A penitência

A penitência

Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Eu digo a você: Não até sete, mas até setenta vezes sete.

MT 18:21-22

Inspirada na passagem bíblica na qual Jesus diz a um apóstolo que se deve perdoar uma pessoa até 70×7 vezes, a penitência conhecida pelo enunciado desta equação passou a fazer parte da programação da Semana Santa, em Santa Brígida, no sertão baiano, incentivada pelo beato Pedro Batista e sua herdeira espiritual Maria das Dores dos Santos, a Madrinha Dodô, ambos falecidos.

A expiação ocorre na manhã da Quinta-feira Grande (Endoenças), na Igreja de São Pedro. Consiste em se ajoelhar e levantar 490 vezes enquanto dizem “Ave Maria/Santa Maria”, simbolizando a prece para a mãe de Jesus Cristo.

Tradicionalmente, em Santa Brígida, o 7×70 é uma penitência masculina. Este ano, nove homens e uma mulher participam. A maioria deles tem entre 25 e 45 anos. Isto faz com que o ritual seja mais acelerado. No passado, quando o grupo de penitentes era formado majoritariamente por idosos, a expiação durava até quatro horas. Desta vez, levou uma hora e quarenta minutos.

REZAs E FLEXÕES

Todos os participantes ficam descalços e seguram rosários, essenciais porque o roteiro da penitência segue a ordem das contas. Eles, no entanto, não usam mais roupas brancas como os antigos, preferem vestes comuns.

Os homens ficam na nave da igreja, diante da imagem do Senhor dos Passos. Lourinha fica bem atrás, ao lado dos bancos de madeira onde os fiéis sentam. Um deles serve de apoio para ela se ajoelhar e se levantar continuamente.

A cerimônia começa com uma introdução feita pelo servidor municipal e santeiro Erivaldo Pereira de Araújo, o Val, 45 anos. Em seguida, se reza o Credo, Pai Nosso e Ave Maria. Todos se benzem.

“Em nome do Pai eterno. Pai, filho, Espiríto Santo.”

Cada Pai Nosso é seguido de 10 ajoelhadas e erguimentos, representando a Ave Maria. Isto é feito 15 vezes consecutivas. Quando as contas do rosário terminam se ouve um sonoro “Fffffuuuu!!!”, que representa alívio e marca o início da pausa de cerca de um minuto antes do início da segunda volta no rosário.

Para completar os 490 “perdões”, é preciso cumprir o roteiro três vezes e completar as contas que representam quatro mistérios. Lourinha e um dos homens param no meio do caminho.

“Entendemos que cada pessoa tem o objetivo de concluir o 7×70, mas ela só deve ir até onde suportar” – diz Val.

A medida que avançam, os penitentes empapam as camisas de suor.

“Glorificado seja o nome de Jesus porque fomos fortificados com o 7×70. Que no dia do julgamento recebemos o fruto de nosso trabalho e de nossa penitência.”

Essas palavras encerram o sacrifício. Os homens sentam no chão. Cansados, esperam um pouco antes de ir beber água na sacristia. Um deles fraqueja e quase cai.

O penitente Romão Antônio da Silva, 42 anos, resume como o corpo reage após exaustivo exercício:

“As pernas ficam duras, a gente sai desengonçado. O corpo fica dolorido dois ou três dias.”

 

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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