As ceramistas de Malhada de Areia

As ceramistas de Malhada de Areia

Malhada de Areia está localizada a 6 km da cidade de Cordeiros e a 23 km de Condeúba, na região centro-sul da Bahia. O povoado pertence à cidade mais distante e tem como particularidade o fato de que um terço das famílias cadastradas na associação local possui fornos de vários formatos em seus quintais. Há mais de um século, boa parte dos moradores, principalmente as mulheres, sobrevive graças à produção de cerâmica.

Objetos utilitários – filtro, talha, moringa, fruteira, gamela, potes, panelas, pratos e buião (um tipo de chaleira) – são os mais produzidos na comunidade. Há cerca de dez anos, incentivados pelo projeto Pró-Gavião e por organizações sociais como o Movimento João de Barro, voltado para economia solidária, associativismo e empreendedorismo, os dois únicos homens do povoado que transformam o barro em arte resgataram as bonecas de candeia, usadas para iluminar as casas quando não havia luz elétrica na região.  A energia chegou em 1987.

Criadas por quilombolas, segundo o presidente da Associação de Ceramistas de Malhada de Areia, Nilton José Ribeiro, 49 anos, as bonecas que carregam com as duas mãos uma tigela onde se coloca óleo de mamona e fio de algodão para servir de candeeiro, pararam de ser produzidas por anos a fio. Foram os técnicos de fora que incentivaram o resgate da peça que é símbolo de Malhada de Areia.

Os técnicos entrevistaram inicialmente os moradores mais idosos, como a centenária Maria Jesuína de Jesus, hoje com 106 anos e impossibilitada de se comunicar. Com ela e outras veteranas, conseguiram passar adiante a técnica de modelagem e reproduzir o desenho dos vestidos das bonecas. Tamanho esforço não evitou, porém, o risco dessas peças desaparecerem novamente. Disso, falaremos mais adiante.

FORÇA DE TRABALHO

Quinze (31%) das 48 famílias cadastradas na associação de moradores e ceramistas de Malhada de Areia trabalham com barro. A maioria das artesãs têm entre 52 e 72 anos. Conta-se nos dedos as balzaquianas. Nos tempos atuais, poucas mães trabalham com as filhas. Às netas, nem pensar. É um trabalho duro na definição de Maria Zilda dos Santos, 57 anos, desde os 10 no ofício:

“Tudo é feito na mão. De primeiro, nós rancava o barro e trazia tudo na cabeça. Agora a gente compra de uma olaria. Eles vende uma charrete que cabe assim uns 10 baldes de barro por R$ 70.  Nós pisa ele com pau, sessa na peneira, depois amassa os bolos. Agora a gente já está assim de idade e não aguenta mais pisar. Eu pago para pisar para mim (sic)” – diz.

Zilda lembra ainda que o trabalho duro sempre foi feito com alegria. E que as mulheres não esperavam os homens. Faziam tudo, cantando.

“Era a música que vinha na boca sem saber. Música sertaneja antiga, de igreja. Tinha uns dias que saía de casa com a lamparina. Eu mesmo trabalho rindo. Tava sofrendo, mas não ficava triste.  Sofria porque às vezes nem vendia o que fazia. Ia em um amigo comprar fiado para voltar em oito dias e pagar. Agora tá bom! Tem o Bolsa-Família e nós mesmo é tudo aposentada (sic).”

Em 2002, o projeto Pró-Gavião, executado pelo governo estadual entre 1997 e 2006, com o apoio do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), construiu uma fábrica de cerâmica no povoado. Equipada com forno industrial, tornos, depósito, sala de aula e de exposição, visava reunir em um único local artesãs e artesãos da comunidade, aumentar a produção e formar novos profissionais.

A iniciativa não teve o êxito previsto. Acostumadas com os fornos de seus quintais, as ceramistas não se adaptaram à imensa fornalha que, segundo elas, provoca rachaduras nas peças menores. A justificativa para não interagirem entre si é a acentuada redução das encomendas nos últimos anos.

“Para o que estamos fazendo, nossos forninhos têm mais utilidade” – argumenta Zilda.

O forno industrial tem capacidade para produzir 300 potes por vez, com a vantagem de consumir dois metros cúbicos de lenha. No equipamento caseiro, a mesma quantidade de peças queima cinco metros cúbicos, aumentando o custo da madeira de R$ 160 para R$ 400. A fornalha foi acesa pela última vez há cinco meses.

Outra grande dificuldade para as ceramistas foi pegar o jeito dos tornos. Trabalhando “no manual” desde pequenas, logo desistiram da novidade.

Hoje, a fábrica funciona mais como local de reunião, de exposição de produtos e depósito.

A TERRA DO BARRO

 

CONEXÃO PATOS DE MINAS

Houve um tempo em que era mais lucrativo negociar nas feiras-livres de Condeúba, Feirinha, Mortugaba, Cordeiros, Jacaraci (BA) e São João do Paraíso (MG). Isabel Maria de Jesus, 72 anos, desde os oito anos no ofício de ceramista, conta que “batia alpercatinha” na carroceria e ia tomando poeira e sofrendo com o sol no caminhão que a levava até Mortugaba, a 70 km de distância.

 “Chegava de noite cansada, de boca aberta. O negócio era feio” – conta.

Com o passar do tempo, “a feira enfraqueceu”. O faturamento, muitas vezes, não dava para pagar o motorista que transportava as artesãs.

Maria Senhoria Meira, 52 anos, é a única que ainda tenta a sorte como feirante. Mesmo assim, bem pertinho, no mercado de Cordeiros. Ela divide a barraca com Sebastião, seu marido. Ele conta que o produto mais procurado é o filtro pequeno, vendido a R$ 60, mas ressalta que o movimento é fraco. As moringas custam R$ 5, R$ 10 e R$ 13, dependendo do tamanho.

O declínio do comércio regional não impediu que a fama das ceramistas condeubenses ultrapassasse as divisas do estado. A partir de 1998, o povoado atraiu compradores de Patos de Minas (MG), a 822 km de distância. As encomendas variavam de 500 a 1.000 potes para cada um dos quatro clientes, que levavam o material de caminhão.

A preços de hoje, as peças eram compradas a R$ 20, a unidade. Os motoristas passavam pelas zonas rurais dos municípios trocando potes novos por modelos mais antigos, que seriam vendidos em lojas como a Topa Tudo, de Patos de Minas, e até para outros estados da região Sudeste, por R$ 90. Por sua vez, dependendo do tempo de cada objeto, eles eram comercializados para decoração ou como antiguidade, passando a valer entre R$ 180 e R$ 250.

A crise econômica e a diminuição de peças velhas para troca atingiram em cheio este mercado. Hoje, apenas um comprador faz encomendas bimestrais às artesãs.

Uma das fornecedoras é Ana Maria de Jesus, 67 anos, 55 no ofício. De seus nove filhos, apenas Rosângela Maria Pereira, 38, seguiu os seus passos. Ana estudou até a quarta série. Em sua juventude, só havia duas opções de trabalho: a roça ou a cerâmica. Optou pela segunda e não se arrepende, apesar de se queixar de dores na coluna, como a maioria de suas vizinhas, e da quentura do forno.

Isabel Maria faz coro com Ana. Mais nova, foi para São Paulo ganhar a vida como doméstica. Há oito anos voltou para Malhada. Acrescenta que “o barro é melhor”:

“A gente ser mandado dos outros é coisa triste. Não dá atenção nem para o pai nem para a mãe porque tem que atender o trabalho” – ressalta.

HOMENS E BONECAS DE BARRO

A técnica utilizada pelas artesãs de Malhada de Areia é o acordelado, também chamado de rolete. Utilizada por indígenas há centenas de anos, consiste na superposição de roletes de argila em forma de anéis ou espiral, a partir de uma base. Após alcançar o tamanho desejado, é feito o alisamento dos roletes, por dentro e por fora da peça, até que as superfícies fiquem uniformes. Depois disso, a peça é colocada para secar ao ar livre. Por fim, é feita a queima para dar resistência.

Tradicionalmente, esse processo é feito pelas mulheres. Quando querem os homens participam arrancando o barro, pisando e fazendo o acabamento da cerâmica com verniz. No passado, usavam sacos como saias para não sujar a roupa. No entanto, dois jovens da comunidade, que aprenderam a moldar o barro com as mães, se destacaram ao fazer peças decorativas.

Gerce José dos Santos, 32 anos, teve como professora dona Maria Ana dos Santos. Por volta de 2006, ele passou a ouvir os ensinamentos e conselhos dos integrantes dos projetos Gavião (nome do rio que corta a região) e João de Barro, que incentivam os jovens a produzir novidades. A principal delas, as bonecas de candeia não tinham nada de novo, mas estavam esquecidas no tempo.

Símbolo oficial, mas não valorizada na região, essas peças centenárias têm maior aceitação em Salvador, Vitória da Conquista e Itapetinga.

“Se elas forem oferecidas no povoado vão dizer que R$ 20 é caro. Em Itapetinga, o modelo médio foi vendido a R$ 100” – diz Sandra Santos, ceramista que ciceroneou Meus Sertões na comunidade.

Para fazer uma boneca, Gerce leva cinco horas e 20 minutos. A pintura dos vestidos é feita com tinta própria do barro, reproduzindo os modelos existentes há mais de 100 anos. A falta de reconhecimento, no entanto, desanima o artista.

“Essa história de bonecas de candeia no Brasil, feita sem torno, só tem em Malhada de Areia. Essa cerâmica não se repete em lugar nenhum. Eu faço elas, mas só consigo fazer vendas para ganhar R$ 400, R$ 500 a cada dois ou três meses. É muito tempo. Trabalho com isso desde pequeno, estou ficando cansado” – desabafa.

Desanimado, o artista pensa em abandonar a profissão se conseguir um emprego fixo. Ele só voltou a trabalhar com o barro porque foi dispensado da fábrica de lacres, onde trabalhava como operador de injetora (injeção plástica), em São Paulo. O outro fabricante de peças decorativas, Maurício, está se dedicando mais ao trabalho na roça, segundo o presidente da Associação de Ceramistas. Assim sendo, a produção das peças tradicionais corre o risco de ser suspensa novamente.

As ferramentas de Gerce são sabuco, pedaço de cabaça, talha de cana, semente de mucunã, faca e pedra como instrumentos para fazer outras peças. Sem nunca ter feito um único curso, cria jarros diferentes e bonecos. Recentemente, recebeu uma encomenda de Condeúba para fazer esculturas masculinas. Fez cinco unidades de tamanhos diferenciados. Elas foram vendidas por R$ 150.

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Contatos da Associação de Ceramistas de Malhada de Areia. Presidente Nilton José Ribeiro: 77 9 8839-5783. Ceramista Sandra: 77 9 8841-5182. Através deles é feito contato com todas artesãs e artesãos da comunidade.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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