Fiscal da chuva e zelador dos mortos

Fiscal da chuva e zelador dos mortos

Técnico agrícola, ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, participante de pastorais e de movimentos comunitários, Edcarlos Araújo de Almeida, 27 anos, é conhecido pela maioria dos habitantes de Ichu, pequena cidade do nordeste baiano a cerca de 180 km de distância de Salvador (BA).

Edcarlos Almeida olha para seus cadernos e almanaques. Foto: Paulo Oliveira
Edcarlos Almeida olha para seus cadernos e almanaques. Foto: Paulo Oliveira

Esse jovem tranquilo, de fala mansa, no entanto, é capaz de surpreender pelas atividades que mantém em função de sua inquietação intelectual. Apaixonado por almanaques, não sossegou enquanto não obteve uma cópia do livro mais lido no Nordeste por cerca de dois séculos: o Lunario Perpétuo.

Editado em Portugal e Espanha entre os séculos XVI e XX, a publicação chegou até aqui quando o Brasil era vice-reino português, sendo reproduzida e ampliada até as primeiras décadas dos anos 1900. Tratava de questões desde prognósticos meteorológicos até remédios caseiros, horóscopos, receitas, jogos de cartas, adivinhações, informações sobre planetas e práticas agrícolas.

O almanaque é uma das fontes onde Edcarlos busca entender a origem das pérolas da sabedoria popular sobre a chuva no sertão. Capaz de fazer previsões do tempo, que só divulga para um círculo reduzido de amigos e parentes quando tem certeza de que elas ocorrerão, o jovem mistura o conhecimento dos antigos com uma pesquisa que faz desde 2013, quando criou o  “Observatório Almeida”  e passou a observar o tempo, os pássaros e os insetos e anotar, em folhinhas, inicialmente, e depois em cadernos.

Da sabedoria popular herdou muitos conhecimentos. Alguns deles:

1 – Quando o céu está repleto de “covas de anjo”, ou seja, nuvens entrecortadas, sempre chove, nem que seja um “sereninho”.

2 – Quando o céu está limpo nos três primeiros dias de lua cheia há pouca possibilidade de chuva nas próximas quatro semanas. O mesmo não acontecerá se o céu estiver coberto ou se a lua sair bem avermelhada.

3 – Quando entra a Quaresma com terra molhada, ela termina do mesmo jeito.

4 – Quando o quem-quem, pássaro também conhecido como cancão ou espanta boiada, faz o ninho em forma de tigela e sem cobertura é possível afirmar que não choverá por pelo menos 21 dias, tempo que os filhotes levam para nascer.

Tudo isso, segundo Ed, é confirmado pelas estatísticas sobre chuvas que reúne há seis anos. Cita o fato de que percebeu a existência de um ninho de quem-quem e marcou a data (2 de janeiro). Praticamente não choveu durante o mês. Só caiu água no dia 29.

BREVE PAUSA

Vamos abrir parênteses para dar um exemplo de como o Lunario, do matemático espanhol Jeronimo Cortez gerou interpretações e influenciou a cultura nordestina.

Ed gastou R$ 59 para tirar xerox da edição de 1901 do Lunario Perpétuo. Foto: Paulo Oliveira
Ed gastou R$ 59 para tirar xerox da edição de 1901 do Lunario Perpétuo. Foto: Paulo Oliveira

O almanaque, repleto de tabelas e cálculos ensinava a descobrir que letra do alfabeto correspondia ao ano. Segundo Cortez, primeiro era preciso ver em que dia da semana o ano começava. A partir daí, contava-se quanto tempo levava até domingo. Por exemplo, se o início fosse em uma terça-feira equivaleria a 6 dias. O número então era usado para definir qual letra do alfabeto representava o novo ciclo. A sexta letra do alfabeto é F. Portanto, esta seria a letra do período.

“O povo começou interpretar que o ano F seria ou de fartura ou de fome. E assim cada letra tinha um significado. Só que o Lunario não diz isso. Nele, a letra serve para definir as epacteas, usadas para calcular as datas das diferentes fases da lua. No ano F, a epactea é 24. Com isso vemos na tabela as datas dos feriados e dias santos. Nestes anos, a Quarta-feira de Cinzas cai no dia 6 de março; a Páscoa, 21 de abril; Corpus Christi, 21 de junho. Isso é perpétuo, não muda nunca. Em cima disso você monta o calendário de todos os anos, no passado e no futuro” – explica Edcarlos.

DE OLHO NO CÉU

A chuva é tão importante para os ichuenses que quando chega costuma ser saudada com fogos de artifício. A forma da família de Edcarlos, que planta milho e feijão e cria animais, mostrar o valor que dá à água é colaborando com o “Observatório Almeida”, passando informações quando veem sinais como círculos em torno do sol. Isto significa que a umidade do ar está alta e pode chover.

“Até a mãe quando observa alguma coisa, chama o pai e diz para ele me avisar. Alguns amigos também colaboram” – diz o rapaz que fiscaliza as chuvas.

O técnico agrícola comprou o primeiro pluviômetro de acrílico por R$ 25, em Riachão do Jacuípe, a 23 km de distância de Ichu, no final de 2012. Escolheu o mais simples, já que existem outros de metal e inox e automáticos, que enviam os dados coletados para o celular do dono, e custam até R$ 2 mil.

No dia 1º de janeiro de 2013 começou a registrar as chuvas. Primeiro, fazia anotações em folhinhas, 64 dias depois comprou um caderno grande. Outra providência foi instalar um cata-vento no quintal para ver a relação da direção do ar com o tempo chuvoso ou não. Instalou ainda outro equipamento na propriedade da família, 5 km adiante . Percebeu que pode haver uma diferença de até 20 mm de um local para outro.

As anotações iniciais eram básicas: a data e a quantidade de chuva correspondente. Com o tempo, os dados ficaram mais interessantes e detalhados. Passaram a incluir informações sobre o primeiro e o último trovão, o horário que as chuvas fortes começam e terminam, a posição das estrelas e dos planetas no céu, o tipo de nuvens.

Graças as observações de Edcarlos é possível saber que o dia mais chuvoso de 2015 foi 5 de fevereiro; que a maior estiagem dos últimos seis anos durou 58 dias (2017); que 2015 foi o ano mais seco (452 mm); que 2018 foi o mais chuvoso (902,5 mm), sendo que janeiro registrou o maior temporal (327 mm), causou prejuízos e encheu o rio temporário Tocós.

O que começou como um hobby se transformou em uma fonte confiável e útil para a cidade. Edcarlos foi procurado pela prefeitura, durante um dos quatro mandatos do prefeito Carlos Santiago para fazer um relatório sobre as chuvas com o objetivo de fazer a Superintendência de Agricultura Familiar da Secretaria de Agricultura da Bahia renovar o estado de emergência por causa da seca. O técnico agrícola fez o trabalho sem cobrar nada, apenas para ajudar os agricultores de Ichu.

O CADERNO DOS MORTOS

Como ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, Edcarlos participa das exéquias, celebração da esperança e anúncio da vida eterna durante cerimônias fúnebres. Isto faz com que esteja presente em pelo menos nove de cada 10 sepultamentos de ichuenses na cidade e fora dela.

Caderno onde são anotados os dados sobre os mortos. Foto: Paulo Oliveira
Caderno onde são anotados os dados sobre as pessoas mortas. Foto: Paulo Oliveira

“São obra de misericórdia: sepultar os mortos e consolar os aflitos!” – diz o leigo, que também tem como missão distribuir eucaristia nas missas e nas casas dos enfermos.

Devido a esta atividade, Edcarlos passou a contabilizar as pessoas que morrem na cidade a partir de 2016. A coleta dos primeiros dados incluía a data da morte, o nome e a idade das pessoas. Assim como no caso do controle das chuvas, passou a incluir mais dados sobre as pessoas. Exemplo: 9/1 – Albertino Ferreira da Silva, 99 anos, ia fazer 100 anos em outubro

As estatísticas que produziu mostram que morreram 42 pessoas em 2016; 43 – 24 homens e 19 mulheres – no ano seguinte; e 29 – 14 homens e 15 mulheres, em 2018. Este ano, até o fim da primeira semana de fevereiro foram computados nove sepultamentos de ichuenses – cinco na cidade e quatro fora dela.

Nos registros consta ainda que a pessoa que morreu com mais idade foi dona Maria Luiza, prima da bisavó de Edcarlos. Ela tinha 104 anos. Nesses três primeiros anos, duas crianças faleceram – uma delas tinha 5 anos e câncer na medula óssea.

Coleção de santinhos. Foto: Paulo Oliveira
Coleção de santinhos. Foto: Paulo Oliveira

A participação nas cerimônias fúnebres também transformou o jovem ministro da igreja em colecionador de “santinhos”, fotos com dizeres distribuídas para homenagear os mortos. Eles são guardados em um classificador.

Se a atividade de fiscal das chuvas agrada a família, a contabilização dos mortos da cidade é vista com restrição por pessoas próximas, baseadas na crença de que falar dos que já se foram atrai a morte. Isto, no entanto, não esmorece Edcarlos, que também mantém a página Hô Sertão no Facebook. Nela, conta histórias sobre Ichu, suas tradições e personagens. Vale visitar e acompanhar.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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5 reflexões sobre “Fiscal da chuva e zelador dos mortos”

  1. Josemilto Carneiro de OliveiraDisse…
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    Bela reportagem! Reconhece o excelente trabalho que faz esse jovem a sociedade ichuense, não somente pra o nosso município mas pra toda a região. Que Deus abençoe a Edcarlos que traga muitos frutos e tb lhe traga rentabilidades, sabemos que seu interesse é apenas ser útil a seu povo. Fica a dica a Secretaria de agricultura do municipio, contratar Edcarlos e equipalo no que for possivel para que com isso trazer os beneficios aos agricultores em geral. Na reportagem fala que Ichu fica a 68km de Riachao do Jacuípe, mas na verdade são apenas 23 km, 68 km é a distancia de Ichu a Feira de Santana. Parabens mais uma vez pela reportagem de reconhecimento desse nobre trabalho de Edcarlos Almeida

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Obrigado. Vamos reparar a distância entre as cidades.

  2. Ana CarneiroDisse…
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    Parabens para Edcarlos e para Paulo que nos contou o registro vivo da memoria. Registrar saberes é não deixar morrer as nossas experiências de vida em que aprendemos com nossos ancestrais.

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Muito obrigado, Ana.

  3. David OliveiraDisse…
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    Encontrar, valorizar e divulgar as pessoas com seus saberes e hábitos é uma grande virtude do contador de histórias e jornalista, apresentando aos leitores características e dons que sequer conseguiríamos supor que existissem.
    Parabéns pela matéria e ao Edcarlos pelas sua observações e estatísticas.

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