Mês: maio 2019

Retrato escravo

A exposição “Retrato Escravo” de dois dos mais renomados fotógrafos brasileiros na área dos direitos humanos, João Roberto Ripper e Sérgio Carvalho, será inaugurada no dia 30 de maio, às 14 horas no Memorial do Trabalhador, na Avenida Sete de Setembro 2563, no Corredor da Vitória, em Salvador. Realizada pela Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), com apoio de outras entidades ligadas ao combate do trabalho escravo no Nordeste e no Brasil, a mostra de 31 fotos não tem data definida para o encerramento.

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Dona Preta

O ex-caminhonheiro Antônio Carneiro de Oliveira, o Antônio de Roque, 76 anos, tem muitas histórias para contar. Uma delas é sobre uma paixão antiga: uma bicicleta Opel alemã.

Esta é a segunda matéria envolvendo este morador de Ichu, cidade a 178 km de Salvador, publicada por Meus Sertões. A primeira foi a do apagão no circo durante a apresentação do cantor e compositor Luiz Gonzaga. Em breve, encerraremos a trilogia.

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O desterro

Evaristo Lapada e a botija de Manoel dos Santos

Uma história para quem acredita e também para quem não acredita

João Batista Cruz de S. Arfer

Meses, anos se passaram para que parentes e vizinhos soubessem o porquê daquela mudança de domicílio às pressas, quase correndo. Maria, a mulher, e os filhos pequenos sequer se despediram dos parentes e dos amigos. Evaristo não tinha tempo a perder. Ele e Maria passaram a noite em claro. O dia ainda não tinha amanhecido e Evaristo Lapada juntou o pouco que tinha na sua casa, despejou em uma canoa e atravessou o Rio São Francisco rumo ao povoado do Jatinã, no lado pernambucano, sua primeira parada.

E o quase nada que levou se restringia a panelas de barro com fundos negros pelos anos de uso em fogões a lenha, colheres, alguns pratos, roupas e calçados gastos e um saco de estopa, que, quem viu a mudança, disse que alguma coisa o enchia até a metade – não sabiam o que. Observaram que Evaristo não tirou as mãos dele.

A família encontrou a canoa quase afundada devido aos buracos – quase rombos. Gastaram mais de hora para tirar a água que teimava voltar. Abriram o pano (velas) de saco com furos tão grandes que deixavam o barco mais lento e rumaram ao outro lado do rio para nunca mais voltar. Um dos filhos, com uma cuia, fazia movimentos rápidos para tirar a água do barco.

A conversa sobre a decisão de Evaristo de ir embora de repente logo se espalhou pela rua de Cima, na aldeia Tuxá, onde morava e chegou à rua da Frente, onde os brancos da vila viviam, e outras poucas da então vila do Rudela. Ninguém entendeu nada. O homem era uma pessoa de bem, pacata, não tinha história de ter se metido em confusão ou contraído dívida impagável com algum agiota.

Homem de poucas posses, Evaristo se estabeleceu no Belém do São Francisco, em Pernambuco, depois de uma temporada no Jatinã, onde tinha familiares. E lá se tornou pequeno comerciante. Montou uma bodega sortida, comprou uma casa e matriculou as crianças. Bem, a dúvida, que virou fuxico, se instalou no Rudela: como poderia uma pessoa pobre de uma hora para outra arrumar capital para montar o seu negócio, mesmo que modesto?

Para que não pairassem histórias e comentários desabonadores sobre sua honra, Evaristo resolveu contar o que lhe acontecera para alguns amigos de sua confiança, sob compromisso de que não espalhariam a história. Pessoas que para ele era importante que acreditassem no que lhes contaria. Os outros, portanto, nem fediam nem cheiravam. Os amigos não guardaram o segredo por muito tempo e passaram a história adiante.

Já escreveram que segredo entre mais de duas pessoas dá uma suadeira danada.

Eis o relato dele:

“Numa determinada noite, acordei com alguém chamando meu nome. Não me assustei porque nunca tive medo de alma penada. Noutra noite aconteceu a mesma coisa. Só que não acordei e a pessoa me apareceu. Era seu Manoel dos Santos. Depois de algum tempo de conversa, ele me disse o porquê da aparição: queria que eu desenterrasse uma botija.

Acordei e fiquei imaginando coisas. Depois de alguns dias, tive novo sonho com ele. Como se sabe, Manoel dos Santos era um homem rico. Ele me contou que havia alguns anos tinha enterrado uma boa quantia de dinheiro, para se proteger de um ataque de bandidos, os cangaceiros. E morreu sem dizer a ninguém sobre dinheiro. Se tornou alma penada. Como estava no outro mundo, tinha necessidade de desenterrar o dinheiro para ter paz.

Não sei porque fui o escolhido. Mas num determinado dia ele indicou o local e disse que tinha pressa. Ele me orientou, dizendo que assim que eu pegasse o dinheiro capasse o gato, fosse embora, porque quem desenterra uma botija não pode ficar no local onde mora, sob pena de que coisas ruins aconteçam com a pessoa e seus familiares. E assim fiz.

Fui lá, pelas bandas do sítio dele. É coisa para quem tem coragem mesmo, porque o tempo todo ele estava lá, do meu lado. Desenterrei o dinheiro, coloquei no saco e quando cheguei em casa falei com Maria que a gente ia embora no amanhecer do dia. Nem contei a ela o que tinha acontecido. E assim fizemos”.

O dinheiro desenterrado era muito. Mais de meio saco de estopa. Não dava para o felizardo ficar rico, mas foi um bom pé de meia. Evaristo Lapada abriu a bodega, mas não a administrou bem. Fechou, vendeu a casa e voltou para o Jatinã, o local mais perto que pode ficar do Rudela, visto que não podia retornar para a vila. Desterrado devido à botija, lá viveu até o fim dos seus dias.

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Manoel dos Santos foi político e empreendedor rodelense que, numa época que tudo era difícil e distante, lá pela primeira metade do século ´passado, importou da Europa uma máquina a vapor. Foi dono de loja e de engenho.

Todos de branco

Santa Brígida, cidade do sertão baiano que tem o nome da padroeira da Europa, se desenvolveu a partir da chegada do líder messiânico Pedro Batista. Ele e Maria das Dores dos Santos, a Madrinha Dodô, ex-assistente de Padre Cícero, acreditavam que o sofrimento do corpo era o caminho para se chegar até Deus. Por isso, pregavam a necessidade de os cristãos fazerem penitências e sempre rezarem.

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Dona Elza e o queijo de fogo

O queijo de fogo é um tipo de requeijão suave, feito artesanalmente com leite, manteiga de garrafa e pouco sal. Sua fabricação é trabalhosa. Da coleta do leite até sair pronto da forma são necessárias 34 horas, sendo que duas delas são passadas diante de um forno de pedras e lenha, mexendo a colher de pau sem parar. O processo faz com que poucos se aventurem a fazê-lo.

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