A festa dos frutos sagrados

A festa dos frutos sagrados

Os Tremembé, indígenas brasileiros cujas primeiras referências datam do século XVI, estão em festa. De hoje até o dia 12 de janeiro será realizada a X Festa do Murici e do Batiputá, na Aldeia São José, em Barra do Mundaú, em Itapipoca (CE). Durante a comemoração serão inauguradas a Oca Digital Indígena Iandê (pronome ‘nós’ em tupi-guarani) e a exposição fotográfica Iandê Á’Tã Joaju (Juntos Somos Fortes), do fotógrafo cearense Marcos Vieira, A exposição está sendo lançada simultaneamente no site Meus Sertões, na seção Galeria, na primeira página, e em clipe no canal do You Tube. Posteriormente será apresentada em Fortaleza (CE), São Paulo (SP) e Paris (França). As iniciativas fazem parte do projeto Ação Tremembé, financiado pela União Europeia.

A programação da festa inclui a colheita do murici e do batiputá, que se inicia durante a madrugada. O murici é o fruto do muricizeiro, árvore nativa do Nordeste, conhecida dos povos originários desde 1570. Ele tem aproximadamente 0,8 cm de diâmetro, cor amarela, e aparece em cachos. Ao amadurecer tem sabor adocicado. Suas sementes são marrom-clara. Os frutos são usados na fabricação de sucos, doces, licores, geleias e sorvetes.

O murici contribui para o bom funcionamento dos vasos sanguíneos, protegendo o corpo contra a arteriosclerose e colesterol alto. Também tem indicação medicinal para a cura de resfriado, prevenção a diabetes, saúde da pele e do cabelo, dentre outros. Já a casca da árvore é um poderoso antitérmico.

O batiputá, planta arbórea ou arbustiva, é extraído um óleo usado na culinária e na medicina alternativa como anti-inflamatório, cicatrizante e no tratamento de tosse e estados gripais. O trabalho “O conhecimento etnográfico dos Tremembé da Barra do Mundaú, Ceará”, de André Luís Aires Pinto, Maria Jardenes de Mato e Maria do Socorro Moura Rufino, ressalta que estudiosos observaram que extratos e frações obtidas de plantas do gênero Ouratea, como é o caso do batiputá, possuem atividades biológica como antitumoral, antiviral, vasodilatadora e antimicrobiana”.

Os dois professores e a aluna da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) também fazem um histórico do povo e a etnografia da VII edição da festa da colheita das frutas.

A EXPOSIÇÃO

O fotógrafo, sociólogo e professor universitário Marcos Alberto de Oliveira Vieira, autor da exposição fotográfica Iandê Á’Tá Joaju (Juntos Somos Fortes) passou três meses com os Tremembé de Barra do Mundaú. Três fatores chamaram sua atenção: o desconhecimento da existência de indígenas na região norte do Ceará; a luta travada pela demarcação da terra e contra a especulação imobiliária nos 3.580 hectares reconhecidos pela Funai (Fundação Nacional do Índio) como área de posse permanente dos Tremembé (um grupo empresarial espanhol tenta construir no local 27 hotéis e resorts, seis condomínios residenciais e três campos de golfe no local); e a tradicional festa dos frutos.

Cartaz da exposição fotográfica. Reprodução
Cartaz da exposição fotográfica. Reprodução

As fotografias, segundo Marcos Vieira, também são importantes para mostrar como os povos originários preservam o meio ambiente e a cultura ancestral ainda mais agora em que o governo federal tem dado sinais de que tentará revogar decisões anteriores que garantiram a permanência de indígenas em suas terras.

“Mostramos esta luta com um olhar antropológico” – diz.

A programação do evento prevê ainda competições indígenas, oficinas de pinturas corporais, espiritualidade indígena e pajelança, inauguração da oca digital e exposição fotográfica, pesca de caranguejo, trilha com histórias e vivências, apresentações culturais das aldeias São José, Munguba, Buriti do Meio e Buriti de Baixo, batismo sagrado, caça e pesca, apresentações artísticas, ritual de limpeza e purificação, apresentação cultural das crianças, fala de lideranças, desfile de curumim e cunhatã dos aldeamentos, reisado dos curumins, exposição de artesanato e culinária, momentos de cura.

HISTÓRIA

Os Tremembé ocupavam a região litorânea que vai do Pará ao Ceará, nos séculos XVI e XVII. Durante o período colonial, os portugueses criaram aldeamentos controlados pelos jesuítas, no Maranhão, e por padres seculares, no Ceará.

Uma das sesmarias concedidas aos religiosos foi chamada de Missão de Nossa Senhora da Conceição dos Tramambés e se consolidou como uma irmandade que administrava extenso patrimônio de terras e cabeças de gado, embora fosse uma instituição de catequese e serviços religiosos.

Em 1766, a missão se transformou em uma freguesia de índios e foi rebatizada de Almofala. Com o passar dos anos, a irmandade perdeu o patrimônio e o local continuou a ser habitado por indígenas.

André Luís, Maria Jardenes e Maria do Socorro contam em seu trabalho que a Funai aprovou, em 2012, o relatório da antropóloga Cláudia Tereza Signori Franco, identificando a Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, como ocupação tradicional indígena. Com a delimitação ficou acertada esta designação para diferenciá-la do grupo de Almofala, de onde migraram a partir da segunda metade do século XVII.

A disputa pela terra começou dez anos antes, quando o grupo espanhol Nova Atlântida apresentou projeto para erguer um complexo turístico e residencial na área ocupada pelo povo originário. Em 2004, o Ministério Público Federal abriu procedimento para avaliar a questão. Em 2005, a Justiça Federal concedeu liminar em favor dos Tremembé e impediu a implantação do projeto.

Dois anos depois, a Nova Atlântida foi apontada como suspeita de lavagem de dinheiro, mas não desistiu de tentar se apoderar das terras indígenas. Através de mobilização e manifestações da comunidade, a Funai criou um Grupo Técnico para preparar um relatório de identificação e demarcação da terra, que ficou pronto em 2012.

Foram necessários mais três anos para a Funai na qual reconhece que o território é de ocupação tradicional de povo indígena e a ele cabe uso e usufruto exclusivo. Os autores do trabalho contam ainda que após 11 anos de tramitação, a Justiça Federal deu sentença condenando o grupo espanhol a se abster de fazer intervenções no local e cancelou o licenciamento que havia sido dado pela Semace (Superintendência Estadual do Meio Ambiente). Dados de 2014 davam conta que a população dos Tremembé de Barra do Mundaú era de 580 indígenas.

CARACTERÍSTICAS

Os Tremembé falam português e têm hábitos parecidos com os dos habitantes das comunidades adjacentes às suas terras. Levantamento da equipe da Unilab registra que eles fabricam farinha de puba e o beiju, a partir da mandioca, e o mocororó, bebida ritualística e medicinal feita do caju, consumida durante o Torém, dança ritualística, cujos participantes imitam animais – briga de guaxinins, canto da jandaia, bote da cobra, por exemplo -, além de tocar o aguaim (maracá).

Os demais participantes marcam o ritmo com batidas de pés enquanto giram a roda no sentido anti-horário. A música cantada pelo solista é repetida pelos dançadores. As letras das canções dos Tremembé da Barra do Mundaú se referem à espiritualidade, à identidade ética e a realidade política, segundo André Luís, Maria Jardenes e Maria do Socorro.

“As cantigas de torém revelam ainda uma íntima ligação desse povo com sua terra e uma dependência de seus recursos” – relatam.

A principal festa dos Tremembé é realizada na época da colheita das frutas, em janeiro. Durante a celebração, as mulheres catam o murici e os homens, o batiputá. Os festejos preservam a cultura dos antepassados. O fruto amarelo é fonte de renda. Já o batiputá é usado como remédio e alimento. Ambos são considerados sagrados.

Na mística indígena, a força de seres encantados é invocada para alimentar a coragem e espírito guerreiro do povo. No espaço onde ocorrem as falas e a dança, uma vasilha imensa de ervas imersas em água serve para fazer a limpeza espiritual e abençoar os presentes. Há ainda uma garrafa de mocororó e uma telha com brasa e incenso. Ao final da cerimônia, reza-se a oração dos indígenas.

Exposição Iandê Átã Joaju (Juntos Somos Fortes) / Marcos Vieira

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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3 reflexões sobre “A festa dos frutos sagrados”

  1. Marcos Alberto de Oliveira VieiraDisse…
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    Paulo Oliveira, muito obrigado por reconhecer nosso esforço em fotografar um pouco da luta dos povos remanescentes. “MEUS SERTÕES” é um orgulho da mídia alternativa do semiárido brasileiro. Parabéns!

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      Seu trabalho é excelente e merece nossa atenção. Eu é que agradeço pela parceria, Marcos. Abraço.

  2. Francisco Antonio Oliveira GomesDisse…
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    Amigo Marcos, que trabalho show parceiro e que programação irada. Queria muito poder estar por ai com vc neste trabalho e nesta comemoração. Muito sucesso pra vc nesta empreitada. Grande abraço.

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