Frei Damião: o homem

Frei Damião: o homem

O padre italiano Pier Antonio Miglio, 65 anos, 40 deles dedicados aos sertanejos e ao sertão, conheceu bem seu conterrâneo Frei Damião. Nas dioceses de Paulo Afonso (BA) e Floresta (PE), ele teve a oportunidade de se encontrar várias vezes com o capuchinho, tendo inclusive recebido ele como hóspede em casa. Antonio desmistifica a imagem normalmente atribuída ao homem que está para ser santificado pelo papa Francisco:

“Eu tive a sorte de conhecer Frei Damião. Ele era realmente uma pessoa única no mundo dele, era uma graça. Nada a ver com o que diziam:  que ele não comia, que ele não pisava no chão, que ele fazia penitência. Na minha casa ele tomava refrigerante com todo gosto e botava os biscoitos champanhe no refrigerante ” – conta.

Ao humanizar o religioso, Padre Antonio não tira a aura de santidade do frei, pelo contrário. O religioso define o frei como dedicado e voltado à missão a qual se dedicava. Ressalta ainda que Damião era muito atento e não era tradicionalista:

“Claro que a pregação dele era a que aprendeu nos anos 1920 e 1930 (Damião, cujo nome de batismo era Pio Giannotti, foi ordenado em 1923 na Itália e chegou ao Brasil em 1931). No entanto, ele procurava saber se havia trabalho de comunidade de base por onde passava, se as comunidades estavam estudando a Bíblia. Assim, na pregação, frei Damião reforçava o que estava sendo feito” – diz.

Padre Pier Antonio Miglio. Foto: Grupo Missionário Bellinzago
Padre Pier Antonio Miglio. Foto: Grupo Missionário Bellinzago

Padre Antonio conta ainda que o capuchinho preparava três homilias antes de celebrar as missas.

“Em uma delas acrescentava a parte mais moderna de teologia da libertação. Depois, fazia a lição dele, o que aprendeu desde novo e sempre fez”

Antonio Miglio diz que para conhecer melhor o conterrâneo era preciso ter uma aproximação, deixá-lo conversar, saber ouvir. O padre afirma que Damião também era um bom ouvinte com quem o tratava bem.

“Mas se você tratava ele como um boneco, levava ele pra cá e pra lá, visando se promover, não saía nada. Ele era preocupado com o que acontecia e queria colaborar, mas vivia um martírio quando os políticos se encostavam e as pessoas tentavam tirar proveito da imagem dele, infelizmente”.

O religioso, atualmente na cidade de Jatobá (PE), diz que Frei Damião era brincalhão e gostava de contar piada. Para isso, era só o deixar à vontade e não o prender na gaiola dourada da áurea de santidade que todo mundo triscava para se abençoar ou tentar ficar curado de alguma doença.

Sobre o bom-humor, cita uma passagem ocorrida quando seguia com o frei para uma celebração em uma comunidade.

“Eu estava no carro com ele. Frei Damião tinha 90 anos (morreu com 98). Perguntei brincando quando ia poder sossegar com as tentações da carne. Aí ele começou a dar risada e respondeu: “He, he, he, ainda hoje tenho eu (que resistir aos desejos)”.

 

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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