Parto beiradeiro – Meus Sertões

Parto beiradeiro

Parto beiradeiro

SOTAQUE DE UM POVO NAS BARRANCAS DO VELHO CHICO. TER UMA ÉGUA E SER PARTEIRA NA REGIÃO DO TABULEIRO

A noite era de lua clara e um vento do lado norte balançava a paia seca do carnaubal. Eu já descansava o resto de esqueleto, numa cama de vara, quando o vento silenciou, deixando ecoar uma voz na banda esquerda da casa.

“Celina!”

Valha – me, minha Santíssima! A essa hora coisