Velhos vaqueiros, bois e mandingas

Velhos vaqueiros, bois e mandingas

Essa é a história do vaqueiro Getúlio Rodrigues de Souza, o Tucha, 75 anos. Mas nesse contar vai aparecer muitas vezes seu parceiro de montaria e profissão Miguel Alves Pereira, 71 anos, cuja história já foi publicada em Meus Sertões. Essa uma hora de prosear foi preenchida com aventuras, mistérios e uma visita ao local onde Tucha ainda guarda o terno de couro, os lendários facões da marca Corneta e outros instrumentos do tempo em que para ver um carro demorava dias.

Desde que se entende por gente, Tucha se embrenhou no mato. Montava cavalo em pelo para buscar a água que o pai usava na roça. Amansar bichos também fazia parte de seu repertório. Por volta dos 10 anos foi trabalhar no campo e nunca mais saiu. Nessa época, viu a primeira “suçuaraninha”.

Sem nunca ter ido à escola, se pós graduou como vaqueiro e comprou um terno de couro. A preferência era se encourar com pele de veado mateiro, mais elegante e resistente do que a de bode. Para isso tinha que ir até Ipirá, 489 quilômetros a nordeste de Malhada de Pedra, ou a Vitória da Conquista, 175 quilômetros a leste de sua terra natal. O sacrifício valia a pena, pois dificilmente era rejeitado por uma moça quando estava nos trinques.

Getúlio, o Tucho, no quarto onde guarda os couros e acessórios de vaqueiro. Foto: Paulo Oliveira
Tucha guarda os couros e acessórios de vaqueiro

“Já dancei em festa de casamento com terno de couro novinho que eu comprei em Ipirá. Parecia terno de linho. O couro novo é meio molenga. Naquele tempo as moças vestiam saião. Elas vestiam parte das roupas, tiravam retrato. E a viagem era essa. A gente dormia, acordava no dia seguinte e tomava o café. Depois pegava o cavalo e ia embora” – conta.

“Naquele tempo tinha o ditado ‘Quem não gosta de vaqueiro, não gosta de ninguém’” – acrescenta Miguel Pereira, dando o ar de sua graça.

Em seu longo cavalgar, Tucha puxou boiada para Brumado, onde está instalada a mineradora Magnesita, Iramaia, Jequié e Vitória da Conquista. Hoje, tem saudades das viagens, incluindo a comida nos ranchos, a sanfona, o forró e a cachacinha, que não podia faltar.

O velho vaqueiro lembra da vez que seu cavalo pisou em um buraco e o derrubou, sem maiores consequências. Fala que tinha pena dos salta-moitas, negros descalços que seguiam a tropa e eram acionados para buscar reses fugidas na caatinga fechada, onde cavalos não entravam.

“Quando o gado ia para o meio da caatinga brava era o salta-moita e um cachorro bravo que ia atrás dele. Salta-moita botava o pé no chão, mesmo. Não usava chinelo porque para correr precisava de pé no chão. Depois apareceu de tirar o gado com a guia. Naquele tempo não existia guia. A guia era encontrar o gado.” – explica.

A conversa vai desaguar daqui a pouco no universo fantástico dos encantamentos e dos bois mandingueiros, mas tenha paciência que a gente chega lá.

A RELAÇÃO COM OS PATRÕES

Naquele tempo não se pagava indenização e nenhum vaqueiro sabia o que era carteira assinada. No entanto, quando caíam na simpatia do patrão, de acordo com Getúlio “Tucha”, eram amparados.

Ele conta que um rapaz que trabalhava com ele, teve um acidente: um boi bateu no cavalo dele, derrubando-o. Na queda, sofreu traumatismo craniano e passou 18 dias em coma. Quando se recuperou, recebeu 50 hectares de terra.

O vaqueiro veterano conta que sempre se espantou com a quantidade de terras nas mãos dos fazendeiros, mesmo sem eles terem documentos probatórios.

“Eles marcavam a terra, botavam um pau lá. Se alguém invadisse, queimava com ferro. Ninguém cruzava mais a propriedade” – relata.

Na visão de Tucha, “tinha muito patrão bom, mas tinha patrão ruim”.  O ruim não dava comida direito e pagava com má vontade. Outros, faziam o pagamento alegre e davam farofa para os trabalhadores voltarem para casa com comida. Os mais legais ainda davam bons conselhos:

“Eu mesmo puxava o gado para um rapaz aqui. Ele dizia assim: “Ó Miguel, é só um litro de pinga por dia para tirar a poeira da goela. Não pode beber muito. É só um litrozinho por dia” – diz, demonstrando que o conceito de beber pouco é relativo.

O lendário facão Corneta
O lendário facão Corneta. Foto: Paulo Oliveira

Getúlio e Miguel sempre correram atrás de boi bravo, que tinha de ser pego no braço e derrubado na caatinga. Poucos vaqueiros saíam ilesos. Tucha derrubou muitos deles, mas um dia levou a pior. Depois de capturar o bicho, quando se preparava para levá-lo para o abate, foi atingido e ficou preso no laço. Assustado, o cavalo o arrastou pelo terreno pedregoso, arrancando o couro das costas do vaqueiro.

Um dos irmãos de Tucha, Manoel Rodrigues de Souza, também foi tocador de gado. Ele trabalhava para os outros, mas se recusava a fazer o serviço para o pai, que criava algumas cabeças. Manoel morreu há pouco tempo.

O QUARTO DA BAGULHADA

Os poucos vaqueiros em atividade não usam mais ternos de couro; outros substituíram os cavalos por motocicletas, algo impensável para Tucha, que até hoje não deixa de ir buscar um boi aqui e acolá.

Em seguida, faz o convite para o repórter conhecer o quarto onde guarda a “bagulhada” – forma como dona Joana se refere aos apetrechos de vaqueiro.

Para deixar os leitores mais próximos da realidade que Meus Sertões vivenciou, transcrevemos a conversa que ocorreu durante a visita.

Tucha – Minha velha não quer que eu trabalhe mais no campo, mas eu tenho vontade. Ontem mesmo voltei de noite. Quer ver o terno de couro? Aí a calça. Esse é o jaleco.

Joana – Ele diz que quando morrer, Miguel, que botar essa roupa.

Tucha – Não tá botando hoje a camisa de um jogador em cima do caixão?

Joana –  Ele quer porque quer. E eu digo: se eu morrer primeiro?

Tucha – Gastei muito dinheiro com essas roupas. Uso toda vez que tenho que ir pegar um animal

Joana – Cadê as botas?

Miguel – Bota o chapéu

Tucha – Aqui é o da farofa. O alforje.

Joana – Ele ficava muitos dias fora.

Repórter – A senhora não ficava preocupada?

Joana – Que jeito! Casei sabendo que a vida dele era essa

O vaqueiro mostra uma garrafinha de pinga e prossegue:

Tucha – A cabrestada de botar na testa do bicho. Tem um bocado de bride aí, Miguel.

Miguel – Na semana passada nós foi (sic) junto pegar um marruá (touro bravo). Pegou. Nós foi (sic) a cavalo, mas veio de carro.

Repórter – Pra que servia e ainda serve o facão?

Miguel – A gente usa pra defesa. Onde a gente anda não pode andar sem facão

Tucha – Esse aqui não tem mais não.

Miguel – A marca dele, Corneta, já acabou.

Tucha – Tem mais dele aqui (mostra mais um). Esse facão tem mais de 100 anos. Faz muito tempo que tenho ele. Esse outro aqui era de meu avô. Ele morreu com 116 anos. Quando tinha 110, meu avô me deu esse facãozinho. Foi dele muitos anos. Hoje não acha mais. Já vieram comprar e me ofereceram 150 reais. Meu menino, eu só tenho um filho. Quando eu morrer, se ele quiser dar para os outros pode pegar e dar.

Em seguida, Tucha mostra um laço e diz que possui ele há 10 anos.

Tucha – Esse laço é muito bom para laçar. Já lacei um bocado. O bicho não fugia. Às vezes um bicho vai embora, mas fica por lá. A gente vai lá e pega.  Nós conhece (sic) o rastro. Vai lá e pega.

Miguel – Na caatinga ninguém rouba. Só pega quem tem coragem.

Tucha – Agora vou pegar o ferrão

MiguelFerrão é uma vara com ferro, com ponteira. A gente pegava o gado no mato com ele. Tinha um amigo nosso – ele já morreu – que não tinha touro que ele não buscasse com ferrão. O touro vinha e ele batia quatro cinco vezes com o ferrão no focinho, na queixada, no couro dele. Na venta é um dos pontos fracos do bicho.

Getúlio "Tucho" e Joana, companheira de vida. Foto: Paulo Oliveira
O vaqueiro Getúlio “Tucha” e Joana, a companheira de vida. Foto: Paulo Oliveira

Joana Aqui nesse negócio de escola, de apresentação, o pessoal vem muito atrás das coisas dele, mas eu não empresto sem ordem porque às vezes vai e não volta, né Miguel? Aí ele fica queixando de mim que entreguei.

CRENÇAS E MANDINGAS

O trato para pegar boi fujão é assim:  o dono do animal pergunta o preço para o vaqueiro. Ele diz. Atualmente é coisa entre R$ 50 e R$ 200. O pagamento só é feito se o bicho for encontrado.

Para ter sucesso, o caçador tem que ter manhã. Tucha conta que uma de suas táticas era localizar a fonte de água mais próxima do local da fuga e ficar esperando.

“O gado manso chega, bebe e malha (deita). O bravo, não. Bebe e cai no mato” – ensina.

Em um de seus acordos, a tática deu certo, mas foi preciso ficar correndo cinco dias na caatinga para tirar o bicho de lá. Mesmo depois de capturado, o touro deu trabalho.

“Ele andava mais para trás do que para frente” – fala e arranca risos de todos.

A tarefa de captura fica ainda mais difícil quando o fujão é mandingueiro. Tucha conta que foi fazer um serviço para dois rapazes, em Brumado. Montado no cavalo Lampião, foi atrás do boi que diziam ser encantado.

“Quando cheguei perto do boi, ele saltou. Você sabe onde é o campo de avião ali? Perto dele tinha a capoeira mais linda do mundo. Quando eu olhei para ver meu irmão que vinha atrás, o boi desapareceu. Aí chegou (sic) uns quinze vaqueiros. Nós fomos caçar o boi. Fomos achar ele dois quilômetros na frente. Ele subiu a serra e foi embora” – conta.

A busca não terminou aí. Um velho ensinou para Tucha que boi dessa estirpe só se pegava se o vaqueiro passasse sete dias e sete noites dentro do próprio laço, com ele armado. O contrafeitiço deu certo. O bicho foi capturado.

“Os donos decidiram matar o boi de faca. Ninguém comeu a carne porque ela ficou preta” – garante.

A existência de assombros e encantamentos faz os vaqueiros recorrerem à patota, um tipo de patuá no qual se guarda uma oração e/ou uma folha em uma bolsinha entrançada. Eles carregam o amuleto preso ao gibão ou à algibeira. Miguel, assim como Tucha, diz que nunca se valeu deste recurso. Admite, no entanto, que tinha uma pessoa que fazia uma oração de proteção do livro de São Cipriano.

Ele acrescenta que finado avô tinha um exemplar da publicação atribuída, sem comprovação, ao alquimista, astrólogo e mago santificado após ter sido martirizado na Turquia. A publicação, tratada pelos sertanejos em geral como algo muito poderoso, capaz de despertar temor e deferência, contém rituais de ocultismo, exorcismo, supostas magias e conjurações para o bem e para o mal.

“Essas orações são pesadas” – diz Tucha.

O vaqueiro mais velho diz que os seguidores do santo árabe são capazes de feitos extraordinários como impedir o disparo de revólver com o poder de orações.

“Tinha um velho pro lado de Guajeru (cidade a 24 quilômetros de Malhada de Pedras). O filho era arruaceiro. O pai não o deixou ele bater na mulher. O rapaz puxou o revólver para matar o velho, atirou três vezes e não saiu nada” – conta Miguel.

Tucha completa a história:

“O pai sabia fazer invocações do livro. Ele tomou o revólver do filho e falou: tu quer (sic) ver como atira? É assim meu filho. Pegou o revólver e tchan. Matou o filho na hora. O velho sabia de coisa.  Ele tinha corpo fechado.”

Os dois amigos explicam que até hoje São Cipriano tem seguidores no sertão. Os supostos ensinamentos de feitiços são passados de pai para filho por gerações.

Tucho e Miguel. Foto: Paulo Oliveira
Tucha, Miguel e a garrafa de pinga. Foto: Paulo Oliveira

Tucha conta ainda o caso de um homem chamado Bertolino, também detentor de poderes sobrenaturais. Ele relata que saiu para trabalhar às três horas da manhã e encontrou o sujeito na estrada de paletó e mochila. Toda vez que tentava passar pelo homem, o cavalo refugava. O vaqueiro perdeu a paciência:

“Sai da frente ou eu passo por cima. Ele respondeu: ‘Passa não, aqui quem vai é Bertolino. Tá acordado, tá dormindo, tá tinindo. Pode encostar menino’. E o cavalo encostou”.

Contam na cidade que Bertolino ainda é vivo, tem 90 anos e só é visto por quem ele quer.

Uma história puxa outra e Miguel lembra do velho Guimarães. Quando passava uma pessoa que não era de seu interesse, o ancião encostava na beira da estrada e virava toco. O risco era alguém colocar um chapéu em cima do pedaço de árvore, quebrando o encanto e impedindo o mago de voltar a ser humano.

Tem ainda a história de outro invocador de conjurações, o único que conseguia pescar no lago de Mucambo.

“Ele falava com os bichos e as traíras atendiam os pedidos dele” – explica.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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4 reflexões sobre “Velhos vaqueiros, bois e mandingas”

  1. Adriana LeiteDisse…
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    Lindo texto!

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Muito obrigado, Adriana

  2. Edmilson Rocha.Disse…
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    Muito bonita a história de vida deste Herói dos Sertões. Obrigado Tucha por preservar e enaltecer a vida e aos vaqueiros. Fiquei lisonjeado com os seus relatos. Abraços.

  3. Flávio PassosDisse…
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    Parabéns pela brilhante matéria sobre os velho vaqueiros, povo simples e guerreiros do nosso sertão.

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