A volta de Lalim

A volta de Lalim

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Nos meados dos anos setenta e início dos anos oitenta, chegar de São Paulo vestindo calça boca de sino, um sapato salto plataforma, estilo cavalo-de-aço, cabelo black power tinha lá seu charme, ainda mais com um toca-fitas de alça ao lado.

Foi nesse modelo, nesse naipe que Latim de Jeremias (Gerisvaldo), vindo de São Paulo, desembarcou na rodoviária de Xique-xique.

Recepcionado por uma multidão de moradores da Praça Luiz Viana, soltando fogos e bebendo meladinha, Lalim desceu com uma mala em couro duro, talvez couro de vaca, duas carteiras de cigarro Hollywood, enfiadas aos ombros e um garfo a mão, para ouriçar o cabelo. O povo que recepcionou desceu à avenida fogueteando até a casa do recém-chegado.

Naquela época banhar na ipueira era comum aos moradores daquela região, por isso manhãzinha cedo, antes de comer uma isca de carne, Lalim desceu em direção ao rio com duas toalhas ao ombro, uma para enxugar o rosto e outra para o corpo, duas saboneteiras à mão.

Curioso, Manuel Tintino exprobou:

“Ah, verdade! Inda que mal lhe pergunte, pra que dois sabonetes, esse menino?”

“Um é para lavar o cabelo e outro para esfregar o corpo, meu. Dá licença! O povo na Bahia não entende.”

“O home é um medonho, o que a capital num faz” – disse Manuel Tintino.

E assim Lalim continuou esbanjando o dinheiro que recebeu de indenização por tempo de serviço trabalhado. De noite, nos lances de rede, saía com dois maços de cigarro à mão oferecendo aos pescadores:

“Quem quer fumar um Hollywood aí?”

Não foram dois meses, o dinheiro do Paulista-Baiano soverteu e as coisas voltaram a ficar como dantes:

Lalim voltou a pescar na rede de caroá, ficando arranchado no meio do mato. E na primeira ida dos companheiros à cidade, para fazer compra, o paulista-baiano gritou:

“Edilson, meu priminho, compra pra mim um pacote de fumo capelão e um cento de papel.”

Edilson não falou um isto, mas o restante dos pescadores disse:

“Toma, sem-vergonha.”

Coisas de Xique-xique, Bahia

–*–*–

Nota do autor: Bom que se diga que não há mal nenhum nesse comportar de Lalim. Ao contrário, trata-se de atitude muito comum, e natural. Lalim é homem de muitas virtudes. E esse fato deve ser atribuído à vaidade e ao mero deslumbramento a que todos estamos sujeitos. E deixar claro que a intenção do texto não é avaliar o comportamento do personagem, e sim fazer uma releitura da época dentro desse contexto.

Arilson B. da Costa Contributor
Arilson Borges da Costa ,nasceu em 22 de fevereiro de 1970, em Xique-Xique – BA. Filho de sorveteiro e neto de pescador, é professor e auxiliar de serviços gerais. Estudou contabilidade na escola pública de Xique-Xique, no interior da Bahia, porém em 2008 abandonou definitivamente a área de exatas e passou a estudar letras vernáculas, na universidade pública da Bahia (UNEB), com a finalidade de aprofundar na área da lingüística e literatura. Ao longo de sua vida acompanhou pescadores às margens do rio São Francisco, no intuito de entender o sotaque do povo ribeirinho, por isso migrou seu trabalho para escrita de contos e causos do povo ribeirinho.Está continuamente produzindo contos e causos de ribeirinhos, poesia, vídeos, áudios e fotografias, a maioria deles disponibilizados em sua página do Facebook.
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3 reflexões sobre “A volta de Lalim”

  1. Neuza clemente da silvaDisse…
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    Muito Boa! Essa é mais uma do nosso artista, Arilson costa, além de mostrar as estórias dos ribeirinhos, ainda nos faz lembrar de coisas vividas pelos mesmos! Lalim sempre foi muito engraçado!

  2. Neuza clemente da silvaDisse…
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    Parabéns Arilson Costa, cada vez melhor! Cada dia um causo melhor que o outro! Te admiro muito e te desejo muito sucesso, pois vc faz por merecer! Tirando nosso povo do anonimato, mostrando nossa realidade, nosso passado, e nos alegrando, fazendo até voltarmos ao passado, por sinal um belo passado…

  3. batista cruzDisse…
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    Vi e ouvi muitas histórias de rudelenses que passavam uma chuva em São Paulo e voltavam com um sotaque igual a papagaio aprendendo a falar. Diz o professor Ronaldo Senna, da Ufba e Uefs, que estes são os “sãopauleiros” que falam a linguagem da periferia.

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