Guaraná abençoado

Guaraná abençoado

Depois do guaraná Jesus, refrigerante de coloração rosa, com toque de cravo e canela, inventado por um farmacêutico maranhense, em 1927, surge uma nova tubaína sagrada. É o guaraná Madrinha Dodô, fabricado em um depósito, em Santa Brígida, no sertão baiano, pelo ex-funcionário da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), Ivanildo Gomes de Melo, 80 anos.

Ivanildo mostra a garrafa do guaraná que produz. Foto: Paulo Oliveira
Ivanildo mostra a garrafa do guaraná que produz. Foto: Paulo Oliveira

A alagoana Maria das Dores dos Santos, a Mãe Dodô ou Madrinha Dodô, foi assistente de Padre Cícero e herdeira espiritual do beato Pedro Batista da Silva, o curador. Ela era respeitada pelos romeiros com quem dividia o que ganhava e morreu 10 dias antes de completar 96 anos, em 1998. A Madrinha está sepultada no mesmo túmulo de Pedro Batista, no cemitério de Santa Brígida, onde há imagens dela em praça pública, lugares sagrados e nos altares de diversas casas.

A ideia de batizar a tubaína com o nome da beata foi do professor de história e escritor Alcivandes Santos Santana, 47 anos. Ele sugeriu o nome a Ivanildo, experiente fabricante de refrigerante, ex-proprietário da marca Escoteiro, que fez sucesso em Paulo Afonso.

O pequeno empresário se curvou aos argumentos do professor e mudou a marca da cajuína Rochedo, fabricada há quatro anos. Vale ressaltar que os santa-brigidenses chamam tubaína de cajuína, embora na receita do refrigerante não entre caju.

Na argumentação, Alcivandes disse que a alteração projetaria o nome de Dodô além dos limites da cidade e que haveria mercado potencial em Juazeiro do Norte(CE), principalmente, onde a beata é muito conhecida.

Foto de Madrinha Dodô no rótulo do refrigerante
Foto de Madrinha Dodô no rótulo do refrigerante

A proposta que agradou ao empresário gerou críticas das benzedeiras. Elas viam a iniciativa como algo feito para ganhar dinheiro explorando a imagem de uma morta e não para projetar a obra de Madrinha Dodô.

TROCA

Para fazer a mudança, Ivonildo encomendou novos rótulos, mas manteve a receita do refrigerante Rochedo: extrato de guaraná, maça, guaraná champanhe, açúcar, ácido cítrico e conservantes). A medida trouxe nova dor de cabeça:

“Uma sobrinha de Dodô, professora aqui na cidade, me procurou e pediu para que eu parasse de usar o nome da beata senão eu seria processado” – conta o fabricante.

Segundo Ivonildo, foi feito um acordo para resolver a questão. Ele usaria os cinco mil rótulos, pelos quais pagou 500 reais, e depois voltaria a usar a marca Rochedo. Assim, evitou o processo.

No ritmo das vendas serão necessárias pelo menos sete meses e meio para os rótulos acabarem. É que são vendidos sete engradados (168 garrafas de tubaína) por semana para cinco clientes – quatro padarias, uma feirante e um estabelecimento no povoado de Marancó. Cada garrafa é revendida por R$ 1,50.

“O rótulo é muito bonitinho” – diz Maria Aparecida Polosena da Silva, 55 anos, responsável pela manutenção da casa onde Dodô e Pedro Batista moraram, sem querer entrar na polêmica.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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