O silêncio do sino – Meus Sertões

O silêncio do sino

O silêncio do sino

Maria do Carmo Meira Melo, a Carminha, 71 anos, não se conforma com o silêncio do sino da capela Nossa Senhora da Purificação, construída por sua família na segunda metade do século XIX, no centro de Catingal, atual distrito de Manoel Vitorino (BA). O templo dedicado à Nossa Senhora da Purificação também servia de cemitério para a família Meira e foi erguido em um local onde existia uma lapinha com altar onde eram celebradas missas nas terras que pertenciam ao capitão Rodrigo de Souza Meira Sertão.

Carminha é do tempo em que o sino da igrejinha anunciava missas, batizados, novenas, mortes, velórios e sepultamentos nas Volta dos Meira, antigo nome do distrito. Ela mesmo acionou o dispositivo muitas vezes antes de um padre chegar à cidade e desautorizar as batidas, seguindo as regras da Igreja Católica, que não permite fazer celebrações fúnebres em locais onde é realizada a eucaristia.

A CONSTRUÇÃO

O advogado Yuri Rocha Meira Magalhães, que guarda documentos e conhece bem a história da família, revela uma carta de Donatilla Maria de Castro Meira, neta do capitão Rodrigo, datada de 6 de novembro de 1902. Nela, a autora conta que a capelinha foi erguida nas terras que o avô cedeu a uma mulher chamada Ester.

No texto, Donatilla, a Sinhá Titila, católica fervorosa, afirma que o templo foi construído por seu pai, o major Martiniano de Souza Meira, e contou ainda com o dinheiro arrecadado em leilões e esmolas. Anos depois, o militar realizou uma reforma que custou 400 mil réis. Ela também se queixa que a família deixou de fazer doações para a manutenção da igreja, apesar de seus insistentes pedidos.

Uma lei imperial proibia os sepultamentos no interior de igrejas desde 1825. Outra decisão estabelecia que  seriam cobradas multas por abertura de sepulturas. Nem isso fez os pioneiros de Catingal recuarem. Os enterros  pararam no fim da segunda década do século XX.

Lá foram enterrados, dentre outros, o capitão Rodrigo (1872) e o coronel Martiniano “Nonô” Meira Castro. Segundo a comerciante Rita de Cássia Guimarães, 73 anos, descendente de Nonô e ex-zeladora da igreja, o militar fez questão de ser sepultado com o traje de honra do Exército, cujos galões, cordões e tranças eram feitos com fios de ouro.

Yuri conta que a sepultura de Nonô foi coberta após uma obra no piso. No entanto, os túmulos da “innocentinha Elisabeth”, primogênita de Martiniano e Sinhazinha, morta com pouco mais de três meses de idade; de Leonildo Pereira de Mello; de outra criança – Mariolinda de Vasconcelos Meira – e de Mário Meira Castro estão bem visíveis.

A SANTA

No altar da igreja há uma imagem de Nossa Senhora da Purificação. Yuri conta que existe a versão de que ela foi benzida pelo papa. Já outros moradores relatam que a imagem original, proveniente de Portugal, teria sido roubada.

Embora histórica, a igreja dos Meira passa a maior parte do tempo fechada. Abre apenas para a missa semanal e já não é o principal templo do distrito.

Jornalista, 55 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *