O padre da batina preta

O padre da batina preta

Os últimos 15 anos de vida do padre Ladislao (Ladislau em português) Klener, nascido na fronteira entre a Hungria e a Sérvia, foram dedicados aos pobres de oito cidades do centro-sul baiano. A dedicação aos trabalhadores rurais, aos enfermos e aos mais necessitados renderam uma série de homenagens sertão afora.

Convencido que “o missionário deve morrer em terra de missão”, o religioso voltou de sua terra natal, onde fora se tratar de um câncer, para morrer e ser sepultado no local escolhido por ele: diante da gruta de Nossa Senhora de Lourdes, no centro de Malhada de Pedras.

O agricultor e vaqueiro Miguel Alves Pereira, o Miguel de Leopoldino, 71 anos, não esquece a imagem do “padre da batina preta”, que morreu há 25 anos, em 1993. Miguel conta que o religioso de vez em quando ia almoçar em sua casa, não sem antes avisar:

“Vou comer uma palminha (picadinho de palma) lá hoje”.

Conhecido por só fazer as refeições por volta das 15 horas, após atender todas pessoas que o procuravam, Ladislao Klener fazia prolongados jejuns, mas não deixava faltar alimentos na mesa de pessoas carentes, segundo Miguel. Ele pedia esmolas em feiras, nos ônibus e em lojas, acompanhado de coroinhas, para comprar filtros de barro e cestas básicas para que os pobres bebessem água limpa e comessem.

Igreja Matriz de Malhada de Pedras. Foto: Paulo Oliveira
Igreja Matriz de Bom Jesus, em Malhada de Pedras. Foto: Paulo Oliveira

O padre também escrevia para seus contatos e amigos no exterior solicitando dinheiro, que era transformado em casas populares e na construção de igrejas, capelas e casas para religiosas. Graças a eles foram construídas as igrejas matrizes de Piripá, Presidente Jânio Quadros e Malhada de Pedras, além de obras diversas em Tremedal, Cordeiros, Maetinga e Aracatu.

O padre que se apaixonou pelo sertão gostava de o barrete (chapéu quadrangular) de quatro palas, tradicionalmente utilizados durante missas, parte dos sacramentos do batismo, casamento e unção dos enfermos, antes das confissões e por religiosos que têm doutorado, como era seu caso (direito civil e direito canônico).

Miguel lembra que ele abriu poços artesianos em Malhada de Pedras.

“Ele gostava tanto da cidade que dizia que ia acabar aqui” – recorda.

A DOENÇA

Nascido no dia 13 de outubro de 1927, dia e mês da sexta e última aparição de Nossa Senhora de Fátima, Ladislao se ordenou na Áustria, aos 24 anos. De lá, veio para São Paulo. Posteriormente, foi transferido para a Diocese de Caetité, onde permaneceu até a morte.

Morou em casas pobres e sacristias, pois não concordava com a feitura de casas para padres. Porém, por determinação do bispo Dom Alberto Resende construiu a casa paroquial de Caraíbas e Maetinga.

Em 1990, passou a sofrer de câncer. Buscou tratamento nos Estados Unidos, Itália e Áustria, sem sucesso. Três anos depois voltou à Hungria, onde permaneceu por pouco tempo. Na volta para Malhada de Pedras, em cadeiras de rodas, foi recepcionado como se fosse santo. Os preparativos para seu sepultamento já estavam feitos. Ele seria sepultado no terreno que a igreja comprou de um senhor chamado João Gonçalo, encostado na calçada da rua que hoje leva o seu nome, no mesmo local onde construiu a lapa de Nossa Senhora das Graças.

Dez dias antes, recebeu o título de cidadão malhadense.

Padre Ladislao morreu no dia 27 de novembro. A missa de corpo presente foi celebrada pelo bispo Alberto de 12 padres diante de duas mil pessoas que vieram de várias cidades.

A gruta de Nossa Senhora de Lourdes e a sepultura do padre. Foto: Paulo Oliveira
A gruta de Nossa Senhora de Lourdes e a sepultura do padre. Foto: Paulo Oliveira

José Roberto Pereira, 61 anos, foi um dos presentes. Ele saiu de Aracatu, a 79 quilômetros de distância, para participar da cerimônia:

“Era o mínimo que podia fazer por quem dedicou a vida aos pobres” – diz.

Ao lado da gruta, foi construído um memorial com objetos – fotos, roupas, livros e material litúrgico – que pertenciam ao padre.

O dia 27 de novembro passou a ser feriado municipal.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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Uma reflexão sobre “O padre da batina preta&rdquo

  1. Marlucia SouzaDisse…
    Replied on

    Muito lindo eterno Ladislau

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