Sertão quer a volta da pedra

Sertão quer a volta da pedra

O Meteorito do Bendegó, encontrado em 1784 no sertão baiano, tem em torno de si a mística de ser um talismã. Os sertanejos dizem que ele caiu do céu com uma pedra-irmã toda de ouro. Ambas eram encantadas. A primeira tinha como objetivo influenciar nas chuvas e na seca, além de proteger a região. A segunda se escondeu diante da usura dos seres humanos e nunca mais foi encontrada.

Poetas, repentistas e compositores passaram a descrever a pedra do jeito que o povo contava:

“A seca veio depois/ Que Dom Pedro levou ela/ A Pedra do Bendegó/ Foi para o Rio de Janeiro/ A profecia não erra”

Ao mesmo tempo, seu retorno passou a representar tempos melhores para o sertão.

“Quando a Pedra do Céu voltar/ Bênçãos de chuva cairão/ Quando você voltar / Enchendo de verde o sertão/ Meu coração Tapuia/ Fulorirá mais cedo/ Menino, eu até tenho medo/ Do dia que ocê voltar” – diz o poeta Gringo Barreto, nos versos de “Cuitá”, nome de origem indígena dado à Pedra.

Levado para o Rio de Janeiro, por determinação de Dom Pedro II, 104 anos após sua localização, o meteorito foi instalado no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, destruído por um incêndio, domingo passado.

Enquanto arrasavam um acervo com mais de 200 anos de história, as chamas atiçaram o recrudescimento de um movimento iniciado há mais de uma década, segundo o geógrafo e professor Raimundo Venâncio Filho: o de trazer o meteorito de volta à região de Canudos, Uauá e Monte Santo.

Na internet, muita gente manifesta esperança de que isto ocorra. Desde agosto de 2011, quando o site Montesanto.net publicou que o Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) recomendou o retorno da pedra para o município – o que foi em vão – não havia mais muita gente que acreditasse nessa possibilidade. Agora, o sentimento voltou a aflorar.

A Associação Regional de Economia Solidária e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais estão entre as entidades que defendem a transferência da pedra espacial para o Museu do Sertão, reaberto em 2017, após ficar quatro anos fechado. Enquanto a reivindicação não é ouvida, a instituição mantém uma réplica do meteorito feita de gesso.

“A cópia foi encomendada em um ateliê no Rio de Janeiro. Ela tem as medidas reais da Pedra do Bendegó. Há alguns anos, teve algumas avarias, mas antes da reabertura do museu, um técnico de Salvador conseguiu consertá-la” – conta Raimundo Venâncio.

ABAIXO-ASSINADOS

“A pedra do Bendegó/ Tem que voltar pro sertão/ Para que isso aconteça/ Preste muita atenção/ Seja nosso aliado/ Já temos o abaixo-assinado/ Assine nossa petição” – C.S.

Circulam na internet abaixo-assinados pedindo a restituição do meteorito. Um deles criado por Carlos Silva Cantador com a seguinte justificativa:

“Queremos de volta a Pedra do Bendegó (…) por ter caído em solo baiano, hoje, estamos pleiteando seu retorno para o sertão, lugar onde será acomodada para visitação e valorização patrimonial da nossa terra e do nosso povo”.

Nas redes sociais há um alvoroço neste sentido. O comerciante Jaílson da Silva Carvalho conclama seus amigos e seguidores a tentar trazer o meteorito para o sertão e sugere a mobilização de políticos para que Monte Santo conquiste este objetivo.

O geógrafo Raimundo Venâncio, apesar do retorno da mobilização para trazer o aerólito, diz que considera difícil ele vir para o sertão. Apresenta como motivo o fato de a Pedra não ser apenas um objeto de atração turística, sendo também relevante para estudos científicos.

Ressalta ainda que todos os estudos sobre o objeto estavam na biblioteca do museu, também destruída. Dentre eles, um trabalho recente e minucioso feito nas fendas do meteorito, estabelecendo sua entrada no planeta terra em um período entre 7 mil e 10 mil anos. Não há informação se existe cópia digitalizada sobre este material.

Venâncio acrescenta que várias instituições no país têm condições de reivindicar a Pedra, como por exemplo o Museu de História Natural de Ouro Preto (MG). Ainda sobre o movimento de volta ao sertão, o geógrafo diz que ele estaria mais forte em Canudos e Uauá, onde conta com a participação de professores da Universidade Estadual da Bahia.

Procurado por Meus Sertões, o diretor do campus Canudos, da Uneb,  Luiz Paulo Neiva, não retornou as ligações.

LOCALIZAÇÃO EXATA

Na dissertação de mestrado “O meteorito de Bendegó: história, mineralogia e classificação química”, o geólogo Wilson Pinto de Carvalho dá a localização precisa do local onde o meteororito caiu. Segundo ele, as coordenadas são E 471.359,4664 (10° 07’ 01,51830” S) e N 8.881.630,2778 (39° 15’ 41,12180” W). O ponto de referência para encontrar o local é o cemitério do povoado Bendegó de Pedra, que hoje pertence ao município de Uauá.

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(*) Para quem se interessar sobre como foi o processo de transferência da Pedra de Bendegó para o Rio de Janeiro, vale a pena ler:

A viagem

Leia também: A pedra do fim do mundo

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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