Época de ouro

Época de ouro

Na próxima sexta-feira (20/7), quando Hilza Cordeiro, 23 anos, apresentar o trabalho de conclusão de curso (TCC) de jornalismo na Universidade Federal da Bahia (Ufba), ele já terá sido aprovado por cerca de 1.400 pessoas que visualizaram o documentário “Show do Tio Lio”, no You Tube.


O vídeo de dez minutos é o piloto do projeto Jacus Doc, definido como memorial do patrimônio e da gente de Riachão do Jacuípe, cidade natal de Hilza, a 180 quilômetros de Salvador. Os próximos quatro web documentários estão roteirizados e em fase de produção.

A ideia do projeto surgiu em 2016, quando a universitária fez uma fotorreportagem sobre o sapateiro José Santino da Costa, conhecido como Zé Cinderela. Ela queria registrar as profissões em extinção no município e procurou o irmão do jogador João Tigre e da enfermeira Tonha, nesse ofício há 60 anos.

O vídeo de Zé Cinderela teve 10 mil visualizações, 618 curtidas, 257 compartilhamentos e 168 comentários no Facebook.

Além da aceitação, o pessoal da cidade sugeriu nomes de outras pessoas que mereciam homenagens semelhantes. Hilza recolheu as indicações e decidiu contar histórias de jacuipenses no TCC.

Como estratégia para obter ajuda na produção dos outros episódios, lançou o piloto da série discretamente, no dia 27 de julho. O objetivo era superar a falta de experiência com gravação e edição, o que fez a produção do primeiro programa  se estender por quatro meses. A tática deu certo. Dois outros universitários com conhecimento técnico se aliaram a ela.

A demora também  foi fruto do tempo gasto na elaboração da parte teórica do TCC, batizado academicamente de  “Jacus Doc: Memória e Desenvolvimento Local nas Histórias de Vida de Riachão do Jacuípe”.

A INSPIRAÇÃO

O radialista, historiador autodidata e ex-secretário municipal de educação Amarílio Soares, o Tio Lio, se inspirou nos programas televisivos de Tia Arilma para transformar a matinê dominical do clube Lira 8 de setembro em um  auditório que transformava crianças e adolescentes em artistas mirins, nos anos 1980 e 1990.

Arilma liderou a audiência nas emissoras Itapoan e Aratu, nas décadas de 1970 e 1980. No comando de “Recreio”, “Show da Tarde”, “Parquinho”, programas infantis permeavam à imaginação e embalavam os sonhos infantojuvenis bem antes do surgimento de Xuxa.

Foi tia Arilma quem lançou Mara Maravilha (cantora e apresentadora), Sarajane (cantora), Paty Fofolete (apresentadora e produtora) e Geisa (dançarina e apresentadora que abandonou a carreira artística para morar com o marido e filhos na Holanda).

A cantora Ivete Sangalo, quando criança, foi outra menina que se apresentou em um dos programas de Arilma. Ela e as amigas imitaram os Menudos, banda portorriquenha de grande sucesso à época. Ivete conta que se divertiu bastante durante a apresentação, em depoimento para o canal Tia Arilma oficial, lançado no You Tube ano passado.

O SHOW

Calouros, brincadeiras e provas de conhecimentos gerais eram algumas das atrações da concorrida matinê. O sucesso levou a própria Tia Arilma até Riachão, em 1983. A apresentadora e a menina Geisa causaram alvoroço.

Elita e as irmãs Marta e Leila, três das quatro ex-frequentadoras do show ouvidas no documentário, ressaltam a expectativa que a matinê gerava e sobre o sonho de consumo das participantes: a “Botuxa”, bota da Xuxa, lançada por uma conhecida fábrica de calçados.

Esmeralda, a quarta entrevistada, foi uma das estrelas do programa. Ela arrepiava o cabelo, dublava Madonna, Donna Summe, Irene Cara e Nina Hagen, cantora alemã famosa por suas extravagâncias vocais. Dizendo ter descoberto seu talento no palco do Clube Lira 8 de setembro, Esmeralda persegue a fama até hoje.

outro canal

Depois que o vídeo foi publicado na internet, ex-frequentadoras do show reclamaram por não terem sido chamadas para as filmagens. Foi o caso das componentes do Quarteto Pop, imitadoras de Xuxa, Rita Lee e As Frenéticas. Isto fez Hilza incluir no Instagram o que não coube no documentário.

“Vou continuar expandindo essa história” – promete.

A ex-estagiária do jornal Correio, de Salvador, também quer obter mais detalhes sobre a existência de um sistema  de empréstimos de roupas , criado pelas jovens que não queriam repetir o “look” aos domingos.

Hilza Cordeiro, criadora do Jacus Doc. Foto: Facebook
Hilza Cordeiro, criadora do Jacus Doc. Facebook

O show que movimentava Riachão do Jacuípe terminou quando Tio Lio se mudou para trabalhar em Feira de Santana, no final da década de 1990. Em 2003, ao retornar para a cidade, Amarílio tentou reeditar o programa, mas a experiência durou só um mês. Segundo Hilza, o comunicador viu que o formato não duraria porque ele não conseguia mais prender a atenção das crianças.

No documentário, o apresentador,  entusiasta do projeto, definiu o período em que manteve o show como “uma época de ouro”:

“Não havia o advento da internet, não havia o Facebook. A afetividade e o calor humano faziam com que as pessoas se tornassem até mais tolerantes, coisa que a gente não vê mais hoje. Eu creio que esse período em que as crianças se ocuparam trouxe frutos porque formou cidadãos e cidadãs de bem.” – declarou Tio Lio, 63 anos.

PRÓXIMOS episódios

Jacu é uma ave. Seu nome significa “comedor de sementes”  na língua tupi-guarani. A fusão com a palavra ipê (árvore distinta), cujas folhas servem para alimentá-la, designa um rio e o “sobrenome” da cidade de Riachão. Também designa o projeto Jacus Doc, que já tem outros quatro episódios previstos.

O primeiro é sobre o programa de rádio sensacionalista Hora da Verdade , que tinha grande audiência no município por volta de 2008.

O  seguinte será sobre a irmãs professoras que se candidataram a prefeita e a vice-prefeita de Riachão, em 2004. Vanildes, 69 anos, e Valdivete, 66, só tiveram 86 votos. Há várias histórias curiosas sobre elas. Uma delas diz respeito ao muro que mandaram construir para proteger o carro que compraram para fazer campanha eleitoral. O excesso de cuidado fez o veículo ficar preso na garagem, onde permanece há 14 anos.

A terceira história trata do grupo regional de sanfoneiros Malvadinhos do Forró, atração obrigatória no São João da cidade.

E a quarta versa sobre a lenda de quem sentasse sob a sombra de um pé de Barriguda em uma praça mudava de sexo.

O que não falta em Riachão do Jacuípe são histórias para contar.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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