Maria de Olímpio, a zeladora – Meus Sertões

Maria de Olímpio, a zeladora

Maria de Olímpio, a zeladora

A mãe de santo Maria José Alves de Menezes, a Maria de Olímpio, 61 anos, é líder religiosa de renome no povoado quilombola de Campo Grande, em Santa Teresinha (BA). Ainda criança dava pistas de seu dom: quando ia a uma casa de reza caía no choro ao ver a imagem de São Sebastião, que corresponde a Oxóssi, seu orixá. Com o passar do tempo, fez a cabeça com o pai de santo Zé Dudé, na localidade km 100, em Brejões. Também desenvolveu a vidência e aprendeu a jogar búzios.

Em longa entrevista para Meus Sertões, dona Maria fala sobre sua religião, que segue o rito de candomblé Angola, mas é cadastrada como umbanda; faz a associação dos orixás com santos da Igreja Católica, cujas fotos e imagens estão no altar de seu terreiro; explica como seu barracão está dividido e dá dicas de ervas para curar e para purificar o corpo.

Assediada por políticos, principalmente em época de eleições, a mãe de santo diz que ajuda se eles tiverem problemas pessoais, mas não quer saber de trabalhar para que sejam eleitos.

” Sou da religião de São Roque, São Roque era antipolítico. Se um chegar e me pedir uma ajuda e tiver nas minhas condições, eu ajudo. Agora para eu me envolver para dizer assim: ‘Eu lhe dou a política por tanto’, não quero não.” – diz.

A zeladora conta ainda como foi criada e dá informações importantes como era a comunidade quilombola no passado, incluindo as formas de sobrevivência, os hábitos e a alimentação de seu povo. Há muito o que aprender com Maria de Olímpio.

Porque a senhora usa Olímpio como sobrenome?

Tenho orgulho do pai que eu tive. Ele se chamava Olímpio José de Menezes. Foi nascido e criado no povoado de Campo Grande. Minha mãe Paula Alves de Menezes é do Junco, como eu. Ela ainda está viva. A idade dela não sei te dizer porque hoje me encontro com 61 anos de vida e ela me disse que casou com 25. Agora eu tenho dúvida, não posso “ela tem tantos anos”.

Quando a senhora veio morar no Campo Grande?

Eu estava com nove anos e meio de vida.

Quantos irmãos a senhora tem?

Somos seis filhos. A mais velha do grupo sou eu. Irmão mais velho é isso mesmo, ajuda os pais e cria os outros.

O terreiro de Maria é filiado à Federação de Umbanda e Candomblé. Reprodução
O terreiro de Maria é filiado à Federação de Umbanda e Candomblé. Reprodução

O que a senhora lembra do início do Campo Grande?

Casa de palha, rapar pó de palha para sobreviver, trançar chapéu. Como eu trancei chapéu! Até hoje ainda tranço. Chapéu, esteira…. Eu não faço parte do grupo da associação (de artesãos) por causa do meu compromisso aqui no barracão. Se não fosse isso estaria lá, mas eu não posso. Sempre alguém chega ou me liga para dizer que está em minha casa. Aí o bicho ia pegar porque daqui que eu saísse de lá para eu chegar aqui era é um problema.

Desde cedo a senhora percebeu que tinha esse dom?

Quando eu chegava nas casas de reza de santo –  reza de atá, como chama o velho provérbio – eu não aguentava ver um quadro de São Sebastião. Eu caía no choro. São Sebastião é Oxóssi caçador, homem das matas.

E como a senhora descobriu? Tinha alguém na sua família que era de santo?

Tinha. Dionísia, minha tia, irmã de meu pai.

Foi ela que disse que a senhora tinha o dom?

Não, não. Quando eu adoecia, meu pai ia até a casa dela. Quando chegava lá, ela dizia: “em casa procure tal folha e faça um chá para minha filha”. Ela não queria que alguém me gritasse, que alguém me batesse, que alguém me respondesse mal. Ela vinha aqui no dia de amanhã (referência à quarta-feira), ela me carregava para casa dela quinta, sexta, sábado e domingo. Me trazia e dizia: “Vou pra casa, se alguém brigar com o que é meu, eu volto pra trás”

Quando ela dizia “o que é meu” é lhe tratando como filha ou se referindo ao seu dom?

Ela já via o meu dom. Só que ela não esclarecia para pessoa nenhuma. Ela seguia aquilo tudo calada. Aí, dizia para o meu pai: “não quero que ninguém judeie da minha filha”. Deixe, sente uma hora com calma, converse, não bata.

E qual era o orixá dela?

Ela era de Preto Velho. Na linguagem, no português, chamava-se o Velho Caetano. Era um preto, um senhor, um velho, que tomava conta dela. Da linha dos pretos.

Essa sua tia ainda é viva?

Cufou (morreu) há muitos anos. No início da minha carreira ela cufou.

E a senhora substituiu ela ou fez outra casa?

Eu tive que ir em outro centro no km 100, em Brejões (a 89 km de distância de Santa Teresinha).

Quem era o zelador?

Antônio Andrade Mendonça, conhecido como Zé Dudé. Se chegar no km 100 procurar seu Antônio, ninguém sabe. Agora procura o Velho Dudé ou Zé Dudé todo mundo lhe diz. Dudé é o apelido dele no candomblé. Quem chegar na casa dele qualquer dia e qualquer hora e perguntar, o senhor conhece Maria de Castro Alves ou Maria de Campo Grande, ele vai dizer: “Já sei quem é. É minha filha”. Ele que deu o feitio de meu santo. Tenho orgulho de dizer eu tenho um pai.

A senhora ficou lá muito tempo. É que antigamente demorava a feitura do santo?

E como demorava. Eu já frequentava lá antes de ser filha de santo. Eu trabalhava na colheita do café. Ele tinha uma obrigação 13 de junho e outra no mês de dezembro. Junho, Santo Antônio; dezembro, Cosme e Damião. Quando eu fui para casa dele eu conhecia. Tinha rodado muitos lugares, só que não para fazer nada para mim. Sim para eu visitar e ver com os meus olhos.

Foi em muitos lugares aqui na região ou fora daqui?

Fora daqui. O mais longe que fui foi Itaberaba.

A senhora ia com o intuito de aprender os rituais?

Eu tinha curiosidade. Toda vida eu fui curiosa dentro disso.

O seu terreiro está colado nas matas…

Aí fica bem mais fácil. Mata é comigo.

Como foi o processo de sua iniciação?

Levou muitos anos porque lá no centro era assim. Era não, é. Que Deus e Olorum dê muito axé a meu pai pela hora que é. Cada dois anos tinha um compromisso. Cada dois anos se multiplicava a obrigação do orixá.

Maria, cujo orixá é Oxóssi, sentada no terreiro. Foto: Paulo Oliveira
Maria de Olímpio, cujo orixá é Oxóssi, sentada em seu no terreiro. Foto: Paulo Oliveira

Quanto tempo levou para a senhora abrir seu próprio terreiro?

Muitos anos porque eu levei quatro anos por lá, pela casa dele. Depois voltei para aqui para o meu interior. Eu vivi quatro anos e meio trabalhando com a cobertura de palha. Com o decorrer dos tempos, os anos foram se multiplicando, as coisas foram melhorando aos poucos para mim. Porque eu saía para trabalhar em outros lugares, então, do mesmo couro se tira a correia.

Eu fui juntando uma pataquinha de um canto, outra de outro. O meu tio, irmão da minha mãe, morava do outro lado daquele morro. Eu disse assim: “eu vou procurar umas telhas para comprar”. Ele soube. Um fazendeiro vendeu suas terras e quem comprou falou para ele levar telhas e madeira que tinham lá se quisesse. Ele não quis. O novo dono perguntou ao meu tio se ele conhecia alguém interessado em comprar as telhas. Foi o último ano do conto. Eu comprei 60 contos de telha. Não foi cruzeiro nem real. Foi conto. E eu fiz o barracão. Tirei a palha e coloquei a telha.

O seu primeiro barracão foi criado em que ano?

Em não lembro o ano porque levei quatro anos e meio na palha. Quando eu vim do km 100 para cá eu abri o barracão com pouco tempo. Demos a obrigação do final de ano em outubro, ele (o pai de santo) disse: “Olha minha filha, você vai fazer a casinha nem que seja de palha para botar teu santo”. Fui, fiz a casa de palha, o meu sobrinho mais velho que eu criei disse: “Eu te ajudo tia”. Fiz a casa só com uma porta, toda coberta de palha e tapada de barro.

Dona Maria, nesses ensinamentos que a senhora aprendeu e o que com o que via nesta região, a senhora aprendeu muitas coisas sobre ervas?

Mais ou menos. Nós temos o sândalo que é pra peso no corpo e problema intestinal. Nós temos erva cidreira, a mesma coisa. O funcho (erva doce), a mesma coisa, mesmo indigesto. O funcho é só para você tomar o chá, como a erva cidreira. Já o sândalo você consegue o chá e a maianga (purificação), que é o banho.

Temos o pinhão roxo pra descarrego de corpo. A arruda, descarrego de corpo. Arruda não se toma chá. Temos o capim santo, chá e banho, que é maianga. E mais e mais.

Quantos anos a senhora tem de santo?

Agora não sei te dizer, só se você olhar no papel para ir para conta para saber quantos anos eu tenho de registro pela federal (como ela chama a Federação de Umbanda e Candomblé dos Cultos Afro-Brasileiros de Feira de Santana).

A senhora paga taxa anual?

Eu pago é todos os três meses.

Vá ali em cima da mesa de santo e pega a minha carteira, fazendo um favor (pede para seu ajudante).

Todos três, quatro meses, eu entro em contato com o presidente da federal, ele vem até a minha casa. Ele diz: “Eu vou hoje, só volto amanhã”. Não tem problema. Dorme aqui, tem diálogo. No outro dia, eu mando o menino levar ele no Paraguaçu. O que rege essa região aqui mora em Feira.

Aqui é centro de umbanda? Alguns dizem que é candomblé rural? Tem diferença entre umbanda e candomblé rural?

Tem. Depende do zelador e da zeladeira, do espírito do caboclo, do orixá. Depende se é umbanda ou se é quimbanda. Porque umbanda é uma coisa, quimbanda é outra.

O que é quimbanda?

Quimbanda significa rua. Você chega tem um diálogo comigo. Por detrás das suas costas eu pego seu nome e mando uma personagem atrás de você para te prejudicar lá na frente. Eu não gosto de enganar não. Eu levei dois anos e seis meses estudando isso aí, fora a experiência que eu tinha no terreiro.

Quem segue a quimbanda é para fazer o mal?

Mais para fazer o mal do que o bem. Difícil você achar alguém na quimbanda para te estender a mão direita. Ele só vai nessa mão aqui, na esquerda. Umbanda, Deus Olorum. Quimbanda, a rua. Um dos personagens, maiores entidades na quimbanda. Significa rua, cemitério, encruza e mais e mais. Caverna e mais e mais. Caverna pelo chão.

Quimbanda são orixás como Exu?

Isso, exatamente isso. Elegbará em duas partes, homem e mulher. Então é quimbanda.

Durante as sessões, os homens ficam de um lado...
Durante as sessões, os homens ficam sentados de um lado do terreiro….
E as mulheres, no lado oposto. Fotos: Paulo Oliveira
…e as mulheres ficam em um banco, no lado oposto. Fotos: Paulo Oliveira

A senhora fez a cabeça de muitos filhos de santo?

Se temos muitos filhos e filhas de santo, mas depois de tanto evangelismo hoje, você não sabe nem quem é quem, nem quem é alguém. O povo está largando o certo pelo duvidoso. A questão é essa. Muita gente está deixando a religião de origem para seguir o evangelho. Não sabendo eles que um dia têm que voltar tudo. Meu pai dizia em vida dele e minha avó também: “Meus filhos, vai ter uma certa década que todo mundo vai botar uma veste comprida e um livro debaixo do braço. Com o tempo vai voltar tudo. No tempo que voltar, muita gente vai ficar com a face corcovada por não saber o que responder para a vizinhança. Minha vó ainda dizia sobre a vergonha: “Pra quem tem, pra quem não tem água no cesto”.

Quais os dias de toque de atabaque aqui?

Toque de atabaque aqui só sábado. Pode-se tocar dia de semana uma hora, duas, o mais tardar três. Mas a realidade dos toques de atabaque aqui é sábado para domingo. Porque domingo tá todo mundo jogando perna e ninguém vai trabalhar. Agora dia de semana é difícil tocar.

E as festas que a senhora tem?

Eu tenho duas festas por ano aqui no candomblé. Eu tenho janeiro São Sebastião; setembro, Cosme e Damião. A gente varia pelas datas. Significa o mês de setembro é o terceiro ou quarto sábado de setembro. Caruru, doces, frutas, aqui na Bahia tem frutas sim. Aqui a gente dá caruru, vatapá, às vezes a gente faz quiabada para compor com o caruru. Vatapá cortado de moranga, que é abóbora, peixe, frango, arroz branco, bolo e doces em várias quantidades e sabores.

O vatapá é sem pimenta, não é?

Não pode botar pimenta. Só pode botar vatapá com pimenta se você vai comer o acarajé na praça.

E o caruru também…

Não pode ter pimenta

O de Santa Bárbara tem?

O caruru de Santa Bárbara, que na realidade não é caruru é vatapá, ele é servido com peixe. Já o Cosme e Damião tem que fazer muitas misturas. Porque é criança gosta de muitas coisas. É caruru, é vatapá, é quiabada, é cortado de abóbora, é melancia, é banana, laranja, maçã, uva, doces de vários sabores.

E vem muita gente para a festa?

Tem anos que vem muita gente, tem anos que vem pouca. Depende da temperatura, do clima. Se tiver chovendo trovoada, muita gente diz: “Não vou por causa do riacho. Se o riacho me pegar, eu vou ficar quantos dias na casa da véia?”. Agora tem ano que o ano é seco que vem mais pessoas. Porque nós não temos só a região daqui. Nós temos Santa Teresinha, Castro Alves, Paraguaçu, Argoim, Cabeça do Meio, Feira de Santana, Salvador, Brasília, São Paulo.

Quantas pessoas são?

Ó. Não se tem uma quantidade de pessoas. Quando vem muita gente, eu me sinto feliz de ver a casa cheia. Tem anos que eu dou dois carneiros e um bode, sem contar os frangos, carne de vaca. Frango de granja, não só de quintal. Mas eu tenho prazer de todo mundo comer e beber. É refrigerante, uma cerveja, um vinho. Agora cachaça eu não dou. Aí não dá certo, o povo fica doido se comer coisa doce e beber bebida com álcool evoluído.

É sempre uma vez por semana que toca o atabaque…

Às vezes, a gente toca um mês, no outro a gente não toca. Na Quaresma, a partir da Quarta-feira de Cinzas não temos toque a não ser chegar sábado de Aleluia. Às vezes tem fim de semana que a gente, mesmo na mensalidade, não toca. Faz as coisas em silêncio.

Qual o nome dessa serra que tem aqui atrás?

Ali tem Mané Ferreira, uma. No outro vão, Serra das Bananas. Pedra Branca, três, Pedra do Monte, quatro, Bocaina, cinco, e jogando para cá, Vira mundo.

Do tempo dos escravos, a senhora lembra das histórias que lhe contavam?

Sei que nós somos descendentes de escravos. A família Menezes aqui do povoado é descendente de escravos. No meu caso e de meus irmãos, tanto da parte de meu pai quanto de minha mãe. Minha bisavó, segundo contava minha avó, teve a liberdade de ter a carta de alforria. Lá beirando aquele morro, jogando para o lado de lá.

Um livro sobre o Campo Grande fala que vem até gente e Brasília, que vem político, se consultar com a senhora, isso é verdade?

É real isso. Tem ano político que eu não vivo aqui. Às vezes, eu tenho outros compromissos lá fora e passo aqui de passagem. Mas a maioria deles vem ter um diálogo comigo, nem que não seja se consultar completamente comigo, porém ter um diálogo. Eu estou pronta e disponível para atender cada um que me fizer uma pergunta tanto faz ser aqui como lá embaixo no terreiro.

Os políticos, nesse momento que estamos vivendo tantas denúncias, o que eles vêm falar com a senhora? Eles pedem o quê?

É difícil eles vim me pedir porque eu vou explicando: “Olhe, sou antipolítica”.  Sou da religião de São Roque, São Roque era antipolítico. Se um chegar e me pedir uma ajuda e tiver nas minhas condições, eu ajudo. Agora para eu me envolver para dizer assim: “Eu lhe dou a política por tanto”, não quero não. Deus me livre!

Na casa do meu zelador eu encontrei assim: ‘Se você precisar de uma ajuda, sim, podemos lhe ajudar no que possível for. Agora pra gente tomar conta de uma política, a gente não toma. E na realidade somos antipolíticos’. E é um tempo (ano eleitoral) que se eu pudesse, eu não ficava aqui. Ficava em um lugar bem distante que não ouvisse nem falar em política. Eu tenho horrores dessa época.

Quais são os tipos de trabalho que a senhora faz para ajudar as pessoas?

Vamos supor, aquele dali chega com peso. “Eu tou com muita insônia, eu não estou conseguindo trabalhar, não estou conseguindo me desenvolver”. Então, vamos ver o que necessita para ele. Se é um banho, se é um pequeno sacudimento, se é um pequeno descarrego. Se não podemos fazer o bem, mal também não fazemos.

A senhora pita cachimbo há muito tempo?

Desde menina, com a idade de sete anos. Ainda ensinei uma irmã minha, que é a mãe dele (rapaz que chegou após a entrevista) a fumar.

Não tinha problema criança fumar?

Não porque eu fumava escondido. Meu pai mais minha mãe iam para o mato. Arrancavam caroá para fazer corda e cipó para fazer cesto. Eu ficava em casa tomando conta dos outros no berço. Naquele tempo, fazia uma pia de fumo assim dessa altura. Depois juntava o farelo do fumo, fazia o cachimbo de mamona, de talo de mamona, para nós fumar.

Dona Maria de Olímpio fuma cachimbo desde os 7 anos. Hoje tem 61. Foto: Paulo Oliveira
Dona Maria de Olímpio fuma cachimbo desde os 7 anos. Hoje tem 61. Foto: Paulo Oliveira

É fumo de rolo ou de cigarro comum?

Desfiado. Compro na cidade, mas aqui nas bodegas também tem.

A senhora masca também ou só pita?

Quando eu vou para o mato arrancar pindoba para eu tecer, tenho que fazer uma mascadinha, né? Tô no mato. Eu tenho uma vizinha que foi para São Paulo jovem e até hoje ela masca. E não é um pedacinho desse tamaninho não. É um fumo de rolo. Ela bota esse pedaço aqui (faz gesto de que é grande) na boca e aí fica o dia todo com aquele fumo de rolo.

Desse tempo que a senhora está morando aqui, quais foram as mudanças que Campo Grande sofreu?

Ô menino, Campo Grande viveu um tempo, quando eu conheci Campo Grande contava por ponta de dedo quantas casas de telha tinha. As casas eram de palha, o povo subia para o morro para rapar pó de palha para sobreviver; colhia licuri e quebrava para vender para sobreviver; caçava, armava pedra, arapuca, para sobreviver; plantava mandioca, batata, feijão, milho para sobreviverem. Pegava mandioca para ralar no ralo e fazer beiju de caco (os indígenas faziam beiju em cacos de pote de barro) para comer. E hoje procura essa juventude que não sabe o que significa um beiju de caco.

Beiju de caco, você pega a mandioca rala, raspa, espreme no pano para fazer o beiju no tamanho que você quiser numa frigideira. Pra comer com feijão cozido de água e sal ou comer com pimenta ralada.

Aqui tinha manuê (bolo de mandioca)?

Só quando era de festa de São João, as velhas faziam. Pegavam um tacho preparavam a massa da mandioca pubada para fazer o manuê. Fazia na forma de peito de frango e fazia enrolado na palha de banana. Quando tinha dinheiro para comprar todo o material, o manuê saía gostoso e quando não tinha fazia com o que tivesse, até com licuri amassado.

Também tem fufuca?

Sim. É só pegar um licuri, quebrar, descascar e já com farinha no pilão para comer para ir pro mato trabalhar.

Mas desse tempo para cá melhorou ou piorou a situação no povoado?

Melhorou 100% ou 200%. Antigamente na minha infância não tinha colégio suficiente. Quem fosse para o colégio tomar seu café de manhã, só ia comer água de feijão depois de meio-dia quando chegasse em casa, dependendo da distância.

