Sertania

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MEUS SERTÕES UNIVERSIDADE - PERSONAGENS I

UMA FLOR NO SERTÃO

Camila Gabrielle

Minha viagem pelo sertão começou em Itabi, a 121 km de Aracaju, capital sergipana. Tia Maria, na verdade tia de minha mãe, nasceu e se criou neste município de cinco mil habitantes. Foi ela quem ficou com a missão de indicar possíveis personagens para o meu documentário.

A primeira delas, a agricultora Solange Santos, 46 anos, é mãe de três filhos que estudaram na escola em que tia Maria era professora e diretora. Solange nasceu em Aquidabã. Há 28 anos, se mudou para o povoado Barreiro Comprido, em Itabi, a 43 km da cidade natal, após casar com José Ricardo dos Santos.

Tive oportunidade de entrevistá-la duas vezes. Na primeira, eu confesso que estava apreensiva, pois achava difícil alguém “abrir” sua vida para quem acabou de conhecer. Solange também é o nome de minha mãe.  Achei o jeito das duas muito parecido. Elas são sorridentes, brincalhonas e batalhadoras.

Em nosso primeiro encontro, minha entrevistada estava com cabelos compridos e usava chapéu, como sempre, para se proteger do sol. A conversa, inicialmente, foi sobre a infância de Solange, que tem dois irmãos e uma irmã. Seus pais estão separados há 10 anos.

Dos tempos de criança, a agricultora diz ter poucas lembranças. Conta que o pai, Irineu Nunes, era muito rígido e não a deixava sair. Ele também não permitiu a realização de um sonho da filha: ser professora.

“Sempre achei uma profissão muito bonita. Ainda bem que meus filhos estão me compensando” – desabafa.

Solange não teve uma vida “muito fácil”. Na infância, trabalhava na roça, ajudando a família. A energia elétrica só chegou ao local onde nasceu em 2008.

“Ter água, luz e internet hoje é bom para quem vive no interior” – diz.

SEMENTE DO AMOR

A sergipana conheceu o futuro marido, José Ricardo, hoje com 52 anos, em um local inusitado: o cemitério. Foi durante o enterro de um conhecido. Passados alguns dias, ela pediu para um primo avisar José que queria conhecê-lo. O namoro durou nove meses. Quando casaram, ela tinha 18 anos, ele, 24.

Com José, passou a ter liberdade para participar de festas, cavalgadas e vaquejadas com as amigas, nas vezes em que ele não podia ir. O casal gosta muito de andar a cavalo.

Solange Santos, 46 anos, moradora do povoado de Barreiro Comprido, em Itabi (SE). Foto: Camila Gabrielle
Solange Santos, 46 anos, moradora do povoado de Barreiro Comprido, em Itabi (SE). Foto: Camila Gabrielle

A agricultora mora na mesma casa simples e aconchegante desde que se casou. Sorridente, repete diversas vezes que ama a propriedade e que não a trocaria pela casa mais luxuosa da capital do estado.

Solange tem três filhos: Ricardo, Abílio e Flávio. Eles estudam, respectivamente, zootecnia, engenharia civil e ciências da computação, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Aracaju. Os pais trabalharam na roça e na criação de animais para criarem os filhos com muito esforço, priorizando a educação. Os filhos visitam Solange durante as férias ou em feriados prolongados.

Na segunda visita, acompanhei um dia de trabalho de Solange, que produz queijo artesanal pela manhã. Dessa vez, ela havia cortado o cabelo e usava franja. Conheci também dois de seus três filhos, que ajudavam o pai na retirada do leite, na alimentação das vacas e na limpeza dos cavalos.

“Sempre existe aquela vontade de voltar para casa” – diz Ricardo, o filho mais velho, cujo sonho é ser pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

O primogênito foi o que mais trabalhou na roça dentre os irmãos, mas nunca deixou de estudar. Para Ricardo, quem vive no sertão valoriza coisas simples, como a água. Ele acrescenta que há muitos momentos de alegria e critica a imprensa que só mostra miséria. Ele e o irmão demonstram ter muito carinho pelo sertão.

O caçula Flávio só queria passar o dia jogando games e fazer consertos de computadores antes de começar a cursar ciências da computação. Seu maior desejo e se formar e retornar à terra natal para montar e trabalhar em um home office (escritório em casa).

PRODUÇÃO DE QUEIJO

Há cerca de oito anos, Solange produz queijo artesanal. Todos os dias, acorda entre 4h e 4h30 da manhã e espera o marido recolher o leite das vacas. A agricultora e criadora de animais produz até 10kg de queijo coalho, diariamente, e vende o produto a R$ 8,50, o quilo.

Enquanto José Ricardo passa boa parte do dia na plantação de milho e sorgo, utilizados para ração dos animais, a mulher trabalha em um tanque, onde retira o soro do leite, armazena as fôrmas e os potes de queijo e alguns panos. A produção dura quatro horas pela manhã.

No período de seca, a ordenha das vacas ocorre duas vezes por dia. Uma parte do leite é usada para consumo familiar e outra para fabricação de queijo. O dinheiro arrecadado é usado para a compra de ração dos animais. O soro do leite alimenta os porcos que o casal cria.

Solange e o filho Ricardo reclamam da falta de apoio para o pequeno produtor. Eles se queixam da falta de assistência técnica – oferecida por ONGs e órgãos do governo estadual em algumas regiões – para orientá-los sobre a melhoria e o aumento da produção. Os dois pleiteiam a criação de um selo de qualidade para queijos artesanais.

Resumindo: faltam políticas públicas mais eficientes que valorizem e estimulem o pequeno produtor na região. Aparentemente, estes benefícios são privilégios de grandes donos de terras, políticos e pessoas influentes.

Como sertaneja forte e batalhadora, Solange Santos não quer deixar seu lugar.

“Eu amo minha terra. Aqui é bom, você respira ar puro e as pessoas são comunicativas e muito acolhedoras!” – ressalta.

Percebi, durante as visitas, que a mulher do campo é protagonista de sua história e cria os filhos com dedicação, trabalhando duro, ao lado do marido, para dar o melhor para eles. A família Santos respeita suas origens e quer estudar e trabalhar a fim de contribuir para o progresso do local onde vivem.

A MERENDA

Enquanto esperávamos o queijo “descansar”, Solange me ofereceu cuscuz, rapadura, goiabada, mel, bolachão e queijo e um café feito na hora.

Sobre estas delícias, nem preciso comentar.

Camila Gabrielle Contributor
Camila Gabrielle, 21 anos, está prestes a se formar em jornalismo. Nascida em Salvador (BA) e criada em Aracaju (SE), ela cursa a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Além de estar finalizando o documentário “O sertão entre a flor e o espinho”, Camila trabalha como assessora de imprensa da prefeitura de Bauru (SP) e é freelancer de uma emissora de televisão.

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