Mestre Assis Calixto

Mestre Assis Calixto

É de coco que não é fruta – é samba – e de pedaço de pau, mulungu, pano, cascas, raízes, e disco de vinil virado em bicho e bonecos que vive Francisco de Assis Calixto Montenegro, o Mestre Assis Calixto, 74 anos. Aliás a música e o artesanato dão sustentação ao Coco Raízes da cidade de Arcoverde, a pouco mais de 250 quilômetros de distância de Recife, capital pernambucana.

A fama internacional não tirou a humildade do mestre, que herdou do irmão a missão de levar adiante relevante marca da cultura do mais populoso município do sertão do Moxotó. Sentado ao pé do cruzeiro, que dá nome ao bairro de onde se avista toda a cidade e onde o samba de coco prosperou, Assis Calixto conta sua história.

Parte I – O resgate do coco

Fim do dia nóis descansa
Porque o coco vai tocar
Tem as roupa pra arrumar
E começar a festança!
Todo mundo entra na dança
Nessa roda com alegria
Numa noite que valia
Por uma semana inteira
Até gente que é mineira
Canta o que nem sabia
“A Oficina Desperta”, do grupo Passo Virado

“O coco foi um resgate porque já havia outras pessoas que faziam isso na cidade, só que era de ano em ano. O responsável era um senhor chamado Ivo Lopes, que morava na avenida Pinto de Campos e todo ano participava com o coco no dia de São João. Depois ele ficou fazendo nos bairros porque como ele se candidatou a vereador da cidade, queria chamar atenção do povo e arrumar voto.

Quando foi em 1986, ele faleceu. E o coco não teve continuidade. Tinha pessoas que acompanhavam ele, mas não tiveram interesse. Aí, meu irmão Lula Calixto, que não fazia parte do grupo de Ivo, mas ia para as brincadeiras, encontrou uma senhora que veio de Recife para promover a cultura e o turismo de Arcoverde. Isso aconteceu em 1992.

Lula andava sempre com um pífano, vendendo umas catiras (pequenos produtos). Quando viu essa mulher, ele tocou um pouco do pífano, cantou um coco e ficou dançando para incentivar ela a comprar alguma coisa. Foi quando a senhora, chamada Maria Amélia, perguntou se aquela dança tão bonita já existia em Arcoverde. Ele disse que sim, contou a história de Ivo Lopes e falou que tudo tinha acabado depois da morte dele.

“Seu Lula, a gente tem que fazer o resgate disso daí” – disse Maria Amélia (hoje gestora do Museu do Barro de Caruaru).

Ela também perguntou se Lula conhecia as pessoas que faziam parte do antigo grupo. Enquanto aquela senhora foi para Recife comprar instrumentos musicais, Lula convidou os Lopes e os Gomes para resgatar a tradição. Maria Amélia estava empolgada e nós lhe botamos como Madrinha do Coco.

Quando começaram os ensaios no Cruzeiro e as apresentações nas escolas, o pessoal que visitava Arcoverde começou a espalhar que estava tendo um negócio bacana no Cruzeiro. Um chamava o outro. A festa cresceu tanto que não cabia mais gente nesse largo, antes cercado de moradias.

Com o movimento, o povo foi criando cada qual um pontinho, um barzinho e se mudando para outras casas. Cresceu o bairro, cresceu Arcoverde, cresceu a rede hoteleira, que já está lotada para o São João. Tudo graças ao Coco Raízes de Arcoverde. Hoje, a gente se apresenta de dois em dois meses, ou de três em três. É mais nas escolas, pois contratar para show está difícil. Falta dinheiro.

Meu irmão Lula fez o resgate de algo que tinha morrido. Em 1999, ele faleceu. Tinha 57 anos. Morreu novo, de doença de chagas. A gente morava em uma casa de taipa, no meio do mato, em Rio da Barra, no município de Sertânia. E tinha esse barbeiro. Nós somos de lá. Quando ele partiu, eu dei continuidade ao Raízes, a essa altura formado só por nossa família.

Arcoverde tem hoje seis grupos de coco: Raízes, Trupé, Irmãs Lopes, Pisada Segura, Coco da Malhada e Aliança. O Raízes tem 12 componentes. Antes, quando era formado por três famílias, chegou a 35. Alguns desistiram e outros formaram novas agremiações.

Quem criou o tamanco de madeira com tira de couro para os dançarinos de coco usarem foi Lula Calixto. Ele achava que as alpercatas não faziam a pisada que ele queria, um som bem alto para o povo escutar.

O primeiro calçado está em nossa sede. Ele era forrado de plástico para os pés não escorregarem. O tamanco virou praticamente instrumento musical e símbolo do samba de coco. Atualmente, eu produzo eles, artesanalmente, em minha oficina. Eles são vendidos para França, Bélgica, Alemanha e Itália. Um dia desses mandei 12 pares para a Holanda

O grupo tem três CDs e um DVD gravados. Já fizemos duas turnês na Europa, em 2005 e em 2006. Na primeira, fomos convidados por um francês, que viu nossa apresentação na Torre Malacoff, em Recife. Fizemos shows em cinco países. Foi uma experiência e tanto, mas acabamos lesados por nosso empresário, que desapareceu sem nos pagar.

A atual sede do Coco Raízes fica do lado oposto da antiga, atravessando a BR-232 (Recife-Parnamirim). A anterior foi devolvida depois de atrasos consecutivos dos aluguéis e de uma vaquinha para quitá-los. A atual também não é própria, mas a prefeitura está pagando. Ela também serve de moradia para a produtora do grupo, Iram Calixto, e de local para pequenos shows.

O Coco Raízes tem ainda o coco mirim, com 10 componentes, e faz oficinas em escolas públicas. Nossos planos é participar da criação de um polo estruturado de samba de coco e fazer apresentações em Moçambique. Os shows na África ainda carecem de confirmação.”

Parte II – A oficina Tudo Do Céto

“Mestre Assis e sua oficina
Eu lhe digo como é
Brinca como bem quiser
Canta coco e faz rima
Quando olho lá em cima
É bonito e decorado
O lugar é encantado
E bem pendurado no muro
Fica um sininho que juro
Toca para quem é chamado”
A Oficina Desperta – Grupo Passo Virado

A oficina de Assis Calixto se chama “Tudo Do Céto”. Pelo menos é o que está escrito no topo da escada que leva até ela. A linguagem dos estranhos passarinhos com olhos de bola de gude, das carrancas de mulungu e de toda sorte de bichos e objetos que a imaginação permite criar pode ser traduzida para “Tudo dá certo”.

O artesanato de Calixto, feito com casca de coco, pedações de pano, sementes, discos de vinil, madeira leve e cabo de vassoura, ficou oito meses exposto no Sesc, em Recife, e atraiu quatro mil pessoas. A exposição continha esculturas, máscaras e instrumentos musicais, além de vídeos, áudios das músicas do compositor e ilustrações do Mestre.

Boa parte do material é encontrada na banca que Mestre Assis mantém na porta de casa, onde faz catiras com as bonecas e tamancos para dançar coco. À espera de freguês, senta sob a árvore diante de casa, cujo tronco foi pintado por ele próprio.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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