Reza e palmeado

Reza e palmeado

Janeiro é dia da festa de São Jorge, no povoado quilombola de Campo Grande, em Santa Teresinha, cidade sertaneja localizada na região centro norte baiana. Ao contrário do restante do Brasil, em que o Santo Guerreiro é saudado no dia 23 de abril, os festejos viraram tradição na localidade por causa de Maria Conceição Guedes, 79 anos, e do marido dela, Eugênio Almeida Galvão, 80.

No semiárido é comum as comemorações ocorrerem no dia em que os pedidos feitos aos santos foram concretizados ou na época do ano em que os fiéis têm mais disponibilidade de tempo ou de recursos. Este é o caso de dona Maria, também conhecida como Maria do Samba, responsável por manter a tradição das rezas no Campo Grande. Ela e a família organizam os festejos para Jorge, no segundo sábado de janeiro, e para Cosme e Damião, em setembro.

No segundo sábado do ano são esperados visitantes de Salvador, a 223 quilômetros de distância, Castro Alves e outras cidades vizinhas. O ritual começa com o canto de Reis para São Jorge. O ritmo é o mesmo dos Reis tradicionais celebrados da época de Natal até o dia 6 de janeiro, interior afora. Só que as músicas são feitas para o santo.

A segunda parte consiste na Salva dos Reis, cântico de louvor animado. Depois, vem o samba, samba de roda palmeado, que acaba depois que o dia raiar. Também tem comida e bebida à farta. Os Reis de São Cosme e São Damião seguem o mesmo rito.

A HISTÓRIA DE MARIA

Na certidão de casamento, Maria Conceição Guedes tem um nome diferente. Por intransigência do cartório, a certidão de casamento não tem o Guedes porque a mãe dela só era casada na igreja. No documento, o sobrenome que consta é só o do marido Galvão. Ela e Eugênio nasceram no Campo Grande, têm 12 filhos, sempre intercalando dois meninos e duas meninas, 25 netos e 17 bisnetos.

O gosto de Maria pelo samba surgiu quando ela era menina, depois veio o apelido:

“O povo me chama de Maria do Samba, mas eu nem sei se sou sambadeira ou não. Eu só sei que faço um samba legal” – diz ela.

Bem, daqui por diante Maria conta a história para vocês.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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