Identidade nordestina

Identidade nordestina

Nesta entrevista para Meus Sertões, a estudante de jornalismo  Camila Gabrielle, 21 anos, prestes a se formar, conta como surgiu o projeto “O sertão entre a flor e os espinhos”, nome do documentário que apresentará como TCC (trabalho de conclusão de curso), cujo tema são cidades, povoados e moradores do sertão sergipano.

Camila revela ainda como os nordestinos são vistos no sul do país, onde estuda. Angústia, saudades e simplicidade também são temas desta conversa com a jovem baiana que nos inspirou a criar o projeto “Meus Sertões Universidade.”

Camila, por favor, apresente-se para nossos leitores.

Meu nome é Camila Gabrielle, tenho 21 anos e sou baiana. Quando eu tinha oito anos, minha família se mudou para Aracaju, onde mora meus avós e minhas tias. Tenho duas irmãs mais novas – 16 e 9 anos.

Quando entrei no ensino médio, decidi que queria cursar jornalismo. Como a família do meu pai é de São Paulo e eu queria “sair de casa” na tentativa de buscar um crescimento profissional, prestei vestibular para a Unesp (Universidade Estadual Paulista), em Bauru, no interior do estado. Passei e me mudei aos 18 anos. Aqui, descobri que não é nada fácil ficar muito tempo longe de casa. A saudade aperta, você sente falta da família, dos amigos, de seu lugar, da praia.

Você chega cheio de sonhos, buscando oportunidades. Eu encontrei várias delas aqui, assim como pessoas muito especiais. Mas também me deparei com o preconceito que alguns têm, infelizmente, em relação aos nordestinos e aos sertanejos. Toda matéria que eu assistia sobre o Nordeste era sobre seca, pobreza e sofrimento. Era só isso. Isto começou a me incomodar ao ponto que decidi desenvolver um projeto que valorizasse minha identidade, meu lugar, o Nordeste e as minorias. De modo geral, me considero uma pessoa que sonha em ver um país mais igualitário, mais respeitoso e acho que isto tem a ver com Educação. De termos ensino sem preconceitos e bem estruturado.

O que vem a ser o “O sertão entre a flor e os espinhos”?

 Esta inspiração surgiu durante a visita a Itabi e seus povoados, no sertão sergipano. Lá, existem muitos mandacarus. Em um dos dias em que passei lá, uma flor do mandacaru estava aberta pela manhã. Uma linda flor branca, única, naquela grande planta verde e espinhosa. Tem uma música do Dominguinhos que diz: “Mandacaru, quando fulora lá na seca, é o sinal que a chuva chega no sertão […]”. Eu fiquei na dúvida se era verdade. Mas de forma impressionante, à tarde, começou a chover no sertão.

Isto ficou no meu pensamento, a flor atrelada à chuva, à esperança.

Daí, comecei a ler sobre o simbolismo do mandacaru e pude perceber que ele representa a força do sertanejo. O verde é esperança; os espinhos representam as dificuldades e a adaptação; a flor, a chuva. Sem querer romantizar o sertão, mas humanizá-lo, eu percebi que aí estava o tema do meu projeto.

Como este trabalho está dividido para atender os objetivos acadêmicos, cinematográficos e jornalísticos?

Dentro os objetivos acadêmicos encontram-se: desconstruir estereótipo ou preconceito que existe em relação ao sertão nordestino e as pessoas que ali vivem por meio das histórias de famílias e suas formas de vida. Além disto, mostrar o povo nordestino, em especial, o sertanejo e a forma de trabalho local; associar questões de identidade e pertencimento com o lugar (espaço físico, estático); trazer um aspecto mais realista sobre a seca; levantar questões culturais, como família e tradição; ao contrário da grande mídia, dar voz a estes personagens. Todas estas questões estão abordadas em um relatório entregue à universidade. Este documento, no qual se busca a identidade e a valorização do sertanejo, detalha o projeto para a academia.

Objetivos cinematográficos são poucos. Eu diria que é o aperfeiçoamento nas técnicas de edição e de filmagem, que não foram perfeitas neste vídeo por conta da limitação de material e de habilidade para realizar as gravações e entrevistas de forma simultânea.

Agora os jornalísticos, acredito que desenvolver as entrevistas e o ponto empático com o outro foram o foco neste projeto. Se colocar no lugar do outro, tratar com humanidade e ouvir são pouco usuais na profissão de jornalista hoje. A velocidade da informação e a falta de tempo faz com que os profissionais usem a fonte apenas para obter o que quer. Eu decidi que não serei assim. Quero dar de atenção e respeitar cada história. Com a produção do documentário foi possível permitir que as pessoas contassem suas histórias sem interrupções, que eu não fizesse isso por elas. São as personagens que moram no sertão, elas é que sabem o que de fato enfrentam. Além disso, este projeto não é imparcial, ele tem um posicionamento crítico característico do gênero documentário desde o início.

Por que você decidiu oferecer parceria ao site Meus Sertões?

 Assim que eu comecei a desenvolver meu projeto, pensei em firmar parcerias para ajudar a divulgar. Não com o objetivo de me tornar famosa, mas a fim de espalhar a mensagem. Na universidade, eu ouvi falar de Meus Sertões como uma mídia alternativa aos veículos tradicionais de comunicação, trazendo um aspecto diferenciado sobre o sertão. Fui pesquisar e descobri que o site tinha o mesmo objetivo que eu. A partir daí, decidi entrar em contato e ver se topariam a parceria. E foi melhor do que eu pensei!

Qual a avaliação que você faz desta cooperação até o momento?

Está sendo maravilhoso. Desde o começo tive muita liberdade para expor minhas ideias, muito respeito em relação ao meu projeto e muito aprendizado. Cada orientação, dica, eu estou pegando (risos). Estou em formação, trabalhando com o Paulo que é superexperiente, isto tem sido uma honra para mim. Fico feliz que o meu projeto possa incentivar outros jovens a realizarem parcerias com o site.

O que será publicado no site?

O projeto “O sertão entre a flor e os espinhos” consiste na publicação de um editorial, um texto sobre Itabi e dois outros sobre os personagens. Além disso, teremos uma galeria de fotos, o teaser e, por fim, a publicação do documentário no dia 20 de novembro.

O que Itabi, cidade do sertão sergipano, representava para você antes de iniciar a produção do documentário e o que representa agora?

Itabi sempre foi uma cidade importante pra mim. Minhas bisavós são de lá, assim como minhas tias e tio da minha mãe. Minha mãe passou um tempo da infância lá. A ligação familiar sempre foi o elo entre mim e Itabi. Com o projeto, eu comecei a enxergar a cidade para além da família. Entender os aspectos climáticos, conhecer mais da região e ouvir novas histórias. A cidade é tão importante quanto qualquer outra que pertença ao sertão, eu a vejo com respeito por seus moradores enfrentarem períodos severos de seca sem esmorecer.

Agora, acima de tudo, minha identidade e cultura como nordestina ficaram afloradas. Eu passei a sentir orgulho daquele lugar. No começo, morando em São Paulo, eu me sentia um pouco inferior ou sentia que as pessoas achavam isso de mim. Hoje, eu tenho muito orgulho de falar de onde eu vim, quais são minhas origens, que o Nordeste não é só litoral. Que a alegria não é só dinheiro, é também simplicidade. E eu amo pertencer a isso.

Após a defesa do TCC, quais são seus planos com relação ao documentário e à sua carreira?

 Eu ainda quero continuar tentando ser repórter de TV e espero ganhar visibilidade na minha luta por respeito ao Nordeste. Pretendo fazer mestrado na USP ou Unesp, abordando como o jornalismo independente na internet fora dos grandes centros e o Nordeste como campo de pesquisa.

Sobre o documentário, estou firmando acordo para exibir na TV Aperipê, em Aracaju, e pretendo exibi-lo na TV Unesp, em Bauru. Além disso, farei a divulgação dele em outras mídias, no Nordeste e no Sudeste. No final do ano, pretendo exibi-lo em Itabi, como uma forma de agradecimento e de dar um retorno à comunidade.

Sobre para onde eu vou no futuro, ainda não sei. Não descarto a ideia de voltar para o Nordeste, porque realmente sinto muitas saudades.

Jornalista, 57 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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