Mês: abril 2018

Fumo grosso

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Andar sobre as águas do Velho Chico, sem-que-fazer, faz com que prestemos assunto a tudo e a todos.

Certa feita, fiquei a observar o comportamento do beiradeiro diante de pessoas estranhas:

À boca-da-noite, descia rio abaixo um barco com capota, motor de popa e casco de fibra. Levava homens de pele encarnada, mulheres bronzeadas pelo sol da Bahia. Todos usavam boias salva vidas.  Decerto eram de outra região. O motor do barco desligado, o rio silencioso e as pessoas sem falar um isto.

Na outra margem, o beiradeiro assunta tudo, desconfiado, bota travessia e apruma o barco em paralela simétrica, beirando o barco dos visitantes. Com feição de discursador, o beiradeiro tirou a faca e o fumo, o que, na convenção do rio São Francisco, indica o desejo de puxar conversa, prosear, apresentar-se.

O beiradeiro soltou o remo dentro do paquete, que descia água abaixo, e foi picando o fumo, minuciosamente, ajuntando-o na concha da mão.

No outro barco, que também descia a esmo, o homem de pele avermelhada ofereceu-lhe o maço de cigarro, o beiradeiro fez menção de pegar, mas encolheu a mão, de sopapo. E disse:

“Muito agradecido… Eu pito é desses nossos, dos de papel… A gente tá acostumado com fumo grosso só… aqui o fumo entra é de rolo, seu moço…”

Aí, o beiradeiro, soltou duas nuvens de fumaça da boca e saiu, remando, remando…

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA.

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DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Sem que fazer – Desocupado

De sopapo – De repente

 

 

Perambulando

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

De primeiro, quando eu era moço andador, perambulava feito peixe nas primeiras águas.

Nas andanças pelas comunidades ribeirinhas das barrancas do Velho Chico, podem-se ver paisagens contraditórias.

No alto. Manhãzinha cedo, mulheres de saias arregaçadas, de pote à cabeça, vindas da fonte; meninos pançudos, brincando de rumar pedras nos bichos ou de mastigar barro.

Na beirada. Lavadeiras com roupa no quarador; beiradeiro arrastando alpercatas, de remo e cuia à mão ou a torcer carretel, fazendo fieira para remendar fubeca, sonhando em ganhar seu quinhão na partilha do peixe como se fosse a derradeira vez.

Na água. Passam cardumes de piaba, pela veia d’água; gaivotas beijam a gordura do engodo n’água. De tardezinha; patos mergulham e sacodem a cabeça; árvores frondosas arriadas sobre as águas, na quebrada da mareta.

Na crôa. De noite o silêncio no meio-do-mato permite ouvir e avistar o bater do beiço do barco n’água; uma roda humana à beira do fogo, sob o alumiar da lua; pescadores com rostos vagos, mudáveis, saudosos e malhados, como se as malhas da rede mudassem para suas feições.

COISAS DE XIQUE-XIQUE NA BAHIA

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DICIONÁRIO BEIRADEIRO

Alpercata – Chinelo de couro
Fieira – Corda fina de caroá trançada por carretel
Fubeca – Rede velha de caroá
Mareta – Marola, rolo de água empurrado pelo vento no rio
Crôa – Coroa, bancos de areia que se formam no meio ou à margem do rio.

Plena infância

A imaginação é o principal componente das brincadeiras de meninos e meninas que vivem nos povoados do sudoeste baiano. Arremesso de pedras no rio, a lúdica vaquejada em que um dos componentes é o vaqueiro e o outro é o touro, enfim, algo que as crianças da cidades trocaram por jogos eletrônicos. Este vídeo é uma homenagem a essa gurizada de Encruzilhada (BA), que sabe viver a plenitude da infância. …Ler mais.