Soleira da porta

Soleira da porta

Considerada habitação dos espíritos em algumas culturas, a soleira ganhou significações mais e mais abrangentes a partir, tudo indica, da Antiga Grécia.

É vasta a literatura e ainda remanesce em nosso meio e por todo o Brasil hábitos e costumes relativos ao ponto demarcador da entrada no ambiente sagrado de um lar ou templo.

O mesmo se dava em Roma onde a soleira era habitação dos deuses Limentino e Limentina, de onde se origina o termo LIMIAR, ponto a partir do qual o lar é sacralizado pelas entidades protetoras.

Lembro-me da velha Dinda a falar de rezas em horas abertas a partir da soleira e era no limiar da porteira da fazenda que os umbigos dos bebês da família eram enterrados para que tivéssemos fortuna e fôssemos, como diz o antropólogo e historiador Câmara Cascudo, amigas do lar e inimigas de vadiagens e passeios longes.

Noiva pisar em limiar de porta só após assenhorar-se da vida doméstica, daí o costume tido por romântico, de ser carregada pelo noivo ao entrar na casa pela primeira vez.

Em África alguns povos enterram os seus mortos ilustres nas soleiras das casas onde pontificaram. No Egito, sacrifícios cruentos eram realizados às portas que, lavadas em sangue, reafirmavam a sacralidade do lar.

Feitiços, pragas, esconjuros e orações ganham poder se ditados a partir das soleiras e o menor tropeço nela significa pior dos augúrios – melhor desistir da saída pois coisa boa não espera avisado tropeçador.

No livro medieval “O Martelo das Feiticeiras” lemos como aquelas julgadas e condenadas na Inquisição realizavam bruxarias enterrando nas soleiras cabeças de serpentes e ossos de animais para, em nome de Satanás, realizarem rituais que, aqui, aconteciam no limiar da porta dos fundos.

Com o sertanejo baiano Pedro Santinho aprendi a rezar espinhela caída espichando o adoentado pelo umbral da porta, mas a amiga Celina, vinda de outra região, ensinou-me que quem toca o chão da soleira não toca o seu teto sob pena de malefícios que nem sabia enumerar.

Assim se degringolam as tradições sem perder a sua força e a universalidade de certos hábitos supersticiosos ou não se provam ainda quando nos colocamos à escuta das gentes.

Nasceu e cresceu numa típica família brasileira. Potiguar, morando na Bahia há vinte anos, é médica de formação e pesquisadora da cultura popular. Nos últimos 10 anos abandonou a sua especialidade em cardiologia e ultrassonografia vascular para atuar como médica da família na Bahia e no Rio Grande do Norte, onde passou a recolher histórias e saberes. Nessa jornada publicou cinco livros.”. No final de 2015 passou temporada no Amazonas recolhendo saberes indígenas.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *