Brincando de curral de ossos

Brincando de curral de ossos

Lembro que quando era adolescente vi uma reportagem na televisão que mostrava crianças brincando com ossos de boi. A matéria tinha como objetivo mostrar aos cariocas e demais sulistas a miséria nordestina.

Quarenta anos depois, aprendi com seu Saturnino, apelido do agricultor e criador de animais Saturnino de Souza Meira, 72 anos, que o curral de ossos faz parte da cultura do Nordeste desde sempre e que a brincadeira reúne muita imaginação e a vontade de imitar o trabalho dos pais. Mas vou deixa-lo contar para vocês o que disse para mim sobre os “as vacas de ossos”.

De quebra, seu Saturno fala de jeito próprio de um tempo que é dele. Relata como era a vida no sudoeste baiano, entre os municípios de Manoel Vitorino (Feirinha e Catingal) e Jequié, onde brincou, farreou e trabalhou muito.

DE UM LADO PARA O OUTRO

 “Aqui era a fazenda do meu avô. No tempo que partiu as terras, meu pai tirou uma herança de terra aqui. Meu pai morava em Feirinha (povoado de Manoel Vitorino – BA). Quando chegava o tempo das primeiras ramas nós vinha chupar umbu aqui e trazia gado da região da Feirinha. É uma légua e pouco daqui. Mais ou menos dez quilômetros.

Trazia mudança em lombo de burro. Botava os colchão, enchia as buracas (recipiente de couro) de louçazinhas e trazia tudo para aqui. Nós tinha uma casinha ali onde é a casa de meu irmão (aponta). Casinha de taipa, feita de enchimento, batida a barro. Naquele tempo fazia casa de pau e de enchimento, enrolava e batia barro. A gente mudava de lá para aqui.

Eu era menino nesse tempo, nós trazia cada um embornal de vaca de osso (*). Um embornalzinho de vaca de osso para brincar aqui. A gente fazia uns curralzinho tudo bem-feitinho e fazia uns mangueirinhos (pequenos currais), botava as vaquinhas num mangueiro, os bezerros em outro.

No outro dia cedo ia tirar o leite (risadas). Não dava leite não (mais risos), mas a gente chegava e dizia que ia tirar leite, né? Fazia aqueles canequinhos (vasilhas mais largas no fundo do que na boca) e vinha brincar. Eu e meus irmãos. Minha idade hoje é 72 anos. Nesses tempos, eu tinha cinco, seis anos, era menino de seis anos. Acho que até 10 anos eu vadiei. Nesse tempo menino vadiava muito. A gente trabalhava na roça, mas brincava também. Nas horas de folga ia brincar.

Eu estudei até a segunda série”

BREVE PAUSA

Vou interromper o proseado de Seu Saturno para acrescentar uns detalhes sobre as vacas de ossos ou o curral de osso, como a brincadeira é chamada no Rio Grande do Norte, onde existe um museu de brinquedos antigos que foi criado depois do lançamento do livro “Brinquedos e Brincadeiras Potiguares: Identidade e Memória”, pela editora do Cefet, em 2007.

A publicação de vários autores explica que os curral é diversão feita predominantemente por meninos, que construíam cercas de gravetos e decoravam com capim e pedrinhas. Os animais são representados da seguinte forma: as unhas do boi são os cachorros; a canela é o touro; os ossos menores são as vacas e as juntas, os bezerros. As crianças davam nomes para seus animais: Mimosa, Branquinha, Grã-fina, dentre outros. Antes de ir para o curral, os ossos eram limpos e lavados até ficar bem branquinhos.

Após essa etapa, os meninos transportavam seus bichinhos para beber, comer e até negociavam com outras crianças, imitando a atividade de criação de gado no Nordeste.

O irmão de Saturnino, Rodrigo, 65 anos, conta que usavam papel de bala como dinheiro para comprar os bois de ossos. As caixas de fósforos, segundo ele, serviam para fazer casas, fogões e cadeiras. Os plaitos eram usados para fazer cercas e currais.

As meninas faziam os portais das fazendas com caixas de fósforo. Foto: Paulo Oliveira
As meninas faziam os portais das fazendas com caixas de fósforo. Foto: Paulo Oliveira

Voltemos à prosa de Saturno.

FAZENDA DE PERDER A CONTA

“Trabalhei muito com gado de leite. Eu quando casei com a idade de trinta e poucos anos…vivia empregado. Era. Saía de uma fazenda e ia para outra. Eu nem sei nem contar quantas fazendas eu morei. Eu morei em muitas fazendas de Jequié para cá (Manoel Vitorino).

Eu morei muito nas fazendas em roda de Jequié. Morei mais para lá. Aqui meu pai tinha essa terra aqui. Então falei: “Vou me embora para minha terra lá”. Aí vim. E agora não saio mais não.

Eu vim para aqui tinha uns 50 e poucos anos. Uns 20 e tantos anos que tava fora e uns 20 e tantos anos que moro aqui. Agora fui nascido e criado aqui. Agora sosseguei.

Aí o velho morreu, minha mãe morreu, ficou a irmandade. Essa casa aqui era do meu pai. Essa casa aqui eu alembro quando fizeram. Não é muito velha, não. Eu era menino. Essa casa tem uns 60 anos, daí pra menos.

Meu pai era João e a mãe se chamava Laurinda. O pai João, João de Souza Meira. Somos dez irmãos, agora quatro irmã e seis irmão. Teve outro mais velho que eu. Eu sou o segundo.”

FARTURA

Aqui eu alembro muito tempo bom. Do meu tempo pra cá, né? Nós aqui botava roça. A roça menor que nós botava é dez tarefas (43.560 metros quadrados). Botava 15, 20. Nós era em seis irmão e o velho. Em sete pessoas, nós botava roça era grande. Era fartura. Tinha feijão, milho, melancia, plantemos até mandioca aqui nessas épocas atrás.

Nós tinha até uma casa de farinha ali no lugar dessa casa de Cari (o vizinho Clarisvaldo). Fazia muita farinhazinha para comer. Tinha beiju (risos). Hoje não tem mais plantação. Só planta palma, né? Hoje, os tempo ficou devagar no Norte. Mas no Sul, nos outros estados, é muita fartura.

Aqui essa época não tinha veneno. A gente comia as coisas da roça, tudo era sem veneno. Tava ali, você plantava. Colhia. Nós criava aqui era uma porcada. Pé de umbu ali adiante nessas barrocazinhas tinha um que quando era assim meio-dia, no tempo das águas, calhava de ter uma cheia de porco debaixo.

A gente criava porco, rebanho de cabra. Era um tempo que a gente não comprava quase era carne. Quando a carne acabava de um bode, matava outro. Matava uma leitoa. Cevava um porco, matava. Era um tempo bom.

FESTAS, REZAS E ADJUNTOS

Nesse tempo bom tinha muita festa. Hoje é que não tem. Era casamento. O povo inventava aqueles bailes de São João. São João aqui era aquele São João bom. Pegava São João, São Pedro, o pau comia. Era época de namorar e de dançar. Eu fui muito de festa, graças a Deus.

Também tinha reza, o povo fazia muito adjunto para trabalhar. Fazia aquele adjuntão aí, chamava 30, 40 homens e fechava o pau na foice. E comia água (beber muito). Levava os garrafão de pinga para lá e ao meio-dia cortava umas mãos de toicinho. Era. Esse tempo eu alembro muito desse tempo (risos).

Tem um tempo para trás que só os mais velhos que alembra. Agora de certo tempo para cá eu alembro de muita passagem aí. Alembro dos rebanhos de cabra, porco. Naquele tempão bom, a gente soltava na caatinga.

MUITAS TERRAS

Isso aqui tudo era a fazenda. Essa fazenda era grande. Aí agora partiram, quando o finado meu avô morreu, partiu pros filhos. Cada um, 50 hectares. Mas isso aqui tudo era a fazenda. E nesse mundo era daqui lá e um outro tanto pra cá. Pra cá ia naquela serra (aponta), virava pra lá. Ia naquela outra de lá, pra cá um pouco. Ia naquela serra lá e descia nesse bastião, rodava por ali, rodava aqui, saía aqui na outra fazenda chamada Onça aqui.

A casa de Saturnino. Foto: Paulo Oliveira
A casa de Saturnino. Foto: Paulo Oliveira

Era 800 hectares (oito milhões de metros quadrados) que meu avô tinha. Meu avô tinha três fazendas, tinha essa aqui, tinha outra perto de Catingal e outra em Feirinha.  O nome dele era João Bulcão de Souza Meira. Morreu novo, rapaz, 70 e poucos anos. Esse tempo eu alembro do meu velho.

Meu avô gostava de carregar uma capanguinha atrás de fumar. Ele botava atravessado assim. Levava com fumo de rolo de cortar de canivetinha. Ele plantava muita banana naquele tempo, no mato cipó, né? Tinha uma casinha onde ele botava os cachimbão para amolecer. No dia que estava madura, ele chamava a gente para ir comer banana (risos). “Vamos lá comer banana”.

MUDANÇA DE CLIMA

Naquela época chovia os seis meses das águas. Começava a chover em outubro ia até o mês de malço . O clima era esse. Era. Naquele tempo fazia mais era moiá. Aqui fazia um verdão que esse mato véio ficava da altura daquele bambu lá. Hoje acabou.

Esses meninos de hoje em dia não sabem qual é um saco de feijão para trazer da roça e botar dentro de casa. ‘Aí tem tantos sacos de feijão pra nós comer’. Meu pai dizia assim. Era fava e feijão de corda. Ele plantava, colhia e guardava pra nós comer. A gente não comprava feijão naquela época. Tinha muitas coisas que a gente não comprava. Hoje compra de tudo.

Nesse tempo não comprava, nem toicinho, esse negócio de toicinho, nem feijão. Comprava açúcar, café. Farinha também tinha uma mandioquinha e fazia. A despesa era curta naquela época.

HISTÓRIAS QUE O PAI CONTAVA

Aqui meu pai contava de uma enchente que teve aqui em 1914. Uma enchente muito grande. Foi a maior enchente que teve aqui. Aliás, nesse tempo também os ribeirão era menor. Às vezes a enchente foi grande, mas os ribeirão era menor. Talvez dali pra cá teve enchente até maior do que esse tempo. As águas destruiu muita coisa.

Diz que antigamente era tudo plano. Meu papai falava que foi uma enchente que teve um tempo aí e mudou tudo. Disse que não tinha serra, não tinha nada. Disse que teve uma época que o mundo acabou, não foi? Acho que acabou em água. Diz que foi num tempo aí, num século aí, não sei. Meu pai é que contava.

O mundo reconstruiu de Noé para cá. Foi no tempo que botava as pombinhas para buscar terra. Diz que era. Naquela época, se comenta que soltava as pombinhas para andar por aí e pra ver. As pombinhas ia e voltava. E Noé falava a elas ‘O negócio aí ainda não está bom’.

Aí soltava elas e as pombinhas rodava, rodava e não achava onde sentava. Voltava. Diz que levou muito tempo, muitos dias. Quando as pombinhas achou uns pauzinhos para sentar, de lá ela não veio mais não. Aí foi que Noé falou que as pombinhas não veio mais e que ficou bom. As pombinhas não veio mais porque achou agasalho. O povo contava isso, eu não alembro esse tempo não. Pombinhas. Então as pombas é do tempo muito velho.

ORIGEM DO NOME

Deram meu nome de Saturnino porque foi minha vó que me botou. Ela tinha um filho, irmão de meu pai que chamava Saturnino. Aí ela me deu também. Não tem muita gente com esse nome não. É pouca gente. Saturnino, mas me chamam por Saturno.

Saturno e a esposa. Foto: Paulo Oliveira
Saturno e a esposa. Foto: Paulo Oliveira

Só tenho um filho. Quando eu casei com a mulher, a mulher tinha uma filha, né. Ela tem uma filha e eu tenho um filho com ela. Meu menino é o Valdeci. É o Val, trabalha até na prefeitura. Ele está trabalhando nesse carro (transporte escolar).  Ele trabalha nesse ônibus aqui em Catingal.

Os umbuzeiro daqui é do tempo que inventou o mundo. O umbu é muito velho”

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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