Passeios sagrados

Passeios sagrados

Tem quem ache que é uma mistura de lazer e de fé. Outros acreditam que é mais lazer. O certo é que desde que a comunidade de Capinal Salvador, em Malhada de Pedras, comprou um ônibus, as 30 famílias do povoado nunca mais deixaram de viajar para visitar igrejas de localidades próximas e de outras cidades.

O veículo foi adquirido com dinheiro arrecadado na venda de rifas e nas barracas de cachorro-quente, farofa e suco, durante as novenas na localidade. Até chegar ao valor do ônibus escolar usado foi preciso poupar durante quatro anos. Afinal de contas, os cerca de 150 moradores, 98% parentes, tinham um propósito: conhecer a famosa romaria de Bom Jesus da Lapa, a 234 km ou a cerca de três horas e meia de distância do povoado.

O responsável pelas excursões é Ronaldo Alves dos Santos, o R.O, um dos líderes da comunidade católica missionária fundada em 8 de maio de 1994. Desde que as viagens começaram em 2004, segundo R.O, são visitadas cerca de 100 comunidades a cada ano. O critério para definir o destino é único: festa de padroeiro.

No mês de outubro, o ritmo se intensifica porque, de acordo com R.O, a maioria das comunidades dos municípios de Brumado, Rio do Antônio, Lagoa Real, Ibitira e Jânio Quadros têm como protetora Nossa Senhora de Aparecida:

“Nessa época, chegamos a viajar 25 dias seguidos. Outro mês concorrido é maio” – diz

Por ter transporte próprio e contar com dois motoristas da própria comunidade é possível cobrar aos fiéis uma taxa de 3 reais por viagem, o suficiente para cobrir os custos com combustível.

A próxima grande empreitada é visitar, em setembro, a gruta da Mangabeira, em Ituaçu, na Chapada Diamantina, onde em setembro é celebrada a festa do Sagrado Coração de Jesus. A lotação do ônibus é de 45 passageiros. Nas viagens mais longas, o pessoal da comunidade leva alimentos, sem esquecer frango, farofa, ximango (biscoito de polvilho) e café. Também carregam colchões para as crianças dormirem enquanto os pais visitam as igrejas.

R.O. conta que os moradores de Capinal são sempre bem recebidos nas outras comunidades. Eles sempre têm um grupo a esperá-los, pois os contatos são feitos previamente. Em Porco Magro, comunidade de Três Lagoas, por exemplo, participaram e animaram a celebração.

A PEREGRINA

A viúva Ana Salomé Pinheiro, a Tiana, 77 anos, diz que só não viaja mais porque tem um problema no joelho que lhe causa muitas dores. Segundo ela, quando chega nas igrejas e capelas, o pessoal reza e todo mundo canta.

“A gente anda pelas roças aqui e vai para igrejas em outras cidades. Cada lugar tem seu santo. O daqui é Coração de Jesus; o de Malhada de Pedras é Bom Jesus. Agora tem muito São Sebastião, Santo Antônio e Nossa Senhora da Aparecida. Antes do ônibus, a gente ia de casa em casa aqui mesmo. Agora tem épocas que o ônibus sai todos os dias. Nós já fomos em lugar que eu tô aqui com essa idade e não sabia. Eu falei: “Ei R.O, como você tá sabendo tanto setor desse jeito e o que ele significa?” – conta.

Tiana ressalta que moradores de todas as idades participam das excursões e visitas às igrejas. Ela diz ainda que em alguns lugares o grupo é recebido com lanche, em outros precisa comprar o que quer comer. Para ela, os momentos que mais gosta são os de canto, as festas que permitem dança, bingo e os shows com leilão do lado de foram das igrejas.

Nos passeios, o ônibus sai lotado aos sábados. Nos dias úteis, cai um pouco a procura.

QUEM É R.O.?

Ronaldo Alves dos Santos, 38 anos, é casado e tem duas filhas – Janaína, 16, e Maria Isabela, 6. Ele se define como um menino cheio de sonhos, nascido e morador até hoje em Capinal Salvador. Católico, sempre se envolveu em atividades comunitárias, promovendo torneios de futebol e cantando forró nas festas de casamento de quem não tinha condições de pagar o cachê de um cantor bom.

“Aos poucos percebi que havia necessidade de visitar as comunidades, mas não tinha muito recurso. Às vezes ia de moto. Depois de carro. Até que apareceu o ônibus. Por onde eu passava o povo ficava invocado e comentava: ‘Esse menino é muito animado, canta bem’” – conta

A atuação comunitária rendeu um convite para se candidatar a vereador em 2008.

“Fui eleito mesmo sem pedir voto. Os grandes ficaram desconfiados porque eu não tinha dinheiro nem conhecimento no meio político. Fui o terceiro mais votado, atrás da filha do prefeito e da filha de um vereador de cinco mandatos. Ele morreu e ela o substituiu” – explica.

R.O. diz que sofreu muito nos quatro anos que ocupou vaga na Câmara de Vereadores de Malhada de Pedras. Segundo ele, quando o prefeito não queria fazer algo para a comunidade, ele tirava dinheiro do próprio bolso e fazia.

“Isso me quebrou muito. Eu não tinha estrutura, não tinha pessoas do meu lado que pensassem igual a mim e que quisessem ajudar os outros” – desabafa.

Depois, chegou a receber um convite para ser candidato a prefeito, mas recusou, após pedir conselhos a um padre e reconhecer que teria dificuldades em administrar a cidade. Hoje, Ronaldo trabalha em uma cerâmica e considera que sua função “é levar alegria por onde passa”.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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