Cão d´Água

Cão d´Água

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO

Faz tempo, ando buscando elementos que me deem um adjutório na tarefa de entender a formação da língua portuguesa no Brasil.

Nessa busca, pude perceber uma grande influência das línguas africanas na nossa língua, ainda não conseguir compreender se houve uma africanização da língua portuguesa, ou se houve um aportuguesamento das línguas africanas no Brasil.

Acredito que a segunda opção imperou aqui, nas barrancas do Velho Chico. Nessa busca de colher palavras oriundas das línguas africanas às margens do Velho Chico, nem sempre encontro o que procuro. Mas, é de certeza ouvir causos mirabolantes.

Este que segue, ouvi de João Cipó, morador do Morro de Anísio, na margem direita do rio São Francisco. Em volta de uma fogueira de tronco seco do jatobazeiro, João dizia do conhecimento que tem junto aos moradores ribeirinho, dando referências físicas:

 

“Meu colega, cheguei aqui novim, conheço o povo dessa berada de rio aqui todinha, desde lá de baixo. Pesquei muito com aquele Gregório, que tem a perna igual aum toco de carnaúba. Naquele tempo, os aleijados trabaiavam. Aquele Roxim, que a perna balangava mais de que uma oreia de cabra correno, o hôme era um bicho na enxada…”

Entramos noite a dentro nessa prosa, o tronco do jatobazeiro quimara mais da metade, a lua parecia com uma banda de melancia, um amarelado meio que encarnado refletia sobre as águas claras do rio.Seu João, com um olhar fixo para as águas do rio, falou:

“Foi bem numa noite como esta, que o fio de Manuel Chumbada pegou um cachorro d’água, o bicho era valente, mas ele amarrou o cachorro d’água com uma corrente do paquete e trancou com um cadeado bem grosso. E num é que o bicho foi embora!”

Seu João, fez uma longa pausa, talvez, no intuito de que alguém perguntasse como o bicho teria escapado. Sem perder o raciocinio do causo ele finaliza, dizendo:

“Meu coleguinha, o cachorro era do Compadre D’água, e foi ele quem veio de noite e soltou o bichim, era pretim e não tinha nenhuma manchinha. Num foi Sa Nina? “-perguntou Seu João à  esposa, como quem queria uma afirmação.

Coisas de Xique-Xique na Bahia.

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Dicionário Beiradense

Paquete – Embarcação de madeira construída de forma artesanal.

Compadre D’água – Figura folclórica do rio São Francisco, também conhecida como Nego D’água. Acredita-se que vira barcos e esconde peixes quando não recebe fumo e cachaça dos pescadores.

 

Arilson B. da Costa Contributor
Arilson Borges da Costa ,nasceu em 22 de fevereiro de 1970, em Xique-Xique – BA. Filho de sorveteiro e neto de pescador, é professor e auxiliar de serviços gerais. Estudou contabilidade na escola pública de Xique-Xique, no interior da Bahia, porém em 2008 abandonou definitivamente a área de exatas e passou a estudar letras vernáculas, na universidade pública da Bahia (UNEB), com a finalidade de aprofundar na área da lingüística e literatura. Ao longo de sua vida acompanhou pescadores às margens do rio São Francisco, no intuito de entender o sotaque do povo ribeirinho, por isso migrou seu trabalho para escrita de contos e causos do povo ribeirinho.Está continuamente produzindo contos e causos de ribeirinhos, poesia, vídeos, áudios e fotografias, a maioria deles disponibilizados em sua página do Facebook.
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