Era duas roupinhas só, uma para ir para escola, outra para vestir dentro de casa. Apanhar água lá em cima no minador, plantar feijão, milho, feijão macassar, batata, aipim, abóbora, o que desse aqui embaixo para sobreviver daquilo. Muitos anos depois começaram a botar uma casa de farinha num canto, outra no outro, para arrancar mandioca, fazer a farinha e dividir com os vizinhos.

Casa de palha de só ter uma porta de tábua, feita de pau a pique, escavucada no machado. Hoje o povo está tudo rico. Naquele tempo, cama de vara (cama rústica feita de tábua ou pedaços de madeira frágeis). Hoje quem quer uma cama de vara? E botar uma esteira de por cima para uma saca de açúcar, ou duas ou três para abrir para fazer um lençol para dormir.

Trançar palha, as molequinhas só fazem para sobreviver. Plantar malhada de fumo porque a colheita da roça era para alimentação. A malhada de fumo era para comprar qualquer coisa para dentro de casa. Tinha ano que era favorável e o ano que fosse de seca tinha o quê? Nada. Quem plantava no morro menos mal. E quem plantava aqui, só aqui embaixo. Aí era problema.

Peço para visitar o terreiro e ela permite.

Tudo aqui, o pequeno barracão. Atabaque (mostra). O caboclo, o dono desse barracão. Ali as divisões, homem pra lá, mulher pra cá. Os ogãs ficam aqui mais eu. Está lá o diploma (da federação de umbanda e candomblé).

Porque os homens e mulheres ficam separados?

Aqui é Angola. Angola tem que ter essa divisão. Porque esse ilê é feito na Angola. Meu pai me disse: “Todos os filhos que forem passados por essas mãos, têm que ser feitos na Angola.”

E não tem um altar?

Tem, calme, vamos devagarzinho (Maria dá uma risada). Aqui divide-se orixás e caboclos. Dividimos as entidades significando atendimento de consulta e casos que têm roncó, que é o recolhimento de filhos de santos. Temos os personagens caboclos, que têm de ficar em outro setor. E temos a linha da quimbanda em outro setor. No caso, daqui para cá candomblé. Dessa parede para lá, atendimento de consulta.

Consulta é normalmente jogo de búzios?

Não, sempre jogo de búzios com vidência. Porque aqui na Bahia, principalmente na Angola, vamos mais para a vidência.

A senhora aprendeu a jogar búzios ou só o caminho da vidência?

Sei jogar búzio. Agora também tem o tempo e muita carência para se jogar búzio, que significa ifá. Porque digamos, Quarta-feira de Cinzas, não é aconselhável se ir para a vidência. Digamos Quarta-feira maior, quinta e sexta, vidência não, ifá, em caso de muita necessidade. É onde muita gente, muitos zeladores, muitas zeladeiras, confundem uma coisa com outra, mas cada qual tem que ser suas divisões (datas e tempo certo) para os compromissos, para os toques. Aqui em casa, na Quaresma não se toca. Deu Quarta-Feira de Cinza toca isolado, vamos esperar Sábado de Aleluia para novo toque, embora que a Angola não impede isso. A Angola aqui na Bahia a gente tem que tocar até faltando quinze dias para o Sábado de Aleluia. Quinze dias é o encerramento. Mas muitas vezes não fazemos o encerramento popular (público), fazemos o particular.

É muito detalhe, precisa de muito conhecimento para levar adiante a obrigação…

E como. E como é, meu filho.

Os tocadores de atabaque aprendem como?

Uns com os outros que é o direito do candomblé. Quem sabe mais vai ensinando a quem não sabe. A mesma coisa é o pé de dança, a mesma coisa é o tipo de canto, depende do dono da casa, depende do espírito, do caboclo, do orixá explicar para os médium o significativo de cada coisa.

Os cantos no seu terreiro no seu terreiro são em português?

Português, Brasil.

A senhora poderia cantar um dos pontos?

Humm… é difícil para mim.

A senhora não troca Campo Grande por lugar nenhum?

