Mês: maio 2018

A ‘celveja’

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Nas minhas andanças a serviço da Educação, tive a oportunidade de ouvir diálogos, com sabor natural da nossa terrinha. Viajando de Xique-Xique ao povoado de Utinga, na carroceria de D20 – carro que substituiu as “rurais” nos areões do tabuleiro -, tive o privilégio de ouvir prosas gostosa como esta:

“Êta estradinha ruim essa da Utinga. Tá assuntano. Tem que andar subrileve. Se açulerar atola, se atolar entra até o semi-eixo. O tabuleiro é falso, engana qualquer um. Aqui o motorista tem que ter munheca, e o passageiro, se não sustentar, cai…”

“Silvano, eu não vejo a hora de chegar em Xique-Xique pra beber uma água friinha da lejadeira.”

“A celveja lá também é fria…”

“Muié oi, eu só vou neste Xique-Xique porque é obrigado.”

“Eu também só vou uma vez no mês pra tirar o dinheiro do cartão e fazer a feira.”

“Este povo quando chega lá parece que chegou no céu, acampa naqueles bloco do cais e enche o rabo de celveja.”

“Muié, você me deixa! Eu não sei o que esse povo acha nesta tal celveja. A bicha já cai no copo barbuiano, quando a gente bebe já sente o amargo na boca, ela desce rasgano, depois fica freveno dentro do estombo. Eu tenho é visto, viu… Tem deles que ainda é uma falta de educação pra beber: pede logo aquelas garrafona de um lito.”

“Hum, hum, hum! Já chegam é gritano’me dá um litrão aí’.”

“Um dia eu com uma sede tão grande no mundo, inventei de tomar um veneno desse. Mar muié que que disgraça foi aquilo, bebi uns quatro copo antes do de-cumê, veio logo um arroto, parecia que tava saindo fogo das ventas, friviano. Eu disse, isto é que é ser, viu. O diacho é que vai ficar aqui, mas não eu. Ajeitei minhas coisas pro mode eu ir. Subir pra riba da carroceria deste carro e disse: gente vamo simbora… Quando este carro pegou a estrada. Mar mulé! Me deu uma tontura. Eu via os pés-de -pau correno mais que o carro. Eu disse: valeime minha Nossa Senhora! É mal assombro. Ainda bem que este carro chegou ligeiro, porque quando eu desci, sa cambaleando, parecendo uma cobra mal matada.”

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA

–*–*–

DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Açulerar – Acelerar
Friviano –
Efervescendo, fervendo, borbulhando.
Subrileve –
Levemente, por cima, calmamente

 

Loucura genial

Japaratuba, ao contrário vizinha Rosário do Catete e muitas outras no caminho para Alagoas ou no sertão sergipano, não tem a estátua do padroeiro na entrada da cidade. Em vez disso, o município construiu em 2002, um monumento em homenagem a um louco genial: Arthur Bispo do Rosário.

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O batizado

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Na beira d’água o coro comeu/
Pandeiro trinou/
Violão respondeu/
Iaiá peneirou/
Ioiô sambou.

E na beira d’água o coro comeu/
Passarim cantou/
Ioiô peneirou/
Na palma da mão/
o samba esquentou.

É samba de rio, samba de sereia/
Iaiá vadiou, Iaiá vadea/
Rodando, rodando, na areia/
vadea vadea, vadea…/
vadea Iaiá, na areia.

A viola chamou/
Belmiro respondeu/
Em semicolcheia a caixa entrou/
Samba no pereiro/
Nego sambou.

Pascoal na viola o samba comia/
Na casa de farinha caldeirão fervia/
No batizado de Dalton, o bicho pegou/
Samba de roda/
Todo mundo sambou.

A gengibirra Germano cuidava/
No balanço do barco ela fermentava/
No meio do samba Germano gritou/
Disaréda, afasta meninada!…/
Hoje o barril num está com nada.

A todo vapor o estampido anunciava/
Que a tampa do barril/
Pelo rio voara/
E a gengibirra de Germano, que já era pouca/
Acabara.

Coisas de Xique-Xique, na Bahia.

–*–*–

Dicionário Beiradeiro

Gengibirra – Bebida artesanal a base de gengibre, fabricada por apenas um beiradeiro da região.

Pereiro – Rancho de pescadores.

O Boa Noite

“Farás para Aarão, teu irmão, vestimentas sagradas para esplendor e ornamento (…) um peitoral, um efod*, um manto, uma túnica bordada, um turbante e um cinto.” Assim Iaveh Deus se dirige a Moisés prescrevendo como deverão ser as vestimentas dos seus sacerdotes.

Aí temos uma das primeiras referências escritas a arte de bordar, mas sabemos que está na pré história a origem do ainda hoje popular ponto cruz, no tempo em que fios grossos de couro de animais ou finíssimo, desfiados dos seus intestinos, serviam à trama que traz, já em seus começos, o fim de ser arte.

O mister de bordar é endêmico em Ilha do Ferro, de onde o nosso canal se despede hoje com os desfiados e tramas de Dona Gilvânia, esposa do também artista Aberaldo, e uma das muitas apaixonadas pela arte no lugarejo.

Nesse distrito de não fácil acesso, o tipo de bordado mais popular é o “boa noite” que consiste em desfiar o tecido para então recompô-lo com novo formato em basicamente três tipos de tramas: simples, em flor e cheio.

(*) Veste do Sumo Sacerdote de Israel no estilo de túnica ou avental.

No Alto do Silva

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO.

Seu Pombal, seria melhor o senhor ter dito que: “A escola não deve negar a existência de determinadas variedades linguísticas dentro do país, para que não se crie um preconceito”; e essa carga não recaia sobre a influência das línguas africanas no português brasileiro.

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