No Alto do Silva

No Alto do Silva

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO.

Seu Pombal, seria melhor o senhor ter dito que: “A escola não deve negar a existência de determinadas variedades linguísticas dentro do país, para que não se crie um preconceito”; e essa carga não recaia sobre a influência das línguas africanas no português brasileiro.


Marquês, seu decreto não passou nem perto do Alto do Silva. Aqui a gente brinca com as palavras, aqui temos liberdade para trocar letra, mudar o nome das coisas, inventar outra sonoridade…

Aqui a gente pinta o sete. Cartão é castão, porta é posta. Aqui é como lá que chama canjica de mungunzá, lá é como aqui que chama ananás de abacaxi. E assim: mandioca é aipim; enfeite é adorno; último é derradeiro; sandália é alpercatas; apertar é acochar; engravidar é mojar; caroço é calombo; comida é decumè; gripado é constipado; ensopado é guisado e bezerro sem mãe é enjeitado.

Para ser sincero com o senhor, seu Pombal, a escola deveria ter tido o reconhecimento das contribuições na formação da língua, incluindo as línguas indígenas e as línguas africanas.

A gramática normativa surgiu para estabelecer uma só maneira de se escrever, para que os textos não apresentassem as variações de palavra e letras, quando se tratava do mesmo assunto, no entanto, o senhor sabia, seu Marquês, que isso não era suficiente para enquadrar a língua a uma só forma. A língua acompanha a sociedade se esta muda, a língua acompanha as suas mudanças.

Coisas de Xique-Xique Bahia

–*–*–

DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Alto do Silva – Povoado de Xique-Xique

Arilson B. da Costa Contributor
Arilson Borges da Costa ,nasceu em 22 de fevereiro de 1970, em Xique-Xique – BA. Filho de sorveteiro e neto de pescador, é professor e auxiliar de serviços gerais. Estudou contabilidade na escola pública de Xique-Xique, no interior da Bahia, porém em 2008 abandonou definitivamente a área de exatas e passou a estudar letras vernáculas, na universidade pública da Bahia (UNEB), com a finalidade de aprofundar na área da lingüística e literatura. Ao longo de sua vida acompanhou pescadores às margens do rio São Francisco, no intuito de entender o sotaque do povo ribeirinho, por isso migrou seu trabalho para escrita de contos e causos do povo ribeirinho.Está continuamente produzindo contos e causos de ribeirinhos, poesia, vídeos, áudios e fotografias, a maioria deles disponibilizados em sua página do Facebook.
follow me

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *