Romaria Pankararu

Romaria Pankararu


A relação entre o padrinho Pedro Batista da Silva (1888 – 1967), beato e conselheiro estabelecido em Santa Brígida (BA), a Madrinha Dodô (1902 – 1998), seguidora e herdeira espiritual de Batista, e os indígenas Pankararu se consolidou graças a Maria Bárbara Binga (1917-1993), indígena batizada pelo padre Cícero, devota dos padrinhos e criadora do grupo de penitentes da aldeia de Brejo dos Padres.

As terras dos Pankararu têm cerca de 8.000 hectares entre os municípios de Tacaratu, Petrolândia, Itaparica e Jatobá, em Pernambuco. Além do Brejo, há outras comunidades como Tapera, Serrinha, Marreca, Caldeirão, Bem-Querer e Cacheado. Segundo a fundação Joaquim Nabuco, 3.670 índios viviam na área demarcada, em 2016.

Maria Bárbara Binga. Foto: Acervo da família Oliveira/Site Os Brasis e suas Memórias
Maria Bárbara Binga. Foto: Acervo da família Oliveira/Site Os Brasis e suas Memórias

Maria Bárbara nasceu e sempre morou no Brejo dos Padres, embora viajasse frequentemente para cumprir obrigações rituais, que incluíam peregrinações a pé para Juazeiro do Norte, a cerca de 350 quilômetros de distância.

Segundo a doutora em antropologia pelo Museu Nacional e professora da Universidade Federal de Alagoas, Cláudia Mura, autora da biografia “O ‘tempo do conselho’: a atuação de Maria Bárbara Binga, penitente e romeira Pankararu”, a herdeira espiritual de madrinha Dodô, fundou o grupo de penitentes, na década de 1940, e costumava hospedar Pedro Batista em suas passagens pela aldeia.

A irmandade feminina tinha oposição do grupo masculino, mas as restrições desapareceram com o tempo para que os romeiros se fortalecessem diante das famílias promotoras dos rituais de tradição indígenas, que contavam com o apoio do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Os homens penitentes, após a morte de Maria Bárbara, incentivaram a continuação das romeiras, hoje lideradas por Amélia Julião, 79 anos, nora da fundadora.

Amélia Julião, 79 anos, líder dos romeiros Pankararu. Foto: Paulo Oliveira
Amélia Julião, 79 anos, líder dos romeiros Pankararu. Foto: Paulo Oliveira

Maria Bárbara até hoje é lembrada por atos de caridade, humildade e por não ter preconceitos. Apesar de promover novenas, rezas, romarias, instituir a festa de Nossa Senhora da Boa Morte e cuidar da Igreja de Santo Antônio, padroeiro dos Pankararu, na aldeia, ela não descuidava das obrigações rituais para com os encantados cultuados por seus antepassados.

NA ALDEIA

O vínculo com a líder indígena, facilitou o que os estudiosos chamam de “tempo do conselho”, ou seja, a era dos conselheiros, época em que Pedro Batista e a madrinha Dodô atendiam os indígenas, dando orientações sobre como solucionar questões diversas e implantando valores morais para regular a vida naquela sociedade. A presença de Batista estimulou romarias espontâneas em busca de bênçãos e conselhos. Muitos indígenas, inclusive, defendiam sua permanência no local. No entanto, Pedro Batista foi expulso de lá pelo então chefe do posto do SPI, Orínculo Castelo Branco Bandeiras.

“O chefe nosso, lá do lugar, tirou ele. Dizia que ele queria mudar os costumes dos índios, pregando que as mulheres deviam andar mais compostas, por exemplo. Alguns caboclos ficaram do lado do padrinho. Eles queriam brigar, mas meu padrinho disse que ia embora. Muita gente gosta dele por isso. Por ele ser de paz e evitar um conflito entre nós” – conta Amélia Julião, que este ano esteve mais uma vez com o grupo de romeiros em Santa Brígida para homenagear os beatos.

Amélia acrescenta que Pedro Batista chegou na cidade baiana montado em um cavalo, quando o local era pobrezinho. De acordo com ela, o conselheiro nunca incentivou a ida dos indígenas para Santa Brígida porque o Brejo dos Padres era rico em água e frutas. Ao contrário, os desencorajou. Isto não evitou a ida de alguns Pankararu que decidiram trabalhar nas plantações de algodão do beato, além de um grupo que permaneceu em Pernambuco, mas participava ativamente dos mutirões e dos rituais organizados pelo padrinho, que a esta altura tinha consolidado a fama de curar doenças, afastar espíritos e reestabelecer a sanidade de loucos. As regras, no entanto, eram rígidas: beber, fumar, jogar e brigar eram proibidos.

Outra versão para a expulsão de Batista do Brejo dos Padres é que o chefe do posto teria ficado preocupado com a possibilidade do surgimento de um movimento messiânico no local, o que impediria a implantação da política do SPI.

A ROMARIA

Duas das três chefes da penitência Pankararu foram escolhidas por Maria Bárbara antes dela morrer. Uma delas é Amélia Julião, atual líder. Dona Amélia perdeu as contas das vezes que foi cumprir obrigações no município que se desenvolveu graças ao padrinho.

Romeira indígena com a camisa com a foto de frei Damião estampada. Foto: Paulo Oliveira
Romeira indígena com a camisa com a foto de frei Damião estampada. Foto: Paulo Oliveira

Este ano, 28 mulheres e dois homens, chegaram de Jatobá, Itaparica e Paracatu, em Pernambuco. Vieram em um micro-ônibus. Na metade do século 20, percorriam o trajeto a pé ou de cavalo para entregar a penitência, no Sábado de Aleluia.

Todos usam roupas brancas com estampas de santos ou de frei Damião. Osvaldina Dantas de Lima Barreto é uma das romeiras. Diz que sempre participa das novenas, penitências e caminhadas. Os indígenas trazem beiju e duas caixas repletas de pinhas para distribuir entre os que zelam pela obra dos padrinhos.

Após meia hora, os penitentes, à frente um homem carregando uma cruz com laços de pano amarrados e uma jovem levando um quadro da madrinha Dodô, circulam a praça onde está a estátua da beata. Cantam benditos e fazem orações diante da imagem. A parada seguinte é na Casa Museu Pedro Batista/Madrinha Dodô. Novas rezas e cantos na sala principal. No quarto onde o padrinho passou os últimos anos de vida está uma imagem de um ser encantado Pankararu.

Pausa para o almoço. É servido bacalhau, arroz e umbuzada. À tarde, haverá procissão para o cemitério onde Batista e Dodô estão sepultados. Lá, será encerrada a entrega da penitência, iniciada com rezas sete semanas antes.

Enquanto aguarda a refeição, dona Amélia, 79 anos, prestes a completar 80, come um pouco de arroz. Diabética há 30 anos, não pode ficar muito tempo sem se alimentar. Entre uma colherada e outra,  conta que os Pankararu conviveram com outro beato, chamado por alguns de Zé Messias; por outros, Zé Batista ou Padrinho de Inajá, outra cidade pernambucana. Ao certo, ninguém sabia o nome dele, pois chegou à aldeia sem documentos.

Amélia diz que um dia foi procurá-lo, pois seu filho andava mal. Após rezar o ofício e o rosário de São Francisco, ela fez uma braiada com cinco ingredientes receitados pelo beato. Foi prescrito que ele deveria comer a mistura durante cinco dias. O homem também diagnosticou o mal foi causado por um trabalho feito pela mulher do rapaz.

Praiá (entidade encantada) dos Pankacaru no quarto onde Pedro Batista passou os últimos dias. Foto: Paulo Oliveira
Praiá (entidade encantada) dos Pankacaru no quarto de Pedro Batista. Foto: Paulo Oliveira

O relato de dona Amélia deixa claro a complexidade da crença dos indígenas, na qual os santos impostos pelos padres católicos, convivem com um universo de encantamentos e os praiás, entes que se manifestam nas cerimonias rituais e festivas. Eles encarnam em pessoas vestidas com coberturas feitas com fibras de caroá.

Amélia é filha de indígena com mulher branca. O pai, José Gomes da Silva, casou quatro vezes. Sem nunca ter ido para escola, batia nos filhos para que estudassem.

“Eu tremia toda e ele dizia: ‘Vai ler, vai ler’. Mais tarde botei todos os meus filhos para estudar. Graças a Deus, hoje todos estão empregados. É na Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), é na Funai (Fundação Nacional do Índio) …”

Seu José morreu com 99 anos, “sem nunca ter tomado uma injeção”.

Amélia casou com outro José, filho mais velho de Maria Bárbara. E teve quatro barrigas de gêmeos. No total, oito homens e três mulheres.

ENCONTRO COM A MADRINHA

A líder dos romeiros de hoje conheceu Dodô através da sogra, muito apegada a sucessora espiritual do padrinho. Ela lembra que a comadre dava grande quantidade de arroz para saciar a fome de seu povo. Recorda ainda que nas penitências, a madrinha seguia bem atrás, enquanto os homens iam na frente.

“Eu ainda era solteira quando ela foi para o Brejo dos Padres dar comida para os índios. Ela fazia sabão e comprava retalho de pano para fazer cobertas para a pobreza se enrolar. Nesse tempo o governo não ajudava. Minha sogra organizou as primeiras romarias nos anos 1940. Trazia os meninos nos braços, nos quartos e dormia no caminho” – relata.

Da sogra, que morreu aos 76 anos, recorda que era uma mulher de muita força, que foi duas ou três vezes a pé para Juazeiro.

“Era uma cabocla muito limpa e boa. A panela era grande” – define.

Seguidores da madrinha contam que só Maria Bárbara era capaz de acalmar Dodô quando ela se aperreava. E que quando ela ouviu que a previsão do padrinho de que morreria em breve, disse apenas: “Fazer o quê meu padrinho?”. Não durou cinco dias e fez a viagem, segundo Amélia.

Da madrinha, recita uma antiga lição:

“Case no civil. O casamento é bom da igreja, mas para o governo é no civil”.

Relembra que quando os indígenas pediram para Dodô definir uma penitência que fosse paga em Juazeiro do Norte, a madrinha atendeu, mas preferiu que a entrega ocorresse em Santa Brígida.

Durante a conversa, a zeladora do Museu Casa, Maria Aparecida Polosena da Silva, 55 anos, revela que a madrinha fazia banquetes (mesadas) para os pobres como promessa para que a criação da Previdência Social fosse aprovada durante o governo Getúlio Vargas, que Dodô teria conhecido pessoalmente. Assim o povo poderia se aposentar e ser amparado na velhice.

É a deixa para o assunto na cozinha da casa onde o padrinho morou passar a ser o atual presidente da República, que está acabando com os direitos trabalhistas, tenta impor um novo regime previdenciários cruel e ameaça rever as áreas das reservas indígenas.

“Esse Bolsonaro é um homem muito violento, quer que todo mundo ande armado. É doido. Só dá conselho para o mal.” – diz Amélia.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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