Os ferreiros de Itarantim

Os ferreiros de Itarantim

Há três gerações os homens da família Oliveira trabalham como ferreiros. O primeiro foi o avô. Ele usava o ferro e o níquel como matéria-prima. O fole  mantinha acessa a chama que servia para cortar e derreter  o material que seria transformado em diferentes objetos.

Coube a Cosme Barbosa de Oliveira criar a oficina existente há 40 anos, no centro de Itarantim, no centro-sul baiano, e aperfeiçoar o trabalho, que foi passado aos filhos e sobrinhos. Os aprendizes de Cosme cresceram e montaram as próprias ferrarias.

Por volta de 2007, os filhos – Rubens, hoje com 38 anos, e Jadiel, 39 – iniciaram o processo de modernização da fundição, especializada em produtos para montaria.  Cosme ficou receoso:

“Pedíamos  opinião sobre as mudanças que queríamos fazer e ele não dava resposta. Acho que a mãe falou com o pai que isso ia melhorar a vida de nós mesmos e ele animou” – conta um dos rapazes.

Rubens de Oliveira começou na fundição com 11 anos. Ele diz que não tinha necessidade, mas uma vontade absurda de querer trabalhar. Ressalta que dividia o tempo com o estudo e a diversão. Foi assim até concluir o segundo grau.

As primeiras peças produzidas pelo então aprendiz eram os passadores, “uma pecinha para pegar sola (couro) de cabrestos e fivelas. Hoje, se perde ao falar da quantidade de peças para montarias produzidas artesanalmente: cabeçada, cabresto, breque ou professora, bride, esporas, fivelas de cinto, tacas, pentes para crinas…

O preço de um cabresto, por exemplo, varia de R$ 150 a R$ 200. Os mais caros são usados em vaquejadas. As brides custam R$ 80, a cabeçada R$ 180 e as fivelas de cinto, dependendo do tamanho e modelo, chegam a R$ 80.

Na oficina, o ferro foi substituído há tempos pelo aço. Uma parte é de material reciclado comprado em ferro-velho que negocia com sobras de materiais de fábricas de laticínio. Outra são as barras de aço inoxidável compradas em uma fábrica, em Pernambuco.

Cantoneiras e chapas de aço fazem parte do material reciclado. Antigamente, elas eram cortadas no fogo. Nos tempos atuais, são feitas tiras com uma esmerilhadeira. Só depois é que elas são vão para o fogo. No processo de acabamento, as peças passam pelo esmeril, onde ficam esbranquiçadas e “cascudas”. Voltam a ser queimadas para que sejam limadas e depois são polidas.

“O meu avô trabalhava antigamente o processo de fundição. Eles derretiam ferro ou níquel e colocavam nas formas. Se tivessem que moldar algo, aqueciam, martelavam e mergulhavam em água. Depois que chegou o inox aqui, só quem usa esses materiais é quem quer uma relíquia” – explica Rubens.

QUEBRA-CABEÇA

A ferraria produz ainda marcadores de animais. O processo muitas vezes é considerado um quebra cabeça para os ferreiros, pois consiste em criar uma peça não muito grande, contendo duas ou três iniciais dos nomes dos proprietários de cavalos e bois. Tem gente que prefere duas iniciais e uma figura, que pode ser uma cabeça de cavalo.

Esboço de um marcador de animais.Foto: Paulo Oliveira
Esboço de um marcador de animais.Foto: Paulo Oliveira

“Hoje é dia é mais comum um ferro de duas letras. Só que muita gente tem iniciais iguais. Antes de fazermos o desenho, sugerimos algum tipo de diferenciação, que pode ser um tracinho nas terminações, que meu pai chama de martelar a letra ou a inclusão de desenhos. Na letra O, há quem coloque uma cruz ou outro detalhe, como um telhadinho ou barras paralelas para diferenciá-la” – explica Rubens.

Com o material mais maleável e os equipamentos usados hoje – o fole foi substituído por uma ventoinha -, um marcador de animais com mais detalhes fica pronto em seis horas de trabalho e custa R$ 150. Rubens explica que o aço inoxidável passa por gerações, pois ao contrário do ferro, não solta pequenos pedaços a cada esquentada.

“O inox fica preto, mas o formato não se desfaz. Pelo fato de não sofrer processo de corrosão, ele é usado em uma fazenda até pelos bisnetos de quem mandou fazer a peça, que é acoplada a um cabo de madeira, para evitar que uma pessoa inexperiente esquente muito e venha a se queimar ao segurá-la”.

Outra curiosidade são os tipos de fivelas de cintos usados nas cavalgadas e vaquejadas. Sempre aparece alguém pedindo um modelo diferente – pode ser até um peixe grande. No entanto, uma das mais comuns é a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *