Renda irlandesa

Renda irlandesa

“Não vejo seu rosto! Vejo somente as mãos! E isso me basta! ” – Aglaé D´Ávila Fontes de Alencar

A artesã Edinalva Batista dos Santos, a Nalva, 55 anos, aprendeu a fazer renda – ponto de cruz e rendendê – aos 12 anos, depois que a família deixou Muribeca, cidade natal no agreste sergipano, e foi morar no sertão de Aquidabã, a 21 km de distância.

Na época, ela observava as vizinhas que ficavam na porta de suas casas e na praça bordando. De vez em quando pegava “um paninho” e perguntava como se fazia. A vontade de aprender o ofício tinha dois motivos principais: achava o trabalho bonito e queria ter dinheiro para ser independente. Foi com o bordado que criou três filhos.

Quando tinha 30 anos e já morava  em Laranjeiras, cidade turística famosa por preservar a arquitetura colonial, conheceu a arte com a qual mantém a família até hoje: a renda irlandesa, cujas tramas se assemelham a arte decorativa celta.

Tudo começou ao se inscrever em um curso ministrado por dona Adélia, de Divina Pastora, cidade para a qual missionárias católicas trouxeram, na década de 1920, a técnica surgida entre os séculos 16 e 17, na Europa.

A versão mais difundida é que as primeiras brasileiras a terem contato com a arte foram as mulheres que faziam parte da elite formada por famílias proprietárias de engenhos de açúcar. Eram elas que produziam peças para ornamentar igrejas como a Basílica de Divina Pastora, paramentos sacerdotais e enxovais para casamentos das filhas e nascimento dos netos.

No entanto, com o declínio da economia canavieira e devido ao trabalho intenso para a confecção das peças, as senhoras passaram a ensinar o bordado para as empregadas, que viram na arte uma forma de aumentar a renda.

APRENDIZADO 

Nalva aprendeu em 15 dias a fazer dezenas de pontos que têm nomes curiosos, como aranha redonda, cocada, abacaxi, boca de sapo, dente de jegue, espinha de peixe. O fato de ser bordadeira a fez abreviar os 60 dias de aulas estipulados por Adélia, que também tinha a missão de encontrar uma substituta porque tinha deficiência motora e pretendia parar de trabalhar. Adivinhem quem foi a escolhida?

A agulha é o principal instrumento para transformar cordões e fios de linha em obras de arte. Além dela são utilizadas tesourinha, um lápis fino para fazer o ilhós (um tipo de ponto) e, eventualmente, um dedal.

As matérias-primas são o lacê (cordão sedoso e flexível) e a linha da marca Mercer Crochet. A linha é bem mais cara do que as utilizadas em outros tipos de bordados. O novelo custa R$ 15, o equivalente a até 10 vezes mais do que pelo material usado em outras técnicas.

O lacê é produzido por uma única e antiga fábrica localizada em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Fundada em 1912 por um grupo alemão, a Ipu tem ameaçado fechar suas portas nos últimos anos. Seu maquinário é obsoleto, segundo informações obtidas pelas bordadeiras.

Além disso, não costumava respeitar os pedidos de cores das artesãs, enviando o que tinha em estoque, algumas vezes cordões manchados. O preço também não é baixo: R$ 44,50 o rolo de 50 metros.

Para evitar o fechamento da fábrica, o Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan), que conferiu o título de Patrimônio Cultural Imaterial à renda irlandesa produzida em Sergipe e o incluiu o modo de fazer no Livro de Registro dos Saberes (2009), tem feito gestões em favor das bordadeiras.

Paralelamente, desenvolve salvaguardas para preservar a arte, incluindo o projeto de compra de equipamentos para produção de lacê nos principais polos de bordado irlandês – Divina Pastora, Laranjeiras, Maruim e Estiva (povoado de Nossa Senhora do Socorro).

O processo de feitura de peças é delicado e trabalhoso, podendo levar meses para ser concluído.

É preciso riscar o desenho em papel manteiga. No caso das peças grandes, o debuxo é recortado e as partes são divididas entre duas ou mais rendeiras. Outro detalhe é que algumas associações trabalham com uma especialista em desenho.

O riscado é colado a um mais grosso (papel chumbo ou de embrulho) para dar suporte ao lacê, que contornará as formas do desenho. A etapa seguinte consiste em preencher os espaços vazios entre o cordão, fazendo os pontos com agulha e linha. A interligação dos contornos de lacê é a fase mais demorada da produção.

A renda irlandesa tem semelhança de pontos com a renda renascença. A diferença está no uso do cordão de lace, formando um relevo mais encorpado.

Por fim, separa-se a renda do papel cortando os alinhavos que os prendiam e retira-se os fiapos de linha. Vale lembrar, que a confecção é realizada pelo avesso para preservar a renda de sujeiras.

ENCOMENDAS DIFERENTES

Atualmente, o grupo de 15 mulheres que atua na Casa do Artesanato de Laranjeiras produz conjuntos de cama, mesa e banho, vestuário, acessórios e roupas de bebê.

Os produtos mais baratos são aqueles feitos em um dia ou em menos tempo. Exemplos, marcadores de livro (R$ 12), tiaras (R$ 25) e porta-moedas (R$ 25). Os que mais demoram, como as toalhas e colchas, chegam a custar R$ 12 mil.

Nalva destaca que de vez em quando surgem encomendas diferentes. Uma delas foi feita pela ex-prefeita de Laranjeiras Ione Sobral, que encomendou um blazer para a então presidente Dilma Roussefff.

As medidas de Dilma foram enviadas por assessores e três artesãs deram conta do pedido em menos de um mês. A petista estreou a roupa, em 2013, durante um congresso do partido.

AS RENDAS DE NALVA E OUTRAS PEÇAS

Outro pedido fora dos padrões foi feito por uma carioca, que sugeriu a feitura de calcinhas. Sem nunca ter feito a peça, Nalva aceitou o desafio. De lá para cá, produziu três dúzias delas, enviadas para a cliente, que também as dá de presente para amigas. As cores preferidas são vermelha e preta. A branca só foi encomendada duas vezes. O preço inicial foi de R$ 50. Atualmente, custam R$ 100.

Em seu ofício, Nalva consome até 120 metros de lacê por mês. Ela se dedica mais a produção de bijuterias, cujas vendas são mais rápidas. Ela vende, em média, quatro colares por dia. No entanto, a passadeira que levou três meses para ficar pronta e foi apreçada em R$ 900 aguarda comprador há oito meses.

O valor das peças é definido em conjunto pelas artesãs. Todas praticam a mesma tabela. A época do ano em que mais trabalham – a jornada chega a ser de 9 horas à meia-noite – é o segundo semestre, quando muita gente se antecipa na compra de presentes de Natal e aumenta o número de participação em feiras de artesanato regionais.

Nestas ocasiões, Nalva tem o cuidado de explicar para seus fregueses como uma peça de renda inglesa deve ser lavada para durar por muitos anos:

“Desmanche sabão neutro em um recipiente com água. Deixe a peça por 15 minutos. Em seguida, com uma escova de dente ou outra maior bem macia, passe sobre os locais sujos. Tire o sabão com outra água, sem esfregar e bote para secar. Desta forma, a peça nunca se estragará” – ensina.

A bordadeira também dá cursos para mulheres, atendendo associações e prefeituras. Nos últimos anos, porém, os convites estão rareando.

Os telefones e e-mail de Nalva são: 79 9 8167-8324, 79 9 9836-0345 e nalvabatistarenda@gmail.com.

AS RENDEIRAS

Jornalista, 56 anos, traz no sangue a mistura de carioca com português. Em 1998, após trabalhar em alguns dos principais jornais, assessorias e sites do país, foi para o Ceará e descobriu um novo mundo. Há dez anos trabalha na Bahia, mas suas andanças não param. Formou comunicadores populares nas favelas do Rio e treinou jornalistas em Moçambique, na África. Conhece 14 países e quase todos os estados brasileiros. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.
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3 reflexões sobre “Renda irlandesa”

  1. Zilma Guedes umpierreDisse…
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    E maravilhoso este trabalho, se eu morasse aí certamente iria aprender. Parabéns a todas as rendeiras, grande abraço

  2. Camila Cândida de Souza Araujo VilaçaDisse…
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    Eu quero comprar renda como faço?

    1. Paulo OliveiraDisse…
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      O contato com dona Nalva pode ser feito pelo e-mail nalvabatistarenda@gmail.com.

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