Retrato escravo

Retrato escravo

A exposição “Retrato Escravo” de dois dos mais renomados fotógrafos brasileiros na área dos direitos humanos, João Roberto Ripper e Sérgio Carvalho, será inaugurada no dia 30 de maio, às 14 horas no Memorial do Trabalhador, na Avenida Sete de Setembro 2563, no Corredor da Vitória, em Salvador. Realizada pela Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), com apoio de outras entidades ligadas ao combate do trabalho escravo no Nordeste e no Brasil, a mostra de 31 fotos não tem data definida para o encerramento.

O carioca João Roberto Ripper Barbosa Cordeiro, 66 anos, é fotojornalista autodidata com passagem pelos jornais Última Hora e O Globo. Foi um dos fundadores da agência F4 de fotografia independente e criou a “Imagens da Terra”, cobrindo temáticas sociais Brasil afora. É referência nas áreas de trabalho escravo, trabalho infantil e na temática indígena.

Exposição "Retrato Escravo". Foto: Sérgio Carvalho
“Retrato Escravo”. Foto: Sérgio Carvalho

O premiado Sérgio Carvalho, 50 anos, que divide seu tempo entre a função de auditor fiscal do Ministério do Trabalho e a fotografia, estará presente na inauguração. Ele começou a documentar os casos de operários escravizados, em 1996, depois de uma inspeção na Serra do Cachimbo, na divisa do Pará com o Mato Grosso. Autodidata e com diversos livros publicados, ele dá detalhes sobre a exposição e a importância de se manter a questão da escravidão e da exploração de trabalhadores na agenda nacional.

Quando surgiu a ideia de fazer esta exposição?

A ideia visa manter o tema trabalho escravo presente na agenda nacional. Mesmo depois de mais um século da abolição, esse crime continua existindo praticamente em todas as regiões do país e em atividades rurais e urbanas. A proposta surgiu da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae) e contou com o apoio do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho), do Ministério Público do Trabalho da Bahia, da Subsecretaria da Inspeção do trabalho (SIT/ME) e da Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae/BA).

Como foi trabalhar com João Roberto Ripper?

O Ripper é um ser humano especial. Como fotógrafo é uma grande referência de resistência e de luta pelos direitos humanos. Sua fotografia humanista me inspira e sua parceria é um grande orgulho para mim.

“Não podemos varrer essa chaga (trabalho escravo) para debaixo do tapete como se não existisse.”

Vocês registraram quantas situações de trabalho escravo nos Brasil?

De 1995 até hoje foram resgatados, oficialmente, mais de 53 mil trabalhadores em situação de trabalho escravo. Eu não saberia dizer a quantidade exata desse total que foi registrada por nós.  Comecei a fazer essa documentação a partir de 1996 e o Ripper já estava em campo há muito tempo. São milhares de negativos e arquivos digitais que contam essa triste realidade. Nos anos 90, essa documentação estava concentrada nas atividades rurais, nas regiões Norte e Centro-oeste do país.  Em 2003, começaram a surgir os primeiros casos urbanos envolvendo imigrantes bolivianos em São Paulo.

Exposição "Retrato Escravo". Foto: João Roberto Ripper
Trabalhadores escravizados Foto: João Roberto Ripper

Quantos e quais estados estão representados nesta exposição? Quantas fotos fazem parte desta mostra?

A exposição toma como ponto de partida o livro “Retrato Escravo”, que lançamos através da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2010. Para esta exposição, com 31 imagens, fizemos a releitura dos nossos arquivos e incorporamos fotografias coloridas. Essas fotos foram captadas em todas as regiões do país. O trabalho escravo não é como se pensa, uma coisa restrita ao mundão amazônico. Esse crime está mais perto do que a gente imagina.

Como você e o Ripper analisam a importância desta exposição em um momento em que os direitos dos trabalhadores estão sendo suprimidos pelos últimos presidentes?

Não podemos varrer essa chaga para debaixo do tapete como se não existisse. Por isso é uma exposição necessária. A sociedade precisa tomar conhecimento pra poder agir. É através da conscientização que esperamos contribuir pra mudar essa realidade.

Existe a possibilidade de o trabalho escravo acabar no Brasil?

Precisamos acreditar que sim.

Como está hoje a fiscalização?

Em 2014, o Brasil já havia sido denunciado junto à OIT, em razão do número insuficiente de auditores fiscais do trabalho, pela falta de concurso para reposição desse quadro. De lá pra cá, essa situação só piorou com as aposentarias dos últimos anos. O quadro já era enxuto, agora tem mais de 1.000 cargos vagos, prejudicando o combate ao trabalho escravo, o infantil, a redução de acidentes no trabalho, o combate à informalidade, etc.

Essa exposição durará quanto tempo? Essa exposição passou ou passará por outros estados?    

Já fizemos diversas exposições sobre esse tema, mas nesse formato, Salvador é a primeira capital a receber. A ideia é sempre circular, fazer uma itinerância, alcançar um maior número possível de visitantes. Acho importante que esse tipo de exposição ocupe cada vez mais espaços públicos, que possibilite o acesso de toda a sociedade. É importante também sair dos espaços fechados, mais formais, para ocupar as ruas, praças, estações de ônibus, de modo a alcançar o cidadão comum, dentro da sua rotina diária, no trajeto casa/trabalho, casa/escola.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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