O japonês do sertão – Parte 2

O japonês do sertão – Parte 2

O pioneiro

Antônio Aparecido Pereira, o Cido, começou a trabalhar na roça aos 7 anos para ajudar o pai a sustentar a família, que incluía a mãe e sete irmãos. Abandonou os estudos na quinta-série por não conseguir mais conciliar lápis e caderno com a enxada. Concluiu que “a roça não dava a camisa a ninguém” quando chegou à maioridade. Juntou a revolta por não conseguir realizar o simples sonho de comprar uma bicicleta com a vontade de conhecer uma grande cidade e aceitou o convite do primo para trabalhar como ajudante de pedreiro em São Paulo.

Nos primeiros 60 dias na cidade grande, em 1987, Cido quebrou pedras e ajudou a construir calçadas. Na rua, conheceu Élcio, baiano de Cansanção e gerente de um restaurante de comida japonesa que o convenceu a arriscar a sorte como ajudante em um sushi bar. O argumento usado foi que a atividade era mais tranquila e garantia salário um pouco maior. Os dois seriam sócios no futuro.

A primeira impressão do novo ajudante geral do Benihana, que em japonês significa flor vermelha, foi a de que quem comia peixe cru era doido. Ele mesmo levou três anos para experimentar a iguaria. Precisou passar pelos cargos de auxiliar de cozinha e da insistência de Ito-san, dono do restaurante, que lhe deu as primeiras lições, para aceitar a vaga de ajudante de sushiman.

Para se transformar em chef titular de cozinha oriental, Cido estabeleceu uma rotina insana. Trabalhava das 10h às 22h. Depois, seguia para a Liberdade, reduto japonês, onde fazia uma espécie de estágio sem remuneração com um experiente sushiman até o início da madrugada, no restaurante Kazuko. Às 3 da manhã, ia comprar peixe na Ceasa (central de abastecimento).

Oito anos depois, quando o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, resolveu demolir o restaurante do Largo da Batata, no bairro de Pinheiros, e muitos outros imóveis para a construção da nova avenida Faria Lima, Ito e a mulher Kazu tinham partido para o Japão. E Cido passara a trabalhar no bar noturno Aida, segundo ele, pertencente às atrizes Denise Stocklos e Carina Vasconcelos.

“Foi lá que comecei a ganhar bem. Recebia o equivalente a 500 dólares, cerca de cinco salários mínimos e ainda dava curso de sushi” – lembra.

Logo surgiu uma nova missão:  amigos das artistas lhe pediram ajuda na montagem do restaurante Kuru, escancarando as portas para a mão de obra cordeirense.

O PRIMEIRO SUSHI BAR

Com clientela estimada em 400 pessoas, Cido se transferiu para o Kata Guruma, onde recebeu sugestões e o convite para abrir o próprio negócio. Os 10 anos de experiência, o conhecimento do mercado e a quantidade de bons profissionais que conhecia lhe deram coragem para investir no Dairin, no Brooklin, bairro nobre paulistano, em 1997. Tinha quatro sócios: a amiga japonesa Eliana Haiashida, Alessandra Barros, José Monteiro e um dos irmãos, que pede para não citar o nome por questões de segurança.

O excesso de cautela o fez permanecer no emprego por mais três anos. Temia não dar certo como empresário:

“Precisava me bancar de alguma forma se tudo desse errado” – justifica.

Do Dairin, cuja parte vendeu no ano passado, Cido e os sócios partiram para um projeto maior: a rede Matsuya, formada por oito lojas. A composição societária passou a contar com novos sócios e duas empresas a SAB Division WC Patrimonial e a Endurance Empreendimentos e Participações.

Fachada do restaurante Matsuya, na Vila Mariana. Divulgação
Fachada do restaurante, na Vila Mariana.

O desempenho do pioneiro estimulou os cordeirenses. Em seus restaurantes, Cido Pereira formou aproximadamente 300 sushimen e indicou centenas deles para trabalhar como ajudantes e cozinheiros. Ele calcula que cerca de três mil conterrâneos se espalharam pelos restaurantes japoneses de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e por diversas cidades da Bahia nos últimos 30 anos. Muitos viraram empresários.

As dinastias empresariais do centro-sul baiano se formaram a partir de convites dos conterrâneos. O amigo aceitava e acabava levando familiares que conseguiam emprego no ramo. Durante o boom do negócio foi montada uma rede de apoio aos recém-chegados. Os proprietários dos restaurantes montavam repúblicas próximas aos estabelecimentos e economizavam o pagamento de vale-transporte.

