O japonês do sertão – Parte 1

O japonês do sertão – Parte 1

Um restaurante japonês que só abre três dias da semana em uma pequena cidade do sertão e tem no cardápio um único peixe, cujo habitat fica a 4.480 quilômetros de distância, parece estar fadado ao fracasso. No entanto, esse estabelecimento com capacidade para 40 clientes, está fincado no município que exportou nos últimos 30 anos mais de três mil sertanejos, transformados em empresários ou sushimen de centenas de estabelecimentos do ramo em diversos estados do país, principalmente São Paulo.

A história de como Cordeiros, na região centro-sul da Bahia, passou a dominar esse mercado é contada em dois capítulos, a partir da perspectiva de dois personagens emblemáticos: Antônio Aparecido Pereira, o Cido Pereira, 50 anos, sushiman e empresário pioneiro nesse mercado, e de Pedrinho Cícero Dias Ribeiro, 33, que fez o caminho inverso de seus conterrâneos e abriu um sushi bar na cidade natal. Comecemos pelo presente.

Os primeiros passos de Pedrinho foram semelhantes aos dados por cerca de 35% da população cordeirense (8.585 pessoas em 2018, segundo estimativas do IBGE). Em local onde a economia é movida aos salários dos funcionários da prefeitura e de uma pequena cerâmica, às aposentadorias, à agricultura familiar e ao comércio concentrado em duas ruas, uma opção é migrar.  O fluxo permite que a viação Novo Horizonte mantenha um ônibus com saída diária para a capital paulista, cobrando R$ 190,30. Bem mais barato, proporcionalmente, do que a ligação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, percurso três vezes menor.

O rapaz cujo nome parece apelido foi tentar a vida como ajudante de pedreiro, em 2006. Ficou pouco mais de um ano na função. Por indicação de um amigo passou a ser faxineiro de um restaurante de comida japonesa. Foram 20 dias na limpeza e cinco como garçom antes de aceitar a vaga de ajudante de cozinha.

“Em 30 dias já cortava os peixes direitinho” – conta ele, que ascendeu para sushiman, graças aos ensinamentos de um chef pernambucano cujo nome diz ter esquecido.

Restaurante da rede Matsuya. Divulgação
Restaurante da rede Matsuya. Divulgação

 

O futuro empresário passou um ano e três meses como funcionário de um dos restaurantes da rede Matsuya, pertencente, dentre outros, a Cido Pereira, personagem principal da próxima reportagem.

PRIMEIRO UMA CHURRASCARIA

Pedrinho voltou para Cordeiros e ajudava o pai a vender almoço na feira-livre. Em janeiro de 2013, aproveitando a clientela, abriu o primeiro restaurante: a Churrascaria União Jorge. Inicialmente, descartou a possibilidade de trabalhar com comida japonesa. Tinha um bom motivo:

“Era muito difícil conseguir salmão. Só depois é que uma loja de Vitória da Conquista (terceira maior cidade da Bahia, distante 161 km de Cordeiros) começou a vender o peixe, importado do Chile”

Churrascaria União Jorge. Divulgação
Churrascaria União Jorge. Divulgação

Com a churrascaria indo bem, Pedrinho encontrou um jeito de não esquecer o que aprendeu no restaurante japonês. Praticava em eventos familiares. Há pouco mais de três anos, arriscou abrir o sushi bar Oka, ao lado do estabelecimento onde serve rodízio de carnes, pratos comerciais e comida a quilo. Estipulou que o novo negócio, inédito na cidade, funcionaria de sexta-feira a domingo, das 19h às 23h.

“No primeiro mês foi bom. Sempre que você bota uma novidade, dá movimento. Depois, o pessoal foi aprendendo a gostar” – conta.

Dublê de proprietário e sushiman, Pedrinho só trabalha com salmão. São cerca de 10 quilos por dia de funcionamento. Prefere não usar outros pescados para não correr o risco de perder clientes. Os pedidos mais comuns são combinados, temakis e tepan (peixe grelhado na chapa) de salmão.

Aos poucos, os restaurantes japoneses se espalham pelas regiões sudoeste e centro-sul da Bahia. Eles já chegaram a Piripá, Condeúba, Caculé e Itapetinga. Apesar disso, Pedrinho Cícero considera que o preço dos pratos “é um pouco salgado” para os moradores da região. Em Cordeiros, segundo o IBGE, há 608 pessoas ocupadas (6,9% da população) e o salário médio dos trabalhadores formais é de R$ 1.431, valor equivalente a 73 temakis (cones de algas recheados com peixe cru e arroz).

“Nem todo mundo pode frequentar um sushi bar. Se o peixe não fosse importado, acho que a procura seria maior. É uma comida saudável” – acrescenta.

Por enquanto, o empresário está satisfeito com o negócio, onde emprega quatro pessoas. Há pouco tempo, recusou proposta de ser sócio em um empreendimento parecido, em Salvador. Cauteloso, prefere não ter sócios, nem sair da cidade. Só migraria novamente para São Paulo se tudo desandasse e tivesse que procurar novo emprego no ramo de alimentos:

“Construção civil é bom, só é um pouquinho mais pesado. No restaurante você trabalha na sombra, não tem tanto risco e é mais maneiro” – brinca.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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