Missa dos violeiros – Especial Ichu

Missa dos violeiros – Especial Ichu

O novenário do Sagrado Coração de Jesus, em Ichu, incluiu um outro evento muito apreciado pelos moradores da cidade. É a missa dos violeiros, realizada no dia seguinte à Lavagem da Igreja.

A cerimônia passou a fazer parte do evento religioso no final dos anos 1970, quando um grupo de músicos obteve um compacto duplo com músicas da festa do violeiro. O violonista Jorge Ricardo Carneiro conta que a celebração deixou de ser realizada por uma década, ressurgindo quando o Padre Leopoldo Garcia Garcia assumiu a paróquia.

O religioso incorporou a celebração à festa do padroeiro como uma forma de homenagear o trabalhador do campo. Foi nesse tempo que Jorge passou a fazer parte do grupo, formado só por homens tocando cavaquinho, violões, sanfona e cantando as músicas do disco.

“O violeiro era figura masculina, feminino não participava. As mulheres tinham outras funções”.

Com o passar do tempo, alguns músicos deixaram de participar. Com a ausência deles, sentiu-se a necessidade de mais vozes no coro, o que permitiu a entrada de mulheres. Hoje, dez delas, de diferentes grupos e pastorais, participam da cerimônia, que devido a orientações litúrgicas dá preferência aos cânticos religiosos. A música sertaneja de raiz é tocada pelos violeiros na praça, após a missa. É um dos eventos mais esperados pelos ichuenses.

Padre Gil, atual pároco da igreja do Sagrado Coração de Jesus, considera importante a inclusão de músicas feitas por artistas da cidade e região. Composições como “O Santo” e “O Glória” fazem parte da celebração.

“Eu mesmo tenho composição chamada “Abraço de Paz”, que foi abolida. Ela ficava para o final da missa e eu gostava” – diz para depois entoar uma parte da letra. “Senhor dai-me tua paz/ para que eu possa abraçar o meu irmão”

Outro detalhe: os músicos participavam sem remuneração. No entanto, de acordo com Jorge, alguns “infiltrados”, que se diziam profissionais martelavam o padre para receber dinheiro”:

“Eram dois ou três. Eles ainda costumam aparecer e justificam a cobrança, dizendo: ‘Arainha vive do que tece’. Um deles recentemente declarou que não tocava porque não era convidado” – alfineta.

Hoje são quatro violonistas e 10 mulheres de diferentes pastorais que animam a missa do violeiro. Conheça um pouco dos participantes de um dos ensaios para a missa, assistido por Meus Sertões:

Jorge aprendeu a tocar violão em Feira de Santana, na década de 1970. Ao voltar para Ichu, em 76, participou de um grupo de violonistas com Messias, Delson e seu Romão. Ele é o único remanescente. Seu maior incentivador foi o professor Antônio Gomes, que morreu ano passado.

Roque Filho Carneiro, o Menininho – Passou a integrar o grupo de violeiros após o ressurgimento da missa. Era companheiro de Zé de Zequinha e Aristides. Ele lembra que Zé ensaiava o grupo, mas quando chovia ele não aparecia porque tinha medo de trovoadas e relâmpagos.

Elmo Carneiro, forrozeiro – Caçula da turma. Fazia parte da dupla sertaneja Elmo e Delson antes de virar forrozeiro. Faz parte do Terço dos Homens. Profissionalmente, organiza o ensaio de São João, no qual se apresenta todo ano com outros seis participantes.

O CORO

Meire Pires – Nos anos 1990, morava em uma comunidade rural na divisa com Candeal. Se afastou um ano por problema voz. Acredita que o trabalho que a igreja faz no campo é fundamental para os agricultores familiares.

Maria Auxiliadora – Está no coral com Meire desde 1993. Faz parte do grupo católico de animação de idosos.

Luiza Santos Soares – Sua função durante a novena era cuidar dos integrantes da fanfarra, no Centro São Paulo. Isto lhe impedia de participar do grupo da missa, que ela ouvia pelo rádio. De tanto repetir que um dia se libertaria e participaria do coro, conseguiu atingir o objetivo.

Déo – Não faz ideia de quando entrou grupo. Foi criada no campo. Tinha vontade de participar, mas não tinha coragem de pedir. Alguém convidou e entrou. Agora só sai se o coro acabar.

Vanda (Vandeci) – Lembra que entrou no início dos anos 2000 e se identificou porque a missa traz de volta as raízes dela. Vanda achava bonito o ofertório dramatizado quando eram entregues flores, frutos da caatinga.

da entrega das coisas do campo. Arrumação pega coisas sertão, pega na caatinga

Joseane Portugal – Divide a participação nos ensaios e na missa com a atuação nos grupos Unidos em Cristo e Pastoral da Família, responsável pelas celebrações do segundo domingo de cada mês. Durante o novenário, visita as comunidades rurais.

Karen – A mais nova do grupo, diz que todo mundo ajuda todo mundo no coral. Faz parte do ministério de jovens da igreja. Na Missa dos Violeiros se considera um “quebra galho”, pois ainda está tomando aulas de canto.

Dora – Esposa de Meninho. Abre a casa para os ensaios

Rita Maria Batista Santos Conceição – Mãe da Karen. Diz que sua história é parecida com todas as outras. “Só muda é o nome” – brinca.

CENAS DA NOVENA

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “Missa dos violeiros – Especial Ichu”

  1. Luiz Claudio Carneiro de SouzaDisse…
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    Minha mãe é do Ichu,seu site é maravilhoso!

    1. Paulo OliveiraDisse…
      Replied on

      Apareça sempre que quiser, Luiz. Abraço!

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