Navalha na carne

Navalha na carne

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS. DO VELHO CHICO.

Era uma noite quente e sombria. Na calada da noite a matraca corria solta, comendo no centro, matraque…matraque… catraque…catraque…

João Mirou puxava a lamentação. Parando de estação em estação, em meio a benditos e pai-nossos. O trinado das lâminas, que regia a “disciplina dos pinitentes”, zunia aos ouvidos. O encarnado nas anáguas brancas, era visível, o sangramento denunciava a autopunição. Afinal, são  sete anos para se livrar dos pecados cometidos e dos que lhe foram atribuídos.

Na Semana Santa, precisamente na Sexta-Feira da Paixão, tive que correr do Hospital Julieta Viana até a Praça Luiz Viana, pra não ser cortado por um penitente. Caí na besteira de levantar a cabeça, durante a passagem em um corredor polonês feito pelos penitentes, e a ordem era não olhar em seus semblantes, para não reconhecê-los. Como descumprir a ordem levantando a cabeça, fui perseguido por um deles. Quando percebi o perigo, gritei:

“Zé de Queró, penitente. Deixa de traquinagem, joga essa navalha  pra lá…”

“Falou meu nome vai ser punido.”

“Deixe disso. Esse home parece que tá com outro dentro dele.”

“No claro não. Mas no truvo eu pico-lhe a navalha pra dentro. Se souber rezar pode começar. Porque Zé de Queró é pinitente respeitado.”

“Hômi, atende o poder de Deus.”

“Eu tou atendendo é a ordem dele mesmo… Você vai escapar dessa, mas sábado de aleluia, num vai ser Judas, que vai ser malhado não. Você vai entrar no cacete.”

E a navalha trinava igual pandeiro sem couro.

E perna pra que te quero…nunca corri tanto em minha vida. E nunca mais esqueci do penitente Zé de Queró.

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA.

 

–*–*–

Os penitentes são homens que se auto-flagelam na Semana Santa. O ritual consiste em retalhar as costas com navalhas pequenas e afiadas, amarradas a uma tira de couro, que é jogada de lado ou por sobre os ombros para atingir as costas.

 

Arilson B. da Costa Contributor
Arilson Borges da Costa ,nasceu em 22 de fevereiro de 1970, em Xique-Xique – BA. Filho de sorveteiro e neto de pescador, é professor e auxiliar de serviços gerais. Estudou contabilidade na escola pública de Xique-Xique, no interior da Bahia, porém em 2008 abandonou definitivamente a área de exatas e passou a estudar letras vernáculas, na universidade pública da Bahia (UNEB), com a finalidade de aprofundar na área da lingüística e literatura. Ao longo de sua vida acompanhou pescadores às margens do rio São Francisco, no intuito de entender o sotaque do povo ribeirinho, por isso migrou seu trabalho para escrita de contos e causos do povo ribeirinho.Está continuamente produzindo contos e causos de ribeirinhos, poesia, vídeos, áudios e fotografias, a maioria deles disponibilizados em sua página do Facebook.
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