A “caçuada”

A “caçuada”

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Entre um favor aqui, um favor acolá, João Durim continuava prestando ajuda para quem lhe pedisse, sem cobrar nenhum tostão.

Certa feita, chegou à sua porta numa sexta-feira, por volta das sete horas, uma senhora batendo palmas e gritando:

“Ô, de casa. Ô, de casa…”

E João Durim que estava com o bocapiu na mão para ir à feira.

“Hô! minha senhora, vamos entrando, vamos entrando, entra pra cá e senta.”

Em seguida, perguntou:

“O que a senhora deseja?”

“Eu vim aqui pro senhor me aposentar” – disse a velha.

“Pois não, com todo prazer” – respondeu João Durim.

E foi logo sentando defronte à máquina de escrever (Olivetti bem antiga) para preparar e encaminhar a papelada da aposentadoria.

“Me diga uma coisa, a senhora tem aí uma carteira de identidade?” – perguntou.

“Seu João, meu irimão. Pra lhe dizer a verdade, tenho não” – respondeu a senhora depois de um longo silêncio.

“Não tem problema, minha senhora! Você trouxe a certidão de nascimento?”

Após ter revirado a bolsa cheia de papel de bala e recorte de revista, a velhinha disse:

“É, seu João, também num tem não.”

“Tudo bem”, disse Durim, após ter colocado um número de identidade de alguém já falecido e aborrecido com a demora que o fez perder o horário da feira:

“Oh, minha senhora, por mal pergunta: quantos anos a senhora tem?”

A velhinha parou no tempo, imaginou.

Enquanto isso, João Durim, esperava a resposta mais sério do que um bode embarcado, franzindo o couro da testa, parecendo a ipueira quando tá maretano.

“Acho que tenho uns 12 pra 13 anos” – respondeu a senhora.

Essa resposta foi o mesmo que dá uma punhalada em Seu João, que perdendo a paciência, retrucou:

“Você! Você já passou da casa dos 90. Caminha, puxa de minha casa pra fora.”

E nesse momento Dona Angélica, esposa de João Durim interferiu:

“Moço, avé-Maria! A muié é de idade. Você tá doido?

Seu João empinou o corpo para trás, levantou os calcanhares do chão e, ficando na ponta dos dedos, respondeu:

“Ela tá caçano é caçuada. Puxa pra fora.”

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA

Arilson B. da Costa Contributor
Arilson Borges da Costa ,nasceu em 22 de fevereiro de 1970, em Xique-Xique – BA. Filho de sorveteiro e neto de pescador, é professor e auxiliar de serviços gerais. Estudou contabilidade na escola pública de Xique-Xique, no interior da Bahia, porém em 2008 abandonou definitivamente a área de exatas e passou a estudar letras vernáculas, na universidade pública da Bahia (UNEB), com a finalidade de aprofundar na área da lingüística e literatura. Ao longo de sua vida acompanhou pescadores às margens do rio São Francisco, no intuito de entender o sotaque do povo ribeirinho, por isso migrou seu trabalho para escrita de contos e causos do povo ribeirinho.Está continuamente produzindo contos e causos de ribeirinhos, poesia, vídeos, áudios e fotografias, a maioria deles disponibilizados em sua página do Facebook.
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