A alma alvinegra de Villadônega – Meus Sertões

A alma alvinegra de Villadônega

A alma alvinegra de Villadônega

Villadônega de Souza Rodrigues jogava pelada debaixo de uma ponte no bairro de Jequiezinho, em Jequié, cidade do sudoeste baiano a 365 quilômetros de Salvador, quando foi descoberto pelo médico e diretor de hospital Sebastião Azevedo. Sócio benemérito do Vasco, Azevedo resolveu mover céu e terra para levar o menino de 12 anos para fazer um teste no time infanto-juvenil do clube pelo qual torcia.

Primeiro, o médico procurou os pais do garoto, Adélia e Expedito Rodriguez, que só concordaram em deixar o pequeno craque ir para o Rio de Janeiro, depois que Azevedo prometeu que ele não deixaria de estudar. Pesou também o prestígio que o doutor tinha na cidade. Sendo assim, alguns dias depois, Villadônega botou a pouca roupa que possuía em uma mala de papelão e pegou um avião.

“Foi a aeromoça que me levou à casa da família de Sebastião Azevedo, que morava na Praia de Botafogo. Quando cheguei lá, cabreiro, ligaram a televisão para eu assistir. No interior da Bahia não tinha televisão naquela época. Quando ouvi a Ângela Maria falar em um programa “vou acender o cigarro”, fiquei doidinho procurando a caixa de fósforo. Três dias depois fui levado para São Januário.” – conta o meio-campista, que pisou pela primeira vez no estádio em 1954.

ENCONTRO COM BELLINI

Ainda é bem nítida a cena de sua chegada no clube carioca. Os aspirantes treinavam e os jogadores do time principal assistiam na arquibancada. Foi aí que o menino de nome incomum foi apresentado ao zagueiro Bellini, esboçando timidamente um “Como vai senhor Bellini?”. Tempos depois quando fez uma brincadeira com o defensor, o bicampeão mundial de futebol retrucou:

“Quando chegou aqui me chamava de senhor, agora está me gozando” – revela o ex-atacante.

Na peneira para o time infanto-juvenil havia 18 times, 198 jogadores. Apenas três foram aprovados: o volante Maranhão, o lateral esquerdo Edílson e Villadônega.

Nascido em 1942, em Euclides da Cunha (BA), o meio-campista passou pelas categorias juvenil, aspirante e profissional do Vasco. Ainda era adolescente quando estreou no time principal em um jogo contra o Peñarol, no Uruguai, no qual o Vasco venceu por 2 a 1. Na época, os técnicos, segundo Villadônega, evitavam estreias de jogadores da base no Maracanã para não queimar os guris.

Foi no juvenil, aos 16 anos, que Vila, como também era conhecido, conquistou o único título pelo Vasco. A decisão contra o Flamengo, na Gávea, nunca foi esquecida:

“Cruzaram a bola, ela bateu na minha cabeça sem querer e entrou. Um a zero (durante a gravação do vídeo muda o placar para 2 a 1) contra o Flamengo de Gérson”

Villadônega participava de excursões internacionais, jogando entre os titulares. Participou de um torneio no México, onde ressalta a atuação do goleiro Ita. Na volta, foi convocado para a seleção brasileira amadora, que disputaria o Pan-Americano de 1959, em Chicago, nos Estados Unidos. Estavam entre os convocados Gérson, Beirute, Germano e Maranhão.

Os brasileiros venceram quatro das seis partidas, incluindo a goleada de 9 a 1 sobre o Haiti. Foram derrotados pelos Estados Unidos (5 a 3) e empataram com a campeã Argentina (1 a 1). Foram vice-campeões. Villadônega perdeu a medalha de prata. Restou uma de bronze, comemorativa, entregue na cerimônia de encerramento da competição, uma das duas que o craque guarda. A outra é a do primeiro campeonato brasileiro de futebol amador (1961) que, segundo Villadônega, foi disputado por seleções de poucos estados.

BRIGAS ENTRE RIVAIS

O jogador baiano foi efetivado como titular do Vasco pouco antes de vencer a idade de aspirante. Ele dividiu o campo com Lorico, Da Silva e Pinga, no qual se espelhava. De seu ídolo ouviu o conselho para nunca dar pancada, pois quem jogava no ataque não precisava bater em ninguém.

Nos anos 50 pouca gente seguia a recomendação daquele que viria a ser o quarto maior artilheiro da história do Vasco. Muitas vezes, a rivalidade terminava em pancadaria. A briga entre jogadores como a que houve entre o Almir (Vasco)  e Pavão (Flamengo) ficou famosa. E foi em uma briga generalizada, no ano da inauguração do Mineirão, que a carreira de Villadônega entrou em declínio.

A transferência para o Atlético (MG), que lutava para ser bicampeão, aconteceu em 1963. A princípio por empréstimo, mas efetivada após o baiano com sangue chileno marcar um golaço contra o Cruzeiro.

“Tive a sorte de fazer um gol do meio da rua, no campo do Cruzeiro. O goleiro chutou, a bola bateu no chão, subiu, eu peguei de primeira, do meio de campo. A redonda viajou, viajou, viajou, rodou, viajou no vento e foi lá dentro. Ganhamos de 1 a 0.” – narra.

Além do bicampeonato, Villadônega foi o artilheiro da disputa com 12 gols em 22 jogos. De seus companheiros de time, o meio-campista lembra de Bueno (cabeça de área), Peres, Marcelino (lateral), Marcelino (lateral), Nílson (centroavante), Bougleaux (autor do primeiro gol da história do Mineirão). Dentre os adversários, sobram elogios para Tostão e Dirceu Lopes.

SUSPENSÃO DE UM ANO

No dia 24 de outubro de 1965 aconteceu o primeiro superclássico no Mineirão, inaugurado há pouco mais de um mês. Na versão do atleticano “o juiz roubou” e provocou um tumulto generalizado em campo:

“O Atlético não podia perder. O ponta direita recebeu um lançamento e ajeitou a bola com a mão. Ele cruzou para dentro da área.  E o juiz marcou pênalti. Foi uma correria. Todo mundo queria pegar o juiz achando que ele roubou. Perdemos de um a zero. Eu não bati em ninguém, mas toquei no capacete de um guarda, ele caiu e o soldado não pode ficar sem capacete. O chefe do policiamento era da diretoria do Cruzeiro e fez carga contra mim. Aí eu fui suspenso um ano: eu, Nilson e uma porrada de gente.” – conta

No site cruzeiropedia.org a história é diferente. Ele conta que a superioridade do adversário deixou o Galo tonto e os jogadores alvinegros irritados. Aos 35 minutos do primeiro tempo, Tostão abriu o placar após receber passe de Marco Antônio.

Na segunda etapa, Wilson Almeida invadiu a área e foi derrubado por um carrinho do lateral Décio Teixeira. O juiz Juan de la Pasión Artés. O autor do texto prossegue:

“Vander agrediu o juiz, que pediu proteção à Polícia Militar. Como ela não atendeu prontamente, outros termocéfalos (cabeças quentes) se animaram. Virou linchamento. O treinador Marão invadiu o gramado e também bateu no árbitro. Só aí os soldados saíram de sua letargia para proteger a vítima. Seguiu-se uma batalha campal entre jogadores emplumados, inclusive reservas, e policiais. Artés expulsou o time inteiro do Atlético e pôs fim à partida.”

Parte do período da suspensão, Villadônega continuou a receber o salário, mas depois, conta, pediu rescisão por não estar sendo útil ao time. Enquanto estava no Atlético, o jogador fez um curso de aprimoramento na Escola Politécnica, sem saber que isto seria de grande valência no futuro.

animal na pista

O último clube do atleta baiano foi o URT (União Recreativa dos Trabalhadores), de Patos de Minas. Após uma partida contra o Tupi, o ônibus que transportava os jogadores virou na estrada.

No meio do caminho, um animal atravessou na pista. O motorista desviou bruscamente e o veículo capotou três vezes. Os vidros caíam em cima da gente, eu imaginava todo mundo ensanguentado. Alguns se feriram, mas nenhum de forma grave. Eu só tive escoriações, graças a Deus! O motorista passou dois dias desacordado!” – relata.

No final da temporada, o URT dispensou todo mundo e não pagou a ninguém. Villa, que estava há 11 anos, sem visitar a família na Bahia, escreveu pedindo dinheiro para retornar. Ainda passou por Pontalina à procura de um amigo que levara para fazer um teste no Vasco, mas não foi aprovado. Tinha esperança de encontrar um time em Goiás, mas ela acabou quando soube que o parceiro desistira do futebol e estava trabalhando de motorista.

No final dos anos 60, o reencontro com a família se deu em Itapetinga, cidade para a qual o pai tinha se mudado. Ainda tentou continuar jogando no Bangu local, mas a liga municipal não permitia jogadores profissionais. Largou de vez o futebol, recusando convites para ser treinador da seleção municipal e de clubes locais.

“Nunca quis ser técnico. O cara que paga entrada para ir ao estádio, principalmente no interior, acha que tem o direito de xingar todo mundo e eu nunca gostei disso” – justifica.

ARTISTA PLÁSTICO

O curso de aprimoramento na Escola Politécnica não chegou a ser concluído, mas permitiu que Villadônega, que desenhava desde criança, aprendesse novas técnicas. Longe da bola, passou a fazer a decoração da cidade para festas como o São João e a extinta micareta, além de serviços particulares.

A arte aproximou Villa e o pedreiro e escultor autodidata Júlio de Souza Barbosa, o São Félix, cujas obras estão espalhadas por praças e espalhadas pela Matinha, área verde e zoológico de Itapetinga.

São Félix, foi assassinado a facadas e pedradas em 2010, aos 83 anos, por um casal de adolescentes que acreditavam no boato que ele guardava uma grande quantia em dinheiro em casa, pedia ajuda ao ex-jogador para acertar a proporção de suas obras.

Aproveitando convite do filho de São Félix, Nilton de Souza Barbosa, e a presença do repórter do Museu da Pelada/Meus Sertões, Villadônega voltou à Matinha, hoje fechada ao público para se adequar à legislação ambiental. Foram oito anos sem ver as obras que ajudou a criar.

“São Félix era gozador, engraçado e gostava de piadas. Enquanto enchia a massa, eu ia cortando, modelando. Ele não estudou arte. Tinha um talento natural”

Villadônega também é o autor de um painel no muro do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), na rua Macarani. Feito com tinta óleo, o quadro retrata uma paisagem imaginada pelo artista para a cidade, cuja economia está fincada na criação de gado leiteiro e de corte. A concessionário prometeu lhe pagar R$ 1.000, mas cinco meses depois da obra concluída ainda não tinha feito a quitação.

Além do que ganha pelas obras encomendadas, o ex-jogador recebe aposentadoria de um salário mínimo mensal.

RESENHA

Ao falar em valores, o assunto volta a ser futebol. No tempo em que Villadônega se destacava nos gramados, o salário de atleta era baixo. De tudo o que ganhou na carreira, ele conta que comprou uma casa simples para o pai, que casou quatro meses, e um aparelho de medição para o velho Expedito continuar trabalhando como arquiteto e topógrafo.

Para ele mesmo, não comprou nada:

“Fiz o barraco onde moro há 15 anos com o dinheiro que recebi como artista plástico” – revela

Se não fez fortuna, o meio-campista colecionou histórias, que conta com prazer. Lembra de um Vasco x Santos, no qual Pelé virou o jogo no último minuto. Cita o nome dos companheiros – Orlando, Coronel, Sabará, Almir, Vavá, Pinga e Barbosinha – com o mesmo prazer que fala dos adversários, como Babá, do Flamengo.

Conta casos divertidíssimos sobre o goleiro Barbosa (veja o vídeo), que era chamado de Tio pelos jogadores mais novos e vivia com uma garrafa de Biotônico Fontoura. Outro que faz parte de suas recordações é Laerte, amigo inseparável de Sabará. Os dois moravam na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

“Uma passagem que morro de rir até hoje é de Laerte. Ele era um meio de campo. Nas excursões do Vasco para o exterior, todo mundo comprava presentes para a família e mostrava de noite para os companheiros no hotel. A sensação da época era rádio de pilha. Aí o Laerte aparece com um arco e flecha imenso, dizendo que tinha comprado para o Veinho, como ele chamava o filho. “Mas Laerte, você não está vendo que isso não vai caber na mala”, disse um jogador. Ele falou assim: “Vocês são burros”. Foi lá e quebrou o arco. Depois disse: “Chegando no Brasil, boto esparadrapo. Quando o Veinho for brincar, pow, quebra. Aí eu falo: Tá vendo, eu não compro mais nada para você” (risos).

O volante Laerte, segundo Villadônega, gostava muito de faroeste. Um dia convidou Sabará para ir ao cinema. Quando o filme estava no meio, chamou o amigo para ir embora. O ponta-direita tentou fazer ele mudar de ideia, mas Laerte disse haver esquecido que tinha visto o filme há muito tempo. Sabará ficou retado.

O craque do passado lembra com saudades do tempo que morou em São Januário, no alojamento debaixo da arquibancada. Seu jogo inesquecível, no entanto, foi Atlético x Cruzeiro, no dia 15 de setembro de 1963.  Era o 11º jogo do campeonato e o último do primeiro turno, no Estádio Independência, e ele fez o gol da vitória.

“O Atlético venceu por 1 a 0 e arrancou para o bi” – enfatiza

A DESPEDIDA

Em data que não soube precisar, Villadônega Rodriguez conta que o Vasco foi fazer um amistoso em Itapetinga e enviou para ele uma camisa oficial e o convite para dar o pontapé inicial da partida. Em agradecimento pelo uniforme, o craque cruzmaltino deu ao emissário dois cágados que tinha no quintal. Falou também que o convite estava aceito.

No sábado seguinte, pouco antes do jogo começar, foram buscá-lo em casa, mas ele não estava:

“É que eu tinha uma pescaria marcada e não podia faltar!” – justifica.

Jornalista, 55 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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