Uma dinastia, por exemplo, foi criada pela família Moreira, proprietária da renomada rede Osaka, da qual Cido foi sócio e ajudou a montar. Comandada por João Moreira, a rede tem seis unidades, três delas em Alphaville, bairro nobre formado por condomínios de alto padrão e centros comercial e industrial nos municípios Barueri e Santana do Parnaíba (SP). Há uma filial também em Caxias do Sul (RS).

O IRMÃO

Aos 50 anos, o empresário Cido Pereira atribui parte de seu sucesso a um dos irmãos, uma espécie de Rei Midas do setor:

“Ele é o mais inteligente da família e o mais estudado dentre os homens. Ele e minhas três irmãs concluíram o magistério” –

Em 1994, na função de garçom, o jovem percebeu que havia poucos especialistas em comida japonesa e decidiu fazer um curso no Clube do Sushi. Pouco depois da conclusão, foi aceito como ajudante de cozinha. A promoção para sushiman levou dois meses. Para participar da sociedade do Dairin, investiu R$ 55 mil à época. No Osaka, no Itaim, na zona sudoeste da cidade, disponibilizou R$ 60 mil, em 1999.

Atualmente, de acordo com Cido Pereira, esse irmão é proprietário de cerca de 50 restaurantes de comida japonesa, em São Paulo, e três em Santa Catarina. Só não tem lojas em outros países porque não aceitou as propostas feitas. Incluindo esposas, filhos e genros, os Pereira têm participação em 80 estabelecimentos, o equivalente a 40% das empresas do ramo controladas por cordeirenses no estado.

Nem tudo, no entanto, são flores para os empresários de Cordeiros. Em agosto do ano passado, houve tentativa de sequestro contra um deles, na Vila Mariana.

A POLÍTICA

Casado com uma cearense e pai de uma advogada, Cido Pereira deixou o irmão administrar os restaurantes e diversificou os investimentos na Bahia, onde possui uma fazenda, um posto de gasolina e uma cerâmica. Isto permitiu que enveredasse pela política e fosse eleito vice-prefeito, em 2008. O mandato foi interrompido dois anos depois, quando foi cassado. Essa história, ele mesmo conta.

“Não tinha intenção nenhuma de ser político. Morei em São Paulo 20 anos e vinha para Cordeiros só de vez em quando para participar de alguma festa. Um dia fui conversar com o prefeito Djalma Gusmão porque ele teve um desentendimento com o vereador Dão Joia, que a gente apoiava. E ele me tratou mal. Então falei que não seria mais eleitor dele e que apoiaria outro candidato.

Aí tinha um menino aqui que era muito amigo nosso. Chamava Zé da Betina. Conversei com ele e disse que o apoiaria, inclusive financeiramente. Peguei e vim para cá. Fiquei um ano e aproveitei para conhecer bem o município. Andava pela zona rural fazendo campanha para o Zé, que não tinha escolhido o candidato a vice.

Em 2008, mais ou menos quatro meses para a eleição era preciso escolher o candidato a vice-prefeito. Eu não queria aceitar porque não sabia falar em público. Até que um dia o Djalma foi inaugurar uma barragem e falou muita besteira. Disse que eu era de São Paulo. Aí eu já estava começando a gostar da política. Ela vai entranhando em você, no teu sangue. E eu mandei fazer uma pesquisa que dava a gente como favorito. Falei para o Zé da Betina que aceitaria ser o vice e ele aceitou.

Aos poucos tirei a dificuldade de discursar e fui para cima mesmo. Entrei na política porque falaram besteira. Fomos eleitos, mas não ficamos o mandato todo. Depois de dois anos, fomos afastados (…).

No dia da eleição, o pessoal de São Paulo, dos restaurantes vieram votar aqui. Vieram de carro, de ônibus, deu um rolo danado. A gente não conhecia política, entramos em um processo besta que não tinha nada a ver com a gente. Os empresários cordeirenses é que resolveram nos ajudar. Mas nos acusaram de ter bancado tudo (abuso de poder econômico). Em Condeúba (comarca da região), a gente ganhou o processo. A gente era tão marinheiro de primeira viagem que não tinha nem advogado.

Em Salvador, o processo estava 3 a 0 para nós. Um juiz pediu vistas e viraram o negócio para 4 a 3. A gente não tinha feito nada de errado e achava que não ia perder. Aí em Brasília não conseguimos mais reverter. Ficamos fora da política. Na eleição seguinte apresentamos o Vavá de Alcides e ganhamos a eleição. O povo não aceitou a cassação na época. Continuo filiado a um partido (atualmente o PSB), mas agora só dou apoio, não sou mais candidato até porque a família não quer. Meu estudo é pouco. Hoje, para ser político, para ser um cara da alta, você tem que ter um bom estudo, senão se enrola”.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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