na cidade do pé junto” – diz ele, que não teme a concorrência.

ATRAVESSADORES

Há cerca de um quilômetro de distância do QG de Bosco, Fernando da Silva Lima, 50 anos, e o filho Lucas Barros Lima, 23, preparam café e cuscuz para comerem após a conclusão do primeiro turno de trabalho – no caso deles de 5h às 8h30min.

Os dois vieram de Ibimirim (PE), a 136 km de Itacuruba. No lado em que estão encontram mais piaus do que pescadas e curimatãs. O que pescam, ao contrário de Bosco que comercializa por conta própria, é vendido para um atravessador por R$ 7, o quilo. Em semana fraca, eles recebem entre R$ 600 e R$ 700. Na forte, o ganho é de R$ 1.000.

Lucas e Fernando preparam cuscuz no acampamento. Foto: Severino Silva
Lucas e Fernando esperam o cuscuz ficar pronto para o café. Foto: Severino Silva

Fernando e Lucas no maior reservatório de Pernambuco. Devido às estiagens constantes, o açude de Ibimirim entrou no volume morto (7%), em 2015, obrigando-os a encontrar um novo local para pescar. Atualmente o reservatório opera com 8,19% da capacidade.

Com 20 anos de experiência, Fernando foi para Petrolândia, onde está localizada a usina Luiz Gonzaga. Depois soube que a pesca estava melhor em Itacuruba, a 92 quilômetros de distância, e trocou de acampamento. O veterano pescador tem mais dois filhos. Um deles vive da pesca de camarão, em Serrita (PE). O mais novo ainda está na escola.

Lucas, que acompanha o pai, concluiu a 5ª série. Ele tem a intenção de viver da pesca, afinal a atividade permitiu que a família adquirisse um imóvel em Ibimirim.

A única reclamação que a dupla faz é com relação aos pescadores predadores que usam redes abaixo das medidas previstas na legislação.

COLAPSO DO CASTANHÃO

A quantidade de peixes do Lago de Itaparica atraiu até pescadores que sofreram com o colapso do Castanhão, maior açude do Brasil, com capacidade de 6,7 bilhões de metros cúbicos de água. Desde o início dos anos 2010, o reservatório sofre com as secas e opera no volume morto. As estiagens provocam baixa acentuada de vazão e poluição, causa da mortandade de peixes.

Francisco Martins Alves, o Chico Gaudêncio, foi para Itacuruba após o colapso do Castanhão, no Ceará. Foto: Severino Silva
Chico Gaudêncio veio para Itacurupa, após colapso de açude no Ceará. Foto: Severino Silva

Francisco Martins Alves, o Chico Gaudêncio, 60 anos, natural de Cruzeta, no Rio Grande do Norte, trabalhou seis anos na Vila Pesqueira, em Alto Santo, um dos quatro municípios por onde se estende o açude. Sem alternativa, foi arregimentado pelo atravessador Jean, que comercializa pescado.

Ele e outros 20 pescadores vieram em caminhão com algumas canoas. O preço pago por Jean para compensar as despesas é bem menor do que conseguiriam na venda avulsa. Na tabela do atravessador, o quilo de curimatã sai por R$ 8; tilápia e piranha, R$ 4; piau e pescada, R$ 9. Gaudêncio recebe entre R$ 300 e R$ 400 por semana.

Nas horas vagas, o pescador deita na rede, fuma cigarro de palha e bebe cachaça.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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