Dodora, a santeira

Dodora, a santeira

No início dos anos 1980, andando pela trilha que ligava Morro Redondo à Fazenda Canavial, Maria Auxiliadora Carneiro Silva, a Dodora, se perguntava: “Meu Deus, será que eu vou ver o sexo dessa criança?” Naquela época não havia energia elétrica e ela, grávida, se guiava com um pedaço de pau na mão para saber se o caminho estava ali.

O medo de perder o filho – na verdade uma menina – era justificado. Dodora estava ameaçada de morte pelo fazendeiro Ari Barbosa, que queria expulsar posseiros de uma área incrustada em 11 mil hectares de terra. O plano de Ari, segundo contou um antigo funcionário da fazenda, era usar uma tática cigana para capturar animais. Fingir dar liberdade para pegá-los quando estão relaxados.

Esse foi o primeiro aviso. O segundo foi seguido de um ato concreto:

“Ele botou um pistoleiro e avisou aqui na rua que se a gente entrasse na fazenda ia ser morto” – conta Antônio José Silva, marido de Dodora e responsável por elaborar estratégias e projetos com ela para apoiar a luta dos trabalhadores rurais.

Maria Auxiliadora trabalhava para o Movimento de Organização Comunitária (MOC), originário da Juventude Agrária Católica (JAC) e fundado pelo então padre Albertino Carneiro. Os integrantes do movimento passaram a ser odiados pelo fazendeiro depois que o jornal O Grito da Terra publicou matéria sobre as escaramuças feitas contra os posseiros e citou o responsável nominalmente.

Diante das ameaças, os trabalhadores rurais mudaram o local da reunião para uma fazenda em Ichu. Os posseiros vinham escondidos pela caatinga para os encontros noturnos, do qual participava o advogado do MOC.

“A luta foi muita, mas graças a Deus a gente venceu e as pessoas ficaram com seus pedaços de terra”, resume Dodora.

Ari Barbosa, segundo Antônio José, morreu há dois anos. Escorregou de uma escada e quebrou o pescoço. O administrador da fazenda também teve morte acidental ao cair do cavalo.

A atuação comunitária, iniciada quando ela fazia parte da associação católica Filhas de Maria, é a face menos conhecida dessa mulher, hoje com 80 anos.

A SANTEIRA

Fibra, resistência e perseverança de Dodora marcam sua trajetória. Seja administrando verbas para a construção de cisternas e barragem para abastecer agricultores como fez no MOC; participando de reuniões com trabalhadores e comunidades durante a ditadura militar, quando viajava coberta nos fundos dos carros para não ser encontrada; e diante do barro, onde molda e restaura santos.

Dodora (mais alta) e a irmã entregam a imagem do Senhor dos Passos que está até hoje na Igreja Matriz de Ichu. Foto cedida por Edcarlos Almeida
Dodora (mais alta) e a irmã entregam a imagem do Senhor dos Passos que está até hoje na Igreja Matriz de Ichu. Foto cedida por Edcarlos Almeida.

A vida profissional desta santeira, iniciada quando era menina e moldava bois, vacas, passarinhos e ovelhas com o massapê que secava no fundo do tanque que seu pai limpava, é resumida no livro “Catálogo de Mestres em Artes e Ofícios Populares – Território do Sisal”, publicado pelo Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão Social da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia. No entanto, uma prosa com a artista é muito mais enriquecedora.

Quando mocinhas, Dodora e a irmã, Maria de Jesus Carneiro, oito anos mais velha, ajudavam a família de formas diferentes. A caçula ia para roça, a primogênita produzia peças de cerâmica em casa. Dodora voltava correndo para apreciar a irmã, que produzia imagens de agricultores e de personagens de presépios. Quando resolveu seguir o mesmo caminho, a artesã preferia moldar bichos.

Na época do Natal, as encomendas aumentavam por causa da tradição ichuense de montar lapinhas nas residências. No entanto, as meninas ficavam preocupadas porque os vizinhos diziam que para fazer santos era preciso ter licença do bispo. Muitas vezes recusaram pedidos, temendo estar desobedecendo a Igreja. O mal-entendido só foi desfeito depois que Dodora e Maria, integrantes do grupo Filhas de Maria, levaram uma imagem de Deus Menino à Serrinha e apresentaram ao pároco. O religioso elogiou o trabalho das irmãs, benzeu a imagem e disse que elas não precisavam de autorização de ninguém

“Daí foi que a gente começou, além de fazer as peças, restaurar. E estou até hoje nesse trabalho. Minha irmã morreu há dois anos” – conta.

Os trabalhos de Dodora ficaram mais conhecidos a partir do momento em que ela começou a participar da Feira dos Santeiros do Nordeste, em Salvador. Ela perdeu as contas das vezes que ofereceu suas imagens no evento, que reunia participantes de todos os lugares do Nordeste, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do sul do país.

Da feira, Dodora guarda até hoje uma lembrança: um São Francisco esculpido em palito de fósforo, guardado em uma redoma com base de madeira, dada por um artesão carioca:

“A coisa mais linda do mundo!” – diz.

REVESES

A feira dos santeiros, criada por Antônio Carlos Magalhães e mantida durante o governo Paulo Souto, foi extinta. Para piorar, peças feitas no Paraguai, minaram as encomendas por serem mais baratas, feitas em formas e em escala maior.

O processo de trabalho de Mestre Dodora é lento, difícil e faz com que ela constantemente retrabalhe quando produz imagens maiores de 50 centímetros.

Ela molda tudo a mão, mas não acerta ao retirar o excesso do barro com um fio. Quando bota a peça para queimar, a escultura quebra em diversas partes. Com isso, a santeira precisa colocar as partes da imagem no forno, o mesmo em que ela faz bolos, para secar bem. Depois cola os pedaços e a restaura manualmente. No dia em que Meus Sertões a visitou, ela estava às voltas com a recuperação da imagem de Nossa Senhora das Graças que acabara de fazer.

“Sempre foi assim. Minha irmã resolveu o problema para ela usando um tipo de barro diferente do que temos aqui e adicionando um produto e dava certo” – conta a artista, que fez as imagens grandes do Senhor dos Passos e do Senhor Morto que estão na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, em Ichu.

A concorrência com os artigos paraguaios e os problemas na produção fizeram a artesã aceitar a proposta feita por freiras italianas. As religiosas enviavam catálogos de santos, Dodora escolhia as imagens e elas mandavam as formas junto com roupas que seriam distribuídas para pessoas carentes. Nessa época, a santeira trocou o barro pelo gesso e foi criticada pelo padre Albertino.

“Foi tão engraçado. Albertino chegou aqui e falou para mim e para meu marido: “Mas vocês são doidos! Vocês têm uma arte dessas e vão fazer uma coisa de gesso?” Aí passou um tempo e chegou um conjunto daquelas peças de gesso pra gente restaurar. Só foi pra eu dar risada” – conta a artesã.

Este e um outro episódio fizeram ela voltar a trabalhar só com cerâmica. Uma das remessas da Itália foi inspecionada na alfândega. Os fiscais devolveram as roupas e apreenderam as formas, que só poderiam liberadas através de uma empresa (pessoa jurídica). Dodora pediu auxílio aos amigos até que, segundo ela, Deus ajudou e o material foi entregue.

“Só que a gente não teve mais coragem de pedir” – revela.

A mestra ainda tentou trabalhar com silicone, mas o resultado não ficou bom.

 

De volta ao barro e a participação em feiras, Dodora recebeu um pedido de um especialista em presépios para fazer 100 carneirinhos. As peças foram usadas na montagem de um presépio em Greccio, cidade italiana onde São Francisco armou o primeiro presépio, em 1223.

Outra área que a restauradora atuou foi a de professora. A primeira vez ministrou curso para adultos, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Em 2009, deu curso para crianças por iniciativa de uma associação local.

RESTAURAÇÕES

Dodora conta que trabalhar com o barro lhe dá enorme prazer. Embora reconheça a importância do retorno financeiro diz que nem sempre é possível cobrar o valor justo nas cidades do interior, onde normalmente o poder aquisitivo é baixo. Também há casos em que as pessoas preferem pagar mais caro para pessoas de fora do que para artistas da região.

Elogiada pelas restaurações que embelezaram a estátua do Sagrado Coração de Jesus, que está no altar da igreja matriz, a santeira foi procurada para consertar a imagem de Nossa Senhora Rainha da Paz, na localidade de Casa Nova. Essa santa é a mesma que por décadas teria feito aparições em Anguera, município da área de extensão metropolitana de Feira de Santana.

A artesã cobrou R$ 1 mil para fazer o restauro, mas os contratantes acharam caro e encomendaram o trabalho para um santeiro de Alagoinhas, a 122 quilômetros de distância. No fim, foi cobrado R$ 6 mil e Dodora ainda foi uma das pessoas que assinou o livro de ouro para pagar o serviço.

Há anos, Maria Auxiliadora mantém uma tabela de preços baseada no tamanho das estátuas. Poucas vezes ela foi reajustada. Nos últimos tempos, no entanto, passou a cobrar pelo tempo que dedica ao trabalho. Seguindo o conselho do marido, passou a ter como base “um dia de pedreiro”, o equivalente a R$ 100. No caso das peças maiores, o marido negocia com o contratante.

No cômodo onde faz a recuperação de imagens, a santeira guarda dezenas de peças de pessoas que contrataram o serviço, mas não foram buscar depois de pronto. Foi ali que recuperou santos para as igrejas de Feira de Santana (Nossa Senhora da Esperança), Riachão do Jacuípe, Serrinha e Retiro.

Ao mesmo tempo que recupera as imagens desgastadas, Dodora finaliza a estátua de São João de Deus, patrono dos hospitais. Ela recebeu instruções sobre as cores da imagem por whatsapp e aguarda mais informações sobre a história do santo.

O mesmo cômodo das restaurações serve para expor suas peças, um pombinho e duas imagens feitas pela irmã, belos pavões feitos pela cunhada e miudezas moldadas pelo neto, Pedro Henrique, 7 anos. A artesã espera que o menino seja seu sucessor:

“Eu tenho esperança de que ele fique no meu lugar porque ele faz cada coisinha linda de cerâmica. Tudo em um “tamanhico” de nada. Ele faz pequenos cangaceiros, canequinhas, personagens do Chaves” – mostra, orgulhosa.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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