ABC do sertão

ABC do sertão

A quadrilha junina Forró do ABC, a mais antiga em atividade na capital baiana, se inspirou na obra de Graciliano Ramos para disputar os títulos dos campeonatos estadual, regional e nacional deste ano. O primeiro lugar no festival Galinho 2019, realizado pela TV Aratu, no início do mês, aumentou a confiança dos 150 integrantes no enredo “Ser Tão Bom”, livre adaptação do romance “Vidas Secas”.

A proposta de transformar um clássico da literatura modernista em uma fábula junina que revela a bondade dos sertanejos, o amor pela terra, seres encantados e a realização do sonho de Sinhá Vitória e o casamento dela com Fabiano foi sugestão de Sérgio Barros, diretor artístico pernambucano, contratado há quatro anos para colocar a quadrilha soteropolitana entre as melhores do Nordeste.


A conquista do segundo título do Galinho sobre a Companhia da Ilha por dois décimos de diferença mostra que, apesar da drástica redução do número de quadrilhas no estado – eram 400 hoje são 46 nos grupos principal e de acesso -, o nível entre os competidores é elevado. Afinal de contas, o vitorioso precisa de valiosos pontos nos quesitos musicalidade, figurino, conjunto do trabalho, marcador, casamento e coreografia.

A próxima competição será realizada entre os dias 17 e 20 de junho, na Praça de Periperi. As oito integrantes da primeira divisão, dentre elas a ABC, disputam o título no último dia. A campeã se classifica para o Festival de Quadrilhas Juninas da TV Globo, no dia 23 de junho, em Goiana (PE), e para o Brasileirão da categoria, em agosto, em Brasília (DF). A segunda colocada disputa o Nordestão, em Santa Rita (PB).

ORIGEM DO GRUPO

A Forró do ABC foi fundada no dia 9 de maio de 1982, a partir da junção de equipes de gincana do Colégio Candolina, no bairro Pau Miúdo, em Salvador. Em 37 anos, se sagrou bicampeã do Galinho, tricampeã do Arraia da Capitá, tetracampeão do concurso Ao Pé da Fogueira e foi terceira colocada no Nordestão, promovido pela Confederação Brasileira de Entidades Juninas.

Segundo o vice-presidente Edmílson Lima, a quadrilha teve que inovar para se manter em atividade:

“Para chegar ao nível das fortes concorrentes do Nordeste, tivemos que estilizar nossas apresentações. Modificamos figurinos, criamos cenários e escolhemos temas mais elaborados, incluindo teatro, dança e cenografia e transformando as apresentações em um espetáculo artístico junino” – conta.

Atualmente, a sede do grupo é no bairro do Curuzu. Mesmo sem ter apoio e patrocínio, a quadrilha investe cerca de R$ 70 mil para participar das competições top. Os prêmios não cobrem os custos. O maior deles, para a campeã, é de R$ 45 mil. O do Galinho, por exemplo, paga o valor simbólico de R$ 4 mil. Antes a campeã ganhava uma motocicleta.

Os custos são cobertos com o que é arrecadado com rifas, apresentações remuneradas em empresas e hotéis e eventos para o lançamento do tema anual, a apresentação dos noivos e dos personagens principais. Os preparativos para as disputas começam em agosto, quando termina o período de festas juninas. O tema e o figurino são definidos em setembro. Os ensaios começam dois meses depois.

Daíne Lima mostra o arranjo para o cabelo das dançarinas. Foto: Paulo Oliveira
Daíne Lima mostra o arranjo para o cabelo das dançarinas. Foto: Paulo Oliveira

As roupas do grupo são confeccionadas por dona Eliene e oito costureiras e costureiros da comunidade. Os sapatos são encomendados na Paraíba e os chapéus, em Pernambuco. O custo total por participante varia de R$ 450 a R$ 600. As despesas de componentes sem condições financeiras são pagas pela ABC.

TEMAS SURPREENDENTES

Uma das características da agremiação do Curuzu são os enredos criativos. Dentre eles se incluem o amor de Gilberto Gil pelas festas juninas, a cidade de Itaberá e a Zambiapunga, festa folclórica trazida da África para o Brasil, tradicionalmente realizada na cidade de Nilo Peçanha (BA).

Mariete Lima, presidente da ABC, acompanha ensaio na escola Duque de Caxias. Foto: Paulo Oliveira
Mariete Lima, presidente da ABC, no ensaio, na escola Duque de Caxias. Foto: Paulo Oliveira

Esta tradição é marcada por um grupo de mascarados, com capacete e roupa colorida, desfilam na madrugada do dia de Todos os Santos (novembro) e na festa do Senhor do Bonfim (janeiro), ao som de enxadas vibradas por percussão, tambores e búzios sobrados. Assim, celebram o nascer do dia e pedem proteção.

O enredo Ser Tão Bom é o primeiro que a quadrilha desenvolve sobre o semiárido. Ele culmina com o casamento de Fabiano e Sinhá Vitória, personagens de Graciliano, e, ao contrário do romance, ressuscita a cachorra Baleia.

“Normalmente as pessoas falam da tristeza do sertão. Nosso enredo mostra o verde da caatinga, a chuva, alegria, fartura, a bondade dos seres humanos e a manutenção dos sertanejos em suas terras” – explica Edmílson

Thiago Ferraz, 29 anos, coreógrafo e componente que faz o papel de noivo, está exultante com o personagem Fabiano, com quem se identifica. Para o pernambucano, o tema deste ano foi um presente.

“Fabiano tem a minha essência. É rude, às vezes, mas tem bom coração e mostra para a amada, Sinhá Vitória, que dá para viver bem e ser feliz no sertão” – revela.

Já a bailarina, técnica em enfermagem e estudante de Educação Física, Jamile Viana, 38 anos, que dá vida à noiva Sinhá Vitória, diz que o enredo não destaca todos os brincantes e não apenas os personagens. Ela começou a dançar quadrilha aos oito anos e está é a sexta participação na ABC.

A cachorra Baleia, interpretada pelo bailarino Robson dos Anjos, ex-integrante do Balé Folclórico da Bahia, é uma das sensações do grupo. Foi o próprio dançarino quem construiu o figurino e a estrutura que facilita a locomoção. Tendo como referência o movimento de alegorias de escolas de samba, gastou R$ 1.100 para fazer  Baleia.

“Confesso que resisti um pouco e tive medo de assumir o personagem, que me conquistou assim que fiz a primeira costura. Sobre o tema, considero que ele trata da batalha que travamos todos os dias. Nada mais é que a releitura de nosso sertão de pedras, onde existe inveja, trapaças, mas também muito amor” – compara.

FORRÓ RUSSO

A ABC do Forró também é conhecida pelo acolhimento que dá aos novos integrantes. A mestre em filosofia e ciências sociais russa Elena Sahno, a Alhóna, é testemunha disso. Morando há oito anos no Brasil, casada com um baiano, ela se apaixonou pelas quadrilhas juninas ao ver uma apresentação no Pelourinho.

A russa Elena Sahno se apaixonou pela dança junina. Foto: Paulo Oliveira
A russa Elena Sahno se apaixonou pela dança junina. Foto: Paulo Oliveira

Orientada por uma professora de dança, tomou coragem e foi até o bairro do Cabula, onde pediu para participar de um grupo, cujo responsável não demonstrou nem um pingo de paciência. Elena reconhece que nem tudo que fazia era certo: demorava para se arrumar, errava a coreografia. Mesmo assim, ficou surpresa ao ser convidada a deixar a quadrilha.

“Aqui na ABC me sinto mais ‘quadrilheira’. O clima é mais leve e tem mais espaço para me desenvolver. Pretendo continuar aqui por muito tempo” – planeja.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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