Não. Pelo gosto do meu irmão caçula, eu estava em São Paulo. Eu disse assim: “Meu irmão, não tem como eu sair da Bahia para vir para aqui. A Bahia é Bahia, eu me sinto à vontade. Tem época que pra me encontrar aqui tem que entrar em contato. Como no caso, quando foi para dar o título de quilombo nesse povoado, me procuraram com antecedência, eu tava viajando, tava com outro plantão no terreiro do meu zelador. Minha mãe me procurou e disse que tinha alguém me procurando. Vieram, dialogaram comigo. Eu tinha chegado de viagem pela manhã. De tarde chegaram, que tem época que não me encontra aqui fácil.

O diploma mostra há quanto tempo o centro funciona?

Exatamente, mas quatro anos antes eu comecei a funcionar (setembro de 1993). Com mais quatro anos e meio que eu tinha na frente antes. Porque quando eu fui registrar esse terreiro, já trabalhava há quatro anos e meio na palha. Quando eu coloquei telha, eu disse: agora eu vou registrar. Procurei a federal em Feira através do terreiro do meu pai. Peguei o endereço todinho, chamei uma prima minha e fui lá.

Então a senhora começou em 1989.

“Me siga” – diz Maria de Olímpio. Ela me leva até o local onde faz atendimento

Só temos atendimento tardio. Aqui é sábado a sábado, domingo a domingo. Se o paciente bateu naquela porta porque quer ser servido. Ele vem com algo prejudicando ele. O meu direito é vir para aqui atender. O direito dele é vir me seguindo para quem incorpore em mim atenda o paciente.

Esse menino aqui (fala sobre seu ajudante) é meu criatório, tomei conta não tinha 16 anos de idade. Estamos viajando pelo mundo nessa mesma luta.

Qual a sua idade hoje?

“Tenho 43” – responde o homem.

Maria acrescenta: “É um mourão para mim, um menino de recado. Se eu não posso ir na cidade, estou precisando de um material aqui ou mesmo na minha casa de moradia digo: “Toma aqui a nota e está aqui o zimbre ou caiambá (as duas palavras significam dinheiro). Vá lá. Quando procuro ele na cidade, ele está aqui. É ele, minha irmã e uma prima que tenho aqui em cima.

“Ajoque (sente-se)” – diz ela para mim.

O altar fica no local em que dona Maria faz os atendimentos de vidência e joga búzios. Foto: Paulo Oliveira
O altar e o local para atendimentos de vidência e jogo de búzios. Foto: Paulo Oliveira

Por que o altar daqui têm mais fotos e imagens de santos católicos do que de orixás?

Iemanjá é Nossa Senhora da Conceição ou Nossa Senhora Aparecida (mar). Nossa Senhora das Candeias é de Oxum Maré (dos lagos). São Sebastião. Oxóssi caçador (mata). São Roque é Obaluaê (um cidadão de meia idade). São Francisco de Assis, Res Loko Maiá, no candomblé e na umbanda (para os angolas, Loko é o orixá Tempo. O povo ketu associa São Francisco a Iroko e os jejes ao orixá Loko). São João Batista é Xangô. Santa Bárbara é Iansã no candomblé. Cosme e Damião, os ibejis, os principais médicos, donos da medicina. São José, o pai adotivo de Jesus Cristo, Xangô da Pedreira.  Santo Antônio é Ogum, Ogum de ronda. São Pastorinho, o dono de rebanho, os ibejis. E mais, mais, mais entidades. Catolicismo você sabe que é uma coisa, o candomblé é completamente outra.

Eu nunca ouvi falar de Res Loko Maiá, ele é um orixá?

É o dono do ori (cabeça em iorubá, refere-se à intuição espiritual e destino). Sim. Meu avô no candomblé era desse orixá. Oxalá, sexta-feira, Senhor do Bonfim no catolicismo. O Tempo está lá fora. E mal sabendo muito dos zeladores que Tempo é Ogum dentro do candomblé. Sem o Tempo, nem eu nem você pode sobreviver. Na realidade, no fundamento todinho, tempo é o que? É o zimbre, caiambá, dinheiro. Sem ele sai açúcar e café? Nada para ninguém. Sai a chuva, sai o sol? Pior.

 

 

Jornalista, 55 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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Uma reflexão sobre “Maria de Olímpio, a zeladora&rdquo

  1. joabesDisse…
    Replied on

    Muito boa materia.

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