Música sertaneja embala produção de leite

Música sertaneja embala produção de leite

Os moradores da Comunidade Onça, em Manoel Vitorino, há tempos trocaram o gado de corte pela produção de leite. A justificativa econômica é que com a venda de carne não têm renda mensal fixa. Já quem opta pela produção leiteira e vende o litro a R$ 0,99 para a cooperativa sabe exatamente quanto ganhará.

A mudança de prioridade também fez os pequenos criadores investirem como podem na melhoria genética fazendo o cruzamentos ou comprando animais das raças pardo suíça (schwyz) e suíça com holandesa.

Anderson, filho de Carisvaldo Meira Alves, dono da fazenda Matinha, faz a ordenha duas vezes por dia, pela manhã e no final da tarde. Os novos animais produzem até 30 litros por dia. Uma bezerra de raça custa R$ 3.300. As vacas nativas dão menos leite e comem a mesma quantidade de ração.

Carisvaldo Meira, proprietário da Fazenda Matinha. Foto: Álbum de família
Carisvaldo Meira Alves, dono da Fazenda Matinha

Para atingir essa produtividade, ele e o irmão Breno seguem diversas normas: ordenham as vacas grávidas por oito meses, suspendendo no último mês; deixam os bezerros amamentarem direto por 15 dias, depois passam a alimentá-los com ração. As fêmeas levam o mesmo período, mas o aleitamento é feito durante um tempo menor para que a ordenha não pare. A exceção são os machos criados para a reprodução. Eles são aleitados até completar dois meses.

Durante a ordenha  duas providências devem ser tomadas para relaxamento do animal e liberação de mais leite. Veja o processo no vídeo abaixo.

Como foi provado por cientistas britânicos da Universidade de Leicester, na Inglaterra, vacas expostas à música clássica e canções lentas produzem 730 mililitros de leite a mais do que as que ouvem canções agitadas.

No sudoeste baiano, no entanto, o conhecimento empírico demonstra que elas se acalmam e a produção melhora quando os bichos ouvem música sertaneja. É por isso que os pequenos produtores da Comunidade Onça fixam um compartimento de plástico para proteger o celular que toca músicas durante a ordenha.

Ivanda Meira Barros, mãe de Anderson, explica de uma forma bem simples a escolha do repertório:

“Quem mora no sertão ouve sertanejo”

OUTRAS PROVIDÊNCIAS

Há duas formas de estimular a vaca. A primeira é deixar o filhote mamar um pouco. A outra é aplicar 0,5 milímetro de hormônio antes da ordenha. A ocitocina está envolvida em diferentes funções de reprodução e liberação de leite. Serve tanto para estimular contrações uterinas durante o parto como para fazer o leite descer. O corpo da vaca normalmente produz ocitocina em pequena quantidade quando ela alimenta a cria.

Durante a ordenha, o hormônio age na manutenção da lactação e no controle de descida do leite tanto nas ordenhas manual, mecânica, com ou sem o filhote ao pé da vaca. Ela estimula a ordenha completa e rápida, impedindo a retenção de 5% a 20% do leite nas glândulas mamárias.

No curral dos Meira uma das cinco vacas produtoras, a Boa Sorte, no entanto, não se acostumou com a injeção preliminar. Ela é a única estimulada pelo filhote.

As patas traseiras das vacas são amarradas antes da aplicação injetável para evitar que elas deem coices. A retirada do leite é feita enquanto as vacas se alimentam. Os filhotes ficam apartados na sala de espera do curral. Antes da ordenha é preciso lavar as tetas das fêmeas com água para evitar contaminação.

O tempo médio de vida de uma vaca leiteira é de 20 anos. Nas indústrias, elas são abatidas entre o sexto e o décimo ano, dependendo da produção. O descarte dos animais normalmente ocorre por problemas reprodutivos (sem reproduzir não há leite), por problemas locomotores, por mastites e outras inflamações.

As que sobrevivem a isto são levadas para o abate quando a produção de leite cai. Foi o que ocorreu com a vaca preta Grã-Fina, que pertencia aos Meira. Ao atingir 13 anos, ela foi vendida para o abate. Com o dinheiro arrecadado, estava prevista a compra de outro animal, segundo Ivanda, agente de saúde que ajuda os filhos e o marido na criação.

A Fazenda Matinha possui uma área para plantação de palma forrageira e abriga um banco de sementes crioulas. O transporte da produção leiteira é feito em uma moto com uma vasilha na garupa.

AMPLIAÇÃO

Na propriedade em frente à fazenda dos Meira, Leandro Fernandes Barros, 32 anos, está construindo um curral caprichado, usando toras e tábuas de massaranduba para fazer um cômodo para guardar ração, motor para silagem, sala de espera de 45 metros quadrados e área de ordenha mecânica.  A arte da marcenaria vem de berço, herdou do bisavô. Sozinho aprendeu a ser pedreiro.

Em 2012, ele comprou a propriedade de João Vila. Na ocasião, chegou a ouvir o seguinte de uns criadores do município de Itororó:

“Esse capim não bota um pé. Vocês criam vaca de doido. Aqui é terra de cabra. Em Itororó é verde e não dá leite como vocês estão pensando em produzir”.

O prognóstico não desanimou Leandro, casado e pai de dois filhos. Nascido em Catingal, ele nunca viajou para lugar nenhum. Dos 365 dias do ano, trabalha 350. No pouco tempo livre que tem faz pesquisas na internet para aperfeiçoar o seu trabalho. Estimulado pela força de trabalho do pai, o pequeno Eduardo, 6 anos, já sabe ordenhar.

Em pouco tempo, Leandro passou a produzir suas próprias matrizes de gado holandês schwyz. Suas vacas produzem em média 22,5 litros por dia. O criador tem silagem suficiente para suportar nove meses de seca.

“Sertão é terra produtiva. O problema não é a (falta de) chuva. É mais das pessoas”, diz.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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