Letícia – Mulheres de Água Preta 1

Letícia – Mulheres de Água Preta 1


A sina de Letícia Pereira da Silva, 70 anos, é trabalhar muito. Tanto é que três de seus dez filhos nasceram à beira do forno, entre um esfregão e outro na roupa suja e após ela mexer (torrar) farinha, sob um calor infernal.

Rômulo deixou o ventre depois que a avó Maria Idalina ralhou com seu irmão: “Vai danar, moleque. Já vem outro menino aí? ” Saltou para a vida antes de os biscoitos da mãe ficarem prontos.

Rosimário veio ao mundo enquanto Letícia lavava roupa no rio. Morreu novinho com acesso de bronquite.

Edilene, a caçula, nasceu depois de a mãe passar a tarde torrando farinha. Nasceu com umas pintas pretas pelo corpo. O povo tratou de dizer que eram motivadas por Letícia estar estuporada. Os médicos desmentiram a versão. Disseram que eram manchas de nascença e viriam de qualquer maneira.

Roberto, Cristina, Rogério, Rosivaldo e Maria José nasceram em casa. Josias e Rivelino também, mas viraram anjos.

TEMPOS DIFÍCEIS

Para sustentar a filharada, Zé Branco se desdobrava para arrumar trabalho. Dona Letícia procurava ajudar o marido, tirando lenha do mato para vender. Na primeira vez que foi fazer a coleta, um pedaço de pau bateu com força em seu corpo e deixou a marca que ela tem até hoje.

Um dia Roginha (Rogério) foi vender a lenha, acompanhando a tropa de um comerciante. Perto da casa de Zé Pipoca, junta ao cemitério, um carro desgovernado atropelou alguns jegues:

“Se ele tivesse montado, tinha morrido” – lembra Letícia.

Ela acrescenta que o filho chegou com os olhos queimados pelo vapor do carro atropelador. Lembra ainda que o comerciante mandava seu filho estudar – hoje o rapaz é professor – e Rogério trazia o animal.

“Uma jumenta que também foi atropelada ficou esbagaçada. Sofreu oito dias e foi finando até acabar” –  conta.

As dificuldades só diminuíram quando o casal começou a plantar maniva e fazer farinha.

“As crianças cresceram e passaram a ajudar, aí foi melhorando mais as coisas. Betinho estudava e ajudava o pai. Ele fazia uma farinha que não era fácil, tirava goma demais. Vendia muita goma para fazer biscoito” – recorda.

O CASAMENTO

Letícia tinha 16 anos e morava com os pais, quando Zé Branco pediu a mãe dela em casamento para Idalina, que consentiu. Os dois se casaram dois anos depois só no civil porque não havia igreja perto. Naquela época, o juiz de paz permitia que a noiva se casasse com véu e vestido branco longo.

Por um erro do escrivão, na certidão de casamento passou a constar a mesma data de nascimento para o marido e a mulher.

Quinze anos depois, um padre “bem altão”, cujo nome foi esquecido, casou Letícia e Zé debaixo de um pé de tatarena, onde eram rezadas as missas mensais da comunidade.

A agricultora tinha “os meninos quase que derradeiros” e aproveitou a cerimônia para batizar três deles, levando ainda uma bebê nos braços.

No religioso, a agricultora usou um vestido branco, “mas não foi grandão”. Depois da cerimônia, o casal foi para casa. Não houve festa.

A falta de igreja no lugar obrigava os moradores de Água Preta a caminharem muito. Depois do pé de tatarena deram para celebrar missas em um colégio, mas há dez anos a comunidade decidiu construir um templo dedicado à Nossa Senhora de Aparecida. Todo mundo ajuntou e ajudou.

Não foi difícil escolher a padroeira. Zé Branco e os vizinhos tinham a mesma sugestão. Dona Letícia ficou feliz por ver sua santa de devoção no altar. A chave da igrejinha fica pendurada na porta e todos podem entrar para rezar a qualquer hora.

LONGAS ESTIAGENS

O pequeno cemitério perto do rio era o local onde eram realizadas as novenas em tempos de seca. Todos os dias, as mulheres saíam com uma cabacinha ou uma garrafa de água na cabeça, entoando os cantos e pedindo chuva. Elas também iam molhar a cova dos anjos para não deixar eles com sede.

As novenas e procissões davam certo, segundo dona Letícia:

“Não levava nem um mês e Deus mandava chuva para nós” – diz.

Mesmo passando por necessidade, a agricultora não pensou em deixar a terra em que nasceu e se criou. Nem mesmo depois que alguns filhos se mudaram para São Paulo.

“Nunca pensei em me retirar daqui. Sofri muito, mas não pensei em sair. Uma vez fiz uma sopa. Eu botei para os meninos aquela aguinha de macarrão que chamava de sopinha e vim pegar o restinho da panela para mim. Nesse tempo tinha muito sapo. Um dos meninos botou o prato no chão e um deles entrou. Ele ficou chorando para comer. Aí peguei a minha e dei. Dei e fiquei sem nada. Não esqueço não” – recorda.

Muitas vezes Letícia recorreu ao exemplo da mãe, que teve 14 filhos – três deles trabalhando – e passou mais necessidade do que ela, para se consolar.

Quando pequena ia tirar pó de palha no mato com Maria Idalina. Botava as folhas secas de coqueiro na perna, amarrava um pano grosso e ficava raspando para obter o produto usado na fabricação de plásticos e era vendido a quilo. Só que para produzir a menor quantidade era uma trabalheira imensa.

Ainda menina aprendeu a fazer requeijão e sabão, quebrar o coco seco do cansanção para dar de comer aos porcos e tirar o óleo dele para cozinhar. O irmão abria os coquinhos com facão; ela, com pedra.

Letícia também desenvolveu cedo a arte de cozinhar. Seu picadinho de palma – cacto usado para alimentar animais e, em período de seca extrema, para consumo humano – é famoso na região.

“Tiro o espinho e corto a palma bem cortadinha. Fervento ela e passo no escorredor. Aí corto pedaços de carne bem picadinho. Coloca a carne temperada com cominho (ou sazon), cebola, pimentão, tomate e uma gordurinha de toucinho para assar. Misturo tudo e boto para ferver, sem colocar água, só virando para deixar o picadinho bem seco. Fica bom demais” – ensina.

ZEZINHA

Maria José, a filha mais velha, herdou da mãe a disposição para o trabalho. Era o homem e a mulher de Zé Branco, no dizer de Letícia, referindo-se ao fato da filha ser o xodó do pai e o acompanhar na roça para arrancar e plantar mandioca. Reclamava quando não ia.

Festeira, se divertia até tarde nos finais de semana, mas segunda-feira estava pronta para roçar, fazer beiju para os irmãos venderem e trabalhar na horta.

Quando se mudou para São Paulo, passou a trabalhar em casas de família. Saí de casa de madrugada. Até os malandros do bairro lhe conhecem e a cumprimentam. “Ei, tia! ”, dizem quando ela passa.

BAR E CAMPO DE FUTEBOL

Antes da construção da igreja, havia um campo de futebol próximo à casa de Zé Branco, que abriu um bar.

Os jogadores bebiam, penduravam a conta e ainda filavam a comida de dona Letícia. Foram tantos os calotes que o bar fechou e a mesa de sinuca ficou encostada.

Desde então, o casal não vende mais nada. Prefere dar e fazer escambo. Zé Branco, por exemplo, troca maxixe por litros de leite com uma de suas sobrinhas. Quem tem precisão, eles ajudam.

Ao fazer um balanço do passado, Letícia diz que, graças ao bom Jesus, agora ri de alguns momentos.

O universo DE LETÍCIA

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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2 reflexões sobre “Letícia – Mulheres de Água Preta 1”

  1. purcinaDisse…
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    Essas pessoas são vencedoras pela coragem e garra de acreditar em um futuro para seus filhos através do estudo, onde as adversidades não foram empecilhos para seguir em frente.

  2. pedro nascimentoDisse…
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    Belíssima história de vida!

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