O vaqueiro santo de Ribeirão do Largo

O vaqueiro santo de Ribeirão do Largo

Ribeirão do Largo é uma pequena cidade do sudoeste baiano, com baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Seus indicadores de renda, educação e longevidade a colocam entre os 254 piores municípios do país. As estradas de acesso não são asfaltadas, o transporte é precário e a população míngua. Segundo o IBGE, a estimativa deste ano é 7.437 habitantes.

Situada a 622 quilômetros de Salvador e com a economia voltada para a produção de café e criação de gado leiteiro e de corte, Ribeirão tem, no entanto, uma das maiores festas religiosas da região. Celebrada em homenagem a um Pedro santo, na verdade um vaqueiro assassinado em 1925 e aclamado como milagreiro pelo povo, a festa de amanhã, no mesmo dia em que a Igreja celebra outro Pedro, um dos apóstolos de Cristo, reúne cerca de 10 mil pessoas, segundo propaganda da Prefeitura. Bem mais do que o padroeiro da cidade, São João Batista, cujos festejos ocorrem cinco dias antes.

Retrato de Pedro foi feito a partir da fisionomia de seu filho mais novo. Reprodução
Retrato de Pedro foi feito a partir da fisionomia de seu filho mais novo. Reprodução

A história de Pedro Afonso do Nascimento e o processo de santificação popular foram forjados em muitas versões, o que chamou a atenção do sociólogo Danilo Patrick Mascarenhas Benedictis. “A fé e a religiosidade na Cova de Pedro – Ribeirão do Largo (BA)” é o título da dissertação de mestrado de Benedictis, apresentada no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E através dela que muitos mitos são desconstruídos.

NA BOCA DO POVO

A história contada pelos fiéis dá conta que Pedro e a mulher Ana Rita foram morar em Ribeirão do Largo, na casa de uma mulher chamada Maria Gorda. Ana traiu Pedro com um ou os dois filhos da dona da propeiedade.

Temendo vingança, Maria Gorda contratou dois homens para matar o vaqueiro. Dominado pelos algozes, a vítima foi arrastada por um cavalo e levada até o local onde o obrigaram a cavar a própria sepultura. A partir daí, a história ganha elementos fantásticos.

Os assassinos tentaram matar Pedro a pauladas, mas não conseguiram. Enfiaram facas em seu corpo e elas dobraram, sem penetrar a carne. No meio do suplício, o vaqueiro contou que só podia ser morto com a própria faca. Os bandidos pegaram a arma dele o mataram, deixando o cadáver em uma cova rasa, com pedaços do corpo para fora.

Depois de encontrado, o vaqueiro teria sido enterrado no planalto que está até hoje. E uma parente passou a frequentar o local com frequência, fazendo preces e acendendo velas. Logo, outros vaqueiros passaram a ir até a cova para fazer pedidos simples, como encontrar animais perdidos, e pagar promessas. Assim teria começado a devoção popular.

O padre Joselito Oliveira Cruz, pároco de Ribeirão do Largo desde março deste ano, tem outra versão para o início da devoção. Segundo ele, Pedro foi sepultado ainda vivo e isso causou grande comoção. Por conta disso, uma mulher que estava com o filho doente fez uma promessa a Deus, por intercessão da alma de Pedro, para que seu filho ficasse curado. Ela conquistou a graça e a notícia do milagre se espalhou, fazendo surgir a romaria à Cova

Como a Igreja Católica não reconhece o vaqueiro oficialmente, os religiosos da diocese de Vitória da Conquista, a qual Ribeirão do Largo está subordinado, não podem dizer que o Pedro é santo. Argumentam que participam e, atualmente, organizam a festa para orientar o povo que os pedidos são feitos para a alma de Pedro interceder diante de Deus. Este sim é que realiza o milagre.

A INVESTIGAÇÃO ACADÊMICA

A dissertação de Danilo Benedictis, disponível no depositário da UFRN e no site www.livrogratis.com.br, tem 117 páginas. Seu autor comparou a história do vaqueiro de Ribeirão do Largo com outros santos populares que tiveram morte violenta. Exemplo: Antônio Relojoeiro, de Uberlândia (MG).

Benedictis também explica como foram creditados milagres a Pedro e como ocorreu o processo de construção de uma simbologia que o conduziria ao patamar de santo popular. Sua apuração se baseia em documentos das dioceses de Vitória da Conquista e Encruzilhada e de cartórios. A primeira façanha do autor foi localizar Delotero, um dos quatro filhos do vaqueiro com Ana Rita.

Foi na fisionomia de Delotero que os responsáveis pela criação da estrutura do local da festa de 29 de junho se basearam para fazer o retrato e o busto que são apresentados como se fossem de Pedro. O filho mais novo do casal contou que as primeiras visitas feitas ao túmulo do pai foram realizadas pela mulher de seu irmão Hugolino, chamada Altina. Ela e uma amiga, dona Marcolina, foram as primeiras a fazer promessas a Pedro. Os boiadeiros vieram a seguir.

Os devotos de Pedro, a maioria moradores de locais em um raio máximo de 130 km de distância de Ribeirão do Largo, que engloba o sudoeste baiano e o norte de Minas Gerais, chegam na véspera e na madrugada do dia 29 de junho. São poucos que chegam de São Paulo, sendo que esses são originários de Ribeirão. A maioria dos romeiros, de acordo com Danilo Benedictis, são lavradores, pequenos agricultores, estudantes e pequenos proprietários de terra.

Além do dia 29 de junho, outra romaria, essa só com moradores do município, era feita entre a Igreja Matriz de São João Batista e a Cova de Pedro, na Sexta-Feira Santa. Era um percurso de cerca de cinco quilômetros. Esse ritual, no entanto, foi abolido pelo padre Joselito, com o argumento de que os idosos eram sacrificados nessa marcha.

OS CORONÉIS

Na década de 1920, quem mandava no então povoado de Ribeirão do Largo eram os “coronéis” de Encruzilhada. Esses líderes políticos possuíam jagunços e ditavam as regras. Esse pequeno grupo usava a violência e as instituições públicas em prol de seus interesses. Foi nesse contexto que Pedro Afonso do Nascimento migrou com a mulher Ana Rita Figueiredo para Ribeirão do Largo.

A mudança de Santa Rita (MG), ocorreu, segundo Delotero, porque seu pai se envolveu em um assassinato. Benedictis não informou os detalhes do crime. Nascido no dia 10 de maio de 1870, o vaqueiro, que também era funileiro e sapateiro, se estabeleceu em Ribeirão do Largo, na segunda metade da primeira década do século XIX. De acordo com Delotero, o casal e os filhos foram morar com seu Juca, parente de Ana Rita, e dona Maria Gorda.

Há três fatos comuns em todas as versões para o assassinato de Pedro: a traição de Ana Rita, o nome dos assassinos – Amaro e Tintino – e a tortura e sofrimento da vítima. A morte do vaqueiro que virou santo popular aconteceu no dia 12 de abril de 1925. Ao ser pego pelos matadores, estaria cortando lenha ou tirando leite de vacas em uma fazenda onde prestava serviço. Em entrevista para Danilo Benedictis, o comerciante Júlio Ferreira Dutra, na época com 72 anos, ressaltou os poderes sobre-humanos que a vítima teria.

“Pedro não era peco (pecador, alguém que não cumpre a regra ou lei religiosa). Ele tinha qualquer coisa com ele. Pedro era curado… Meteu arma, não deu tiro. Meteu faca, a faca dobrou. Matou de pau” – conta.

Os detalhes que aumentam as qualidades divinas do simples trabalhador aparecem em outras narrativas. Há quem diga que seu corpo foi achado com os paus usados para massacrá-lo assumindo a forma de cruz. Outros afirmam que a vaca usada para pagar os assassinos foi vendida para um açougueiro e se desmanchou em sangue. O pouco de carne que sobrou apodreceu.

Sobre as torturas sofridas por Pedro, os detalhes mais contundentes e terrenos foram relatados por um senhor identificado como Joel

“(O bandido) já saiu com ele algemado, subiram ladeira. Já botou animal para pisar nas pernas dele, nas costas…Ele caiu, o animal acabava de pisar mais. É certo que já foi judiando até que chegou no assentado. Quando chegou largaram a estrada, o carreirinho que vinha para o Largo e entraram na chapada com ele. Quando chegou perto da onde tá sepultado, cortaram as madeirinhas que eles trouxe o cavador e disse: agora você vai abrir sua cova aqui, que é pra você ser sepultado aqui. Mas ele já vinha muito machucado, ele abriu a terra mole, mas ele não pode, só abriu pra lá e pra cá, mal, só arou a terra. Acabaram de matar ele de pau e jogaram ele na covinha rasa. Acabaram de completar de folha seca. Completaram de folha seca e aí sumiu…”

Joel não concede poderes extraordinários à vítima, mas faz com que seu sofrimento ganhe maior proporção. O martírio é outro fator que leva o povo a considerar um santo.


OS MANDANTES

Para a maioria dos moradores, os mandantes do crime foram Juca e Maria Gorda, pais dos rapazes com quem Ana teria traído Pedro. Eles teriam encomendado o crime com medo do vaqueiro se vingar de seus filhos.

Benedictis, porém, encontrou uma versão sustentada por Júlio Ferreira Dutra, antigo morador da região. Ele contou que Pedro mandou a mulher sair da cidade quando descobriu o adultério. Depois de passar um tempo em Macarani, ela retornou e encontrou o ex-marido, que correu atrás de Ana com um facão. A mulher se escondeu na casa de uma comadre, que teria contratado os assassinos para evitar a morte da adúltera.

O fim de Amaro e Tintino também foi triste. Eles foram perseguidos e mortos por determinação do “coronel” João Alves, que era vizinho de Juca e se afeiçoou a Pedro por ele ser trabalhador.

Com a punição aos matadores, as atenções se voltam para a santidade do vaqueiro. A medida que as preces são ouvidas e os pedidos são atendidos, aumenta, do ponto de vista popular, a fé no milagreiro. Interessante ver trecho de umas das cartas recolhidas próximo à Cova, que recebia até 200 devotos, na década de 1970, quando o local era mantido por Delotero e uma senhora chamada Maria Roxa.

O vaqueiro que passou a ser chamado de São Pedro recebe cartas, deixadas na Casa dos Milagres, onde está o túmulo onde seus restos mortais estão supostamente enterrados.

“(…) com a fé que eu tenho no senhor eu te peso de todo coração traga meu marido de volta o pai do meu filho ele se chama R. ou Duti. senhor e que eu tenha um bom parto eu tenho muita fé e se ele volta para mim e nosso filho o ano que vem eu vou queimar um maço de vela e reza um pai nosso meu nome é G.S.S. ou Gaza obrigada senhor”.

SANTUÁRIO E FESTA

A Igreja não se interessou pela romaria à cova de Pedro até os primeiros anos do atual milênio. A estrutura construída até então com doações de devotos foram a Casa do Milagre, que abriga um túmulo azul, outro pequeno imóvel chamado de confessionário, banheiros masculino e feminino e um pequeno palco para celebrações.

A zeladora Maria Roxa e uma outra pessoa foram enterradas em sepulturas ao lado da Casa dos Milagres, com a autorização dos responsáveis pelo local. No entanto, muitos fiéis que vão pela primeira vez à Cova, acreditam que ali Pedro foi enterrado.

O festejo do São Pedro ribeirense hoje é controlado pela Igreja Católica. Mas nem sempre foi assim. Em 2007, padre Alexandre, então pároco da cidade, disse para Benedictis que a Igreja não reconhecia os milagres e a santidade de Pedro:

“O que a gente pode fazer ali? A Igreja local pode dar um apoio espiritual aos que estão indo lá para que não fique só uma coisa distorcida, ou vazia ou solta. A gente pode canalizar para um caminho certo da fé cristã. Se for pegar os detalhes da romaria ou das pessoas que vão ali não tem muito alicerce da doutrina e dos costumes da igreja, o que é que tem? Uma devoção popular muito forte (…) Desde que cheguei aqui a gente tenta fazer um trabalho de evangelização, conscientizando o povo que a gente faz lá em cima não é para Pedro que está lá e sim para São Pedro o apóstolo, porém reconhecendo a fé daquele povo, talvez não reconhecendo o santo, mas reconhecendo a fé do povo”

Nessa época, outro evento paralelo à romaria, sem nenhum controle, também era ponto alto da festa: a feira que começava a se formar no local dois dias antes do festejo. Eram vendedores de imagens, eletrônicos, panelas, comidas, bolsas, frutas, calçados, flores, CDs, velas e fogos de artifício que vinham de diversas cidades. Havia ainda barracas de argolinhas e tiro ao alvo.

Nos últimos anos, porém, a prefeitura de encarrega da infraestrutura – policiamento, energia elétrica, primeiros socorros e limpeza – e a igreja entra com a organização, a realização da missa e a coordenação da capela.

Padre Joselito Oliveira Cruz, pároco de Ribeirão do Largo, é quem atualmente administra a maior parte do evento. Este ano, mandou fazer 800 adesivos que são dados para os motoristas que pagam para estacionar no santuário. Os plásticos têm os seguintes dizeres “Visitei Ribeirão do Largo e fui à cova de Pedro”.

A igreja também passou a cobrar uma taxa de comerciantes que queiram montar suas barracas na feira. Os valores variam de R$ 10 a R$ 50.

“Todo mundo chegava lá, colocava sua barraca, vendia o que queria. Os propagandistas eles são profanadores da festa. Como somos uma paróquia com baixo poder aquisitivo, decidimos assumir a administração do local. Esses mascates que vêm de longe, arrastam o dinheiro da cidade e vão embora, vão ter que deixar alguma coisa aqui. A cobrança tem valor simbólico, diga-se de passagem. Ano passado teve gente que vendeu pneu, tem gente que leva panela, tem gente que leva o que você imaginar” – diz.

Joselito conta ainda que a prefeitura está doando meio alqueire (9.68 hectare ou 96.800 metros quadrados) de terra para a Igreja, que assumirá definitivamente a responsabilidade total pelo evento. As terras do planalto onde está a casa pertenciam a um fazendeiro chamado Deolindo Ramos. Antes de morrer, ele doou para a igreja. O atual prefeito, neto de Deolindo, resolveu oficializar isto, incluindo parte de terreno comprado pela prefeitura. A Câmara aprovou e a documentação está em processo de conclusão. A organização acredita que com a doação do terreno a prefeitura deixará de ser responsável pela infraestrutura.

Com o que já arrecadou, padre Joselito mandou construir uma porteira para restringir o acesso. Segundo ele, algumas pessoas profanavam o local, no meio da noite, usando o complexo para namorar. Sobre a quantidade de fiéis esperados, o religioso explica:

“Moço é uma muvuca, o povo começa a chegar na quarta e quinta-feira. Vem gente de longe” – conta.

Ninguém diz, mas outro componente é o uso político que candidatos fazem durante o festejo para se promover em anos eleitorais. Levam faixas e cartazes e desfilam entre moradores e visitantes.

Os fiéis começam a chegar às 4h30. O primeiro lugar que visitam é a sepultura azul da Casa dos Milagres, onde depositam muletas, ex-votos, cartas. Fazem e pagam promessas. O ritual inclui preces e passadas de mão no busto do vaqueiro. Muitos não sabem que não há precisão quanto ao local que Pedro foi sepultado. Ali é apenas um local simbólico.

“O que importa é o evento, o acontecimento, a pessoa, aquilo que passou pela vida de Pedro” – argumenta o religioso.

Antes da missa, será realizado um batizado, ato que está ficando frequente durante a comemoração. Às 10 horas, começa a celebração oficial. Na homilia será trata a questão de viver na fé e os valores do evangelho que, segundo Joselito, Pedro viveu.

A parte religiosa termina por volta do meio-dia. A feira se estende até às 15, 16 horas. Às cinco da tarde tudo tem que estar desmontado.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *