O embelezador de Itapetinga

O embelezador de Itapetinga

São Félix -BA deve se envaidecer por tê-lo como filho
As mãos de um célebre!
A bondade de uma criança!
O amor e a beleza da arte!
Agilidade e sabedoria para transformar o pó de cimento em obras admiráveis!      

Autodefinição de São Félix escrita nas costas da imagem de São Francisco

Dois homens caminham pelo Parque Zoobotânico da Matinha, em Itapetinga, que está fechado para se adequar à legislação ambiental. Entre trilhas mal sinalizadas e com mato alto,  revisitam as esculturas feitas pelo artista pedreiro Júlio de Souza Barbosa, o São Félix, a partir da década de 1970. São Félix morreu em 2011, aos 83 anos, após ter sido atacado a facadas e a pedradas por um casal que invadiu o local onde ele morava para roubá-lo.

Um dos visitantes é o artista plástico e ex-jogador Villadônega Rodriguez, 75 anos, parceiro de São Felix e coautor de várias esculturas. Vila, como é conhecido, não pisava na Matinha desde o assassinato do amigo. O outro é Nilton de Souza Barbosa, o Cabo Barbosa, 55 anos, filho do homem que embelezou o parque e a cidade com suas obras.

Além de rever os trabalhos, eles  pretendem se colocar à disposição dos responsáveis pela reforma e orientarem a restauração das 23 estátuas que ornamentam o parque. Feitas de cimento e vergalhões, parte das obras está pintada de verde, bem diferente das cores originais, ou desbotou.

Nos trinta minutos de caminhada, a emoção toma conta dos dois:

“Estou sentindo a mesma coisa de quando ficava aqui com São Félix. Só que com ele vivo, ríamos o tempo todo. Ele era divertido e gostava de fazer piadas. Ao mesmo tempo, dá um pouco de tristeza por achar o parque nessa situação, malconservado. Dizem que vai melhorar, vamos esperar” – diz Villadônega, que estudou na Escola Politécnica de Belo Horizonte quando jogou no Atlético-MG.

Já Barbosa lembra do tempo de criança, quando ficava ao lado do pai e Vila enquanto eles trabalhavam. O filho do escultor tem esperança de que o governo municipal recupere a Matinha rapidamente.

O passeio pelo Parque, autorizado pelo atual gestor,  foi acompanhado pelo repórter de Meus Sertões. Voltaremos a falar dele mais adiante. Por enquanto, vamos resgatar a história de São Félix para que todos saibam como um pedreiro mudou o cenário de Itapetinga, cidade da região centro-sul da Bahia, a 562 quilômetros de Salvador.

IDA PARA ITAPETINGA
São Félix fez fama em Itapetinga. Reprodução
São Félix ganhou fama com suas esculturas. Reprodução

Júlio nasceu na cidade de São Félix, no recôncavo baiano, no dia 21 de março de 1927. Criado pela mãe,  trabalhava em uma fábrica de charutos na adolescência. Depois, aprendeu o ofício de pedreiro.

Aos 17 anos, foi chamado para viver com pai, Juvino Barbosa, no distrito de Itatinga. Na época, a localidade foi  desmembrada de Vitória da Conquista e anexada a Itambé. Anos mais tarde, a vila originou o município de Itapetinga,

Foi no caminhão conhecido como “Céu Azul”, pertencente a um amigo de Jovino, que Júlio chegou. Estava com 17 anos e adorava jogar futebol. Seu pai era dono de uma venda e morava próximo ao centro da cidade, antiga área do meretrício. Bastou uma semana para o jovem se enturmar e passar a frequentar os campos para jogar babas (peladas).

Por jogar bem foi convocado para uma partida, contrariando o pai. Teve trabalho para ser liberado e chegou atrasado. Como os colegas não sabiam como ele se chamavam, assinaram a súmula com o nome da cidade natal do garoto. O apelido pegou.

Na década de 1960, São Félix trabalhou como mestre de obras na construção do Ginásio Agroindustrial e construiu uma pequena casa no pátio da escola, onde morou até o fim da vida.

Na década seguinte, recebeu a primeira encomenda para fazer uma escultura. O então prefeito José Vaz Espinheira perguntou se ele faria uma tartaruga para enfeitar o Parque da Matinha, onde também havia um zoológico.

A troca de ideias com Villadônega foi fundamental para o pedreiro iniciar a carreira de escultor.

AMIZADE

Nascido em Euclides da Cunha (BA) e criado em Jequié (BA) Villadônega era jogador das categorias de base do Vasco e passava as férias na casa do pai, topógrafo, em Itapetinga. Ele e São Félix, zelador de um estádio, residiam no mesmo bairro.

O meio-campista gostava de jogar bola à noite, escondido. Ele entrava por um buraco no muro que cercava o campo. Em muitas oportunidades deparou com São Félix, varinha nas mãos, afugentando a gurizada. Com o tempo, ficaram amigos. Ao deixar o futebol, após passagem pelo Atlético-MG, Villadônega se estabeleceu em Itapetinga. Artista plástico, pintava painéis e fazia a decoração de eventos.

Certo dia, após um jogo de futebol, São Félix perguntou a Vila se ele o ajudaria a fazer a tartaruga. A resposta foi positiva e os dois começaram a planejar a empreitada. O prefeito tinha encomendado uma miniatura, mas o pedreiro disse que poderia fazê-la maior, como se estivesse fabricando um “forno de assar biscoitos”. Eles apresentaram a proposta e Espinheira autorizou a obra.

São Félix tinha 33 anos quando começou a levar a sério o trabalho de escultor. A tartaruga que ele e Vila criaram agradou o prefeito, que encomendou outra escultura. Dessa vez, pediu um jacaré, símbolo de seu partido político. O bicho gigantesco tinha olhos verdes brilhantes, feitos com fundos de garrafa.

A terceira sugestão foi mais ousada. O pedreiro artista perguntou ao prefeito se ele não ia fazer um sapo, símbolo da oposição. Espinheira concordou. E os bichos que representavam inimigos na política passaram a conviver em lados opostos de um lago, hoje seco, na Matinha.

Além das esculturas no Parque, São Félix deixou outras 17 na Praça dos Pioneiros, em frente ao estádio Primaverão, no colégio Agroindustrial, no portal do Tiro de Guerra e na torre da Igreja São José. Dentre os temas escolhidos estão o futebol e homenagens aos primeiros habitantes da cidade. Ele também trabalhou como servente, ajudando o escultor soteropolitano Manoel Bomfim a esculpir os orixás (Oxalá, Omulu e Ogum), na rótula principal de Itapetinga.

Indiretamente, de acordo com Cabo Barbosa, a última peça feita por São Félix atraiu a cobiça dos ladrões que o mataram.

CRIME

Barbosa conta que São Félix estava construindo a estátua de um homem montado a cavalo, quando o radialista e vice-prefeito Edílson Lima, brigado com o prefeito, disse do ar que seu pai ganharia muito dinheiro pela obra. Queria provocar seu desafeto político, mas atiçou algo que não previa.

Hérica Brito dos Santos, ex-aluna do colégio Agroindustrial, trabalhava como faxineira do escultor, de quem se dizia amiga. A polícia apurou que ela convidou E., adolescente de 17 anos com quem se relacionava, e o convidou para assaltar o velho artista, pois soube que ele receberia R$ 7 mil a qualquer momento.

Os dois invadiram a casa da vítima no dia 28 de dezembro de 2010. Atacaram-no a pedradas e golpes de facão na cabeça. Fugiram, segundo o delegado Roberto Júnior, que investigou o caso, levando um celular e cerca de R$ 500.

São Félix foi levado inconsciente para Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, onde ficou 18 dias em coma. Morreu no dia 16 de janeiro de 2011. Sua última escultura foi coberta com um pano preto em sinal de luto.

Hérica foi condenada a 20 anos de prisão por participar do assassinato de São Félix. Reprodução
Hérica foi condenada a 20 anos de prisão por participar do assassinato de São Félix. Reprodução

Hérica e o adolescente foram presos. No primeiro julgamento, ela foi condenada a 5 anos e quatro meses de prisão. O promotor José Junseira recorreu e o Tribunal de Justiça da Bahia ampliou a pena para 20 anos de reclusão, em regime fechado, no presídio de Jequié. O adolescente, de acordo com Cabo Barbosa, foi libertado após passar cinco anos preso.

Depois da morte do escultor, várias homenagens foram prestadas: a Rótula dos Pioneiros foi rebatizada com o nome de São Félix e hoje serve como estúdio-escola. A biografia “Obra e Arte de São Félix”, de Sérgio Gomes e Adriano Silva, foi publicada. E todos anos, em março, é feito um tributo ao artista.

de volta à matinha

Durante o passeio pelo Parque da Matinha, Barbosa conta que a escultura que mais gosta é a do jacaré gigante. Lembra de muitas frases do pai, a mais marcante para ele é “Itapetinga ainda que o destino nos separe, sou aquele que sempre te embelezou”.

Seguindo a trilha, é possível passar pelas esculturas “Acari”, peixe típico do rio Caculé; “Mandacaru”, feita sem a participação de Vila, que estava doente; “Bom Samaritano”; “A Flor do Desejo”; “A Pomba”; “Os Amantes”; “A Maldade Acima do Mundo”; “Jacaré”, que tinha olhos brilhantes feitos com fundo de garrafa; “Sapo”; “Totem” e “São Francisco” (ver as imagens no clipe abaixo).

“São Félix tinha um talento nato. Ele nunca estudou arte” – diz Villadônega, que também elogia a criatividade do parceiro.

A visita ao parque de 27 hectares aconteceu em maio. A reabertura estava prevista para junho, mas ele permanece fechado. Barbosa nos disse, em conversa telefônica, que o prazo agora é dezembro. Acrescentou que o acesso principal ao parque é a parte mais adiantada. E que três das esculturas instaladasali ganharam caminhos feitos de pedra. As obras, no entanto, permanecem no mesmo estado que encontramos no primeiro semestre deste ano.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “O embelezador de Itapetinga”

  1. Gorette BrandãoDisse…
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    Curioso! Às vezes, é necessário o olhar de um estrangeiro para que algo habitualmente próximo a um nativo ganhe maior relevo à sua visão. Visitei muitas vezes o Parque da Matinha, lá em Itapetinga, minha cidade natal. Que me lembre, as esculturas sempre lá estiveram, mas nunca cheguei a pensar em quem foi o criador das obras. Fato é que elas me pareceram mais interessantes depois que li essa matéria. Agradeço ao autor, assim como a essa revista digital, o prazer do reencontro com as esculturas e da descoberta do criativo autor.

  2. ItapetinguenseDisse…
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    A cultura nunca morre, o legado de São Félix será para sempre lembrado na história de Itapetinga

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