Ritos fúnebres

Ritos fúnebres

A morte: costumes, crenças e tradições fúnebres no sertão

Edcarlos  Araújo de Almeida

Muitas pessoas não gostam de falar da morte, muitas pessoas não se preparam para a morte, muitas pessoas tem medo da irmã morte. Ó morte, quem és tu? Por que trazes tanto pavor e medo, se és a única certeza que temos na vida?

A morte para os cristãos é a passagem para vida eterna. Na bíblia encontramos este tema várias vezes, vejamos: “Assim como por um só homem veio a morte, também por um Homem veio a ressurreição dos mortos. Pois como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados” (1Coríntios 15, 21-22). “Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3,16).

Em cada região da terra, os povos têm costumes, crenças e tradições próprias ao sepultar os seus entes queridos. Um exemplo foi a sepultamento de Jesus Cristo: “…depois disto José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, ainda em oculto por medo dos judeus, pediu permissão a Pilatos para tirar o corpo de Jesus; e Pilatos concedeu-a. Foi José e tirou o corpo. Nicodemos, aquele que no princípio viera ter com Jesus, foi também, levando uma composição de cerca de cem libras de mirra e aloés. Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os aromas, como é costume entre os judeus sepultar os seus mortos” (Jo 19; 39-40).

NO SERTÃO

Segundo consta no livro de registros da Paróquia Sagrado Coração de Jesus de Ichu (BA), em 1918, na proximidade da então fazenda Enxu, já existia um cemitério destinados aos moradores das redondezas. Ele foi construído por Joaquim Lázaro Carneiro, dono daquelas terras, que estaria planejando a criação de uma cidade.

Antes da construção do Cemitério São Joaquim, os corpos das pessoas adultas eram levados para o cemitério do distrito de Candeal ou para a cidade de Riachão do Jacuípe. Já os “anjos”, como eram chamadas as crianças que faleciam precocemente (naquele período o índice de mortalidade infantil era muito alto em virtude da falta de pré-natal e de vacinas, além da fome que assolava muitas famílias) eram enterradas aos pés dos cruzeiros, costume da época.

A encomenda do corpo
A encomenda do corpo

Entre os cristãos católicos ainda é costume velar o desfalecido. Na hora da morte, as pessoas presentes tem o compromisso de velar aquele que está morrendo, colocando a vela na mão do desfalecido e só retirando depois da morte consumada.

Por muito tempo, quando alguém morria era necessário fabricar o caixão porque na região não se encontrava local para comprar um. E se houvesse, custaria muito caro. Diante disso, era muito comum ver tábuas guardadas em cima das paredes das casas para, em caso de uma eventualidade, confeccionar o caixão.

Logo que alguém falecia os carpinteiros começavam a trabalhar, não importando se de dia ou de noite. O mesmo acontecia com a confecção da mortalha (a veste dos mortos) pelas costureiras.

No passado, as sentinelas (vigília ou velório) reuniam familiares, parentes e amigos. Às vezes, era necessário fazer uma fogueira para aquecer as pessoas que velavam o corpo à noite. Elas tomavam chá ou cafezinho, contando histórias e piadas como forma de espantar o sono. Vale lembrar que quando ainda não havia energia elétrica, a casa era iluminada por candeeiro. Outro costume entre os católicos era (e ainda é), rezar o ofício de Nossa Senhora durante a madrugada.

Se o falecimento ocorresse à noite, quando ainda não existia telefone, era necessário avisar os parentes e amigos mais distantes ao amanhecer, com uma espécie de nota de falecimento oral, feita através de longa jornada, a pé ou montado em um animal. O comunicado tinha que se espalhar o máximo possível.

Ao receber a notícia, muitas vezes o receptor da informação dizia: “Já desconfiava, a rasga Mortalha avisou”. Há uma crença de que quando a coruja pia em cima da casa é sinal de que alguém vai morrer. Rasga mortalha é o nome popular de uma pequena coruja, de cores branca e marrom e de voo baixo. O atrito de suas asas, ao voar, produzem o som de um pano que está sendo rasgado. O povo acredita, que, quando ela passa sobre a casa de alguma pessoa doente, ela esteja rasgando a mortalha do enfermo, que, assim, está prestes a morrer.

Aproximando a hora do sepultamento e após tampar o caixão ao som de marteladas nos pregos, os homens, os carregadores de caixão, se aproximavam e começavam a fazer o cortejo levando o esquife nos ombros. Alguns “trotavam” para adiantar a viagem, pois não era fácil. Caminhavam léguas para sepultar seus mortos, muitas vezes com a lama na canela, pois chovia frequentemente.

Ao passarem na frente da igreja os sinos eram tocados. Se o defunto fosse homem eram duas batidas do sino grande e uma do pequeno; se mulher, duas batidas do pequeno e uma do sino grande, usado para anunciar a morte.

Outros costumes bem presentes em velórios de antigamente eram colocar o defunto com os pés voltados para a porta de frente, colocar uma bacia com água debaixo do caixão (servia para inibir o odor). E colocar uma varinha verde dentro do ataúde, caso o corpo não “endurecesse”. Pela crença quando o corpo fica mole é sinal que ele vem buscar outro brevemente.

A casa era varrida só depois da saída do defunto, no sentindo em que o falecido a deixou. Havia ainda a crença de que pessoas com algum ferimento no corpo não deveriam entrar no cemitério sob o risco de inflamar o corte.

O luto era muito presente. Os homens colocavam uma tira de pano preta no bolso da camisa; as mulheres se vestiam quase que toda de preto, cor que simboliza a dor e a solidão.

Até hoje é comum vermos cruzeiros na beira de estradas, dentro das roças, próximo a tanques, etc. É um sinal de que naquele lugar alguém faleceu. A cruz serve para imortalizar a memória daqueles que ali deixaram suas marcas.

Muitas das práticas de nossos antepassados, não são mais vistas. Com a chegada de novas formas de comunicações, principalmente o celular, não se viaja mais léguas para dar uma notícia fúnebre nem se ouve mais o comentário sobre o canto da rasga mortalha. As tábuas que ficavam em cima das paredes esperando a morte chegar desapareceram com o surgimento de funerárias, que exploram o comércio nessa área e preparam todo o ambiente do funeral.

Cortejo fúnebre em Ichu (BA)
Cortejo fúnebre em Ichu (BA)

No princípio, as sentinelas eram realizadas na casa do defunto, hoje se conta com mais uma opção, os centros de velórios. Há quem queira carregar seus falecidos em carros fúnebres, mas aqui no nosso pedacinho de chão ainda se leva o caixão na mão, onde muitos fazem questão de preservar esse costume simbolizando o último favor ao morto, aquele que muitas vezes lhe ajudou.

Também é comum durante o cortejo fúnebre os comerciantes baixarem as portas de seus estabelecimentos em sinal de respeito e solidariedade com a família enlutada. Ao chegar na capela do cemitério é feita a celebração de encomendação do corpo e a despedida final.

Um ponto forte e que vale apena destacar, são os encontros de amigos e familiares durante os sepultamentos. Muitos aproveitam deste momento para rever e também conhecer parentes.

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Colaboração: Edilma Carneiro
Fonte de pesquisa: Roda de conversa com homens e mulheres que vivenciaram muitas vezes essas cenas no sertão.
Fotos: André Luiz, Valdir Carneiro, Fernandes Carneiro e Cristiano Oliveira.

Edcarlos Almeida Contributor
Técnico agrícola, ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, participante de pastorais e de movimentos comunitários, Edcarlos Araújo de Almeida, 27 anos, é o responsável pela página Hô Sertão! sobre tradições e costumes de Ichu, sua terra natal.

Uma reflexão sobre “Ritos fúnebres&rdquo

  1. EdvaldoDisse…
    Replied on

    Gostei muito deste relato, pois desta forma nossos netos tomam conhecimento, de como eram feitos os sepultamentos há tempos atrás, e que ainda em alguns lugares permanece esta tradição…

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