Dona Lina

Dona Lina

Aderaldo era um homão forte, valente e brigão, que andava com um facão na cabeça na sela. Os donos de bares quando o viam ao longe, fechavam as biroscas. Não queriam confusão. Às vezes, no entanto, não dava tempo. Ao entrar, dava ordem para ninguém sair. Quando bebia, fazia os outros beberem a pulso.

Um dia, bêbado, o cavalo o derrubou no Lajedinho. Bateu com a cabeça na pedra e, mesmo com dificuldade, levantou-se. Saiu cambaleando, sangrando, no escuro. Caiu de novo. Encontrado horas depois e levado para um hospital, em Jequié, passou 12 dias internado. Morreu. Quase foi enterrado como indigente. Deixou viúva e 10 filhos. É aqui que começa a história de Lina Fernandes de Brito Oliveira, atualmente com 80 anos, sertaneja de fibra que criou 10 filhos sozinha.

Dona Lina nasceu na Fazenda Pedra Melada, em Manoel Vitorino. Trabalhou desde criança plantando capim e feijão. Adolescente, foi trabalhar para seu futuro marido. Aderaldo comprou a casa, na parte menos vistosa da fazenda Guigó, do juiz de Paz Jaime, filho do ex-proprietário da terra e genro do coronel Nonô.

Ao ficar viúva, aos 30 anos, Lina tinha que cuidar do local, onde também havia uma casa de farinha, e de Jesuíta, Esmeraldo, Iraci, Jonas, Argemiro, Celina, Irani, José, Deraldo e Maria das Dores.

Dona Lina, por que a senhora não casou de novo?

“Um homem enfrentar mulher com 10 filhos, ela 11, precisa ser muito rico. Depois não se dá com filhos, isso vai esculhambar com ele” – responde, sem pestanejar.

SOLUÇÕES CASEIRAS

A medida que os filhos cresceram, seguiram seus passos e foram trabalhar como agricultores bem jovens. Quase não havia escolas na região. Quem quisesse alfabetizar as crianças tinha que ir atrás de uma professora de Jequié em uma propriedade distante.

“Quem não tem pai, trabalha para os outros”, diz Lina sobre o destino da filha mais velha Jesuíta, à época com 10 anos, que depois foi trabalhar como diarista em São Paulo.

Lina lembra que as crianças deram trabalho quando os dentes estavam nascendo. As ervas e cascas de árvores supriam duas dificuldades: a falta de médicos e o difícil acesso à Guigó de dona Lina. Ela recorria a remédios caseiros como folhas de juá para desinflamar as gengivas e chá de barbatimão e jatobá para distúrbios no estômago e disenteria, respectivamente.

ESCURIDÃO

Desde que mudou para a casa que ocupa até hoje, dona Lina só não conseguiu solução para a falta de energia elétrica, com a qual convive há 62 anos. Os tocos de vela espalhados pela casa são a prova da incompetência da Coelba, concessionária de energia elétrica da Bahia, que prometeu incluir o imóvel no “Programa Luz Para Todos” e não cumpriu.

Além das velas, só a imaginação, auxiliada pela lua e as estrelas pintadas no cômodo onde a família do primeiro proprietário montava um presépio, ilumina o casarão de 280 metros quadrados, cujas janelas são originais e o piso é feito de barro queimado em forno de lenha.

Deraldo Rocha, 49 anos, é um dos quatro filhos que mora com a mãe hoje. Pastor de animais na infância, foi ser porteiro em São Paulo ao completar 18 anos. Ficou por lá por mais de duas décadas, regressando a terra natal em 2009. Ele revela que dona Lina também criou os dois filhos que o pai teve com a primeira mulher.

A vida sacrificada ensinou Lina Oliveira a se contentar com poucas coisas. Ela não perde o horário da Ave Maria e gosta de ouvir o programa de um radialista de Brasília, mas se queixa que hoje tem “muitas notícias ruins”.

Viagens fez poucas. Foi para São Paulo, a fim de visitar os filhos, e para Salvador, onde fez tratamento para “útero baixo”.

A seca não lhe amedronta. A cisterna que ganhou ajuda a enfrentar a estiagem.

A GUIGÓ DE LINA

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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