Forró no Rudela

Forró no Rudela

No final dos anos 60, Luiz Gonzaga, em excursão pelas pequenas cidades sertanejas, cantava em praça pública patrocinado pelas prefeituras. Um dia fez um show no Rudela*. Naquela noite, o Clube dos Brancos, onde a maior estrela da música nordestina se apresentou, arreganhou suas portas para negros e índios. Todos dançaram, quebrando uma antiga e preconceituosa regra.

Nas festas, o clube permitia a entrada de negros e índios, mas eles não podiam bailar, apenas ver os brancos rodopiar pelo salão. Quem desobedecesse a regra nem era convidado a se retirar: era expulso, mesmo. A amizade era despida no batente do clube, que funcionou até os anos 70 na rua da Frente.

O grupo comandado pelo sanfoneiro chegou cedo e se instalou no hotel de Lourdes de Zé Lucas, o único da pequena cidade emancipada há seis anos. Gonzagão, seguido por uma multidão – considere multidão ‘algumas muitas pessoas’ – deu uma volta pelas poucas ruas do Rudela. Foi uma festa antecipada para a meninada.

O cantor e compositor pernambucano visitou a Igreja, onde viu a secular imagem do padroeiro São João Batista talhada em pedra e instalada em um nicho fora do templo, voltada para o rio São Francisco. Depois andou de canoa e foi até a Ilha da Porta. Os ribeirinhos desconfiaram que o ídolo dos sertanejos não sabia nadar, tamanha insegurança ao entrar no barco. Depois, sentou-se no meio e de pernas abertas.

Na bodega de Guilherme viu um torno de madeira, onde as redes de algodão cru que duravam anos eram feitas nos teares de Dinha ou Toinha de Galdino. E soltou uma das suas: “Este torno foi colocado tão baixo que nem dá para o dono desta bodega se enforcar”. Gargalhada geral. Até o sisudo Guilherme riu.

À noite no clube, a apoteose. Os “rudelenses” nunca tinham visto espetáculo tão belo. O forró rolou até as primeiras horas da manhã. O prefeito João Fonseca teria dobrado o cachê do artista para que ele tocasse até o sol raiar, como manda a tradição sertaneja do forró de latada. Gonzagão estava acompanhado de Dominguinhos, sanfoneiro que iniciava carreira, e da mulher dele, Anastácia, cantora mais do que afinada e de destacada beleza física.

Gonzaga, com compromisso marcado para a noite seguinte em Paulo Afonso, tinha que sair cedo e apressadamente para cruzar os 120 quilômetros que separam as duas cidades. Naquela época, a estrada de terra, enfeitada por buracos de todos os tamanhos e catabios – como os sertanejos chamam “costela de vaca” – davam a impressão de dobrar a distância. A Rural estava carregada.

Ao passar por Penedo, povoado do Rudela, Luiz Gonzaga atendeu aos pedidos dos moradores que não assistiram o show na noite anterior e invocou que iria fazer um arrasta-pé de dia. E fez. O fole roncou até a boca da noite. Como cachê, muita carne de bode seca e produtos agrícolas, como tranças de cebola e sacas de feijão, acomodados na picape, ele, Dominguinhos e Anastácia chegaram em Paulo Afonso quase na hora marcada para o show. E mais uma vez o fole quase falou até a manhã seguinte.

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Contam a história de que Zé Lucas quase estoura o bucho de beber água, no dia seguinte ao show no Rudela. Anastácia e Dominguinhos, que eram casados, descansavam em um dos quartos do pequeno e modesto hotel. O calor era tanto que deixaram a porta aberta.

A cantora, muito bonita, dormia um tanto à vontade, o que motivou Zé Lucas a ir ao pote várias vezes e aproveitar para dar uma espiadinha. O marido não suportou o chiado das pisadas e estibungadas do caneco.

 “Se cubra senão o homem vai morrer de tanto beber água” – pediu à mulher.

Zé Lucas, agricultor que um dia foi delegado quando o Rudela era vila de Glória, dizia que a história fora inventada pelo cabo Matias, um conhecido gozador, para aperreá-lo. No entanto, dizem que o caso aconteceu mesmo.

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(*) Forma como os moradores chamam a cidade de Rodelas, localizado no vale do rio São Francisco, na Bahia.

(**) Nome artístico da cantora e compositora pernambucana Lucinete Ferreira, que fez 210 músicas com Dominguinhos, incluindo os estrondosos sucessos “Eu só quero um xodó” e “Tenho sede”.

 

Florestano de nascimento, coração rodelense e alma feirense, admirador de forró, MPB, autores nordestinos e músicas dos anos 80, Batista Cruz, Arfer, há 27 anos trocou a administração de empresas pelo jornalismo. O gosto pela reportagem alimenta diariamente o fogo da paixão que nutre pela profissão que abraçou, incentivado pelo irmão Anchieta Nery, também jornalista e professor universitário. Descende dos tuxás, tribo ribeirinha do São Francisco. Torce pelo Verde e o Bahia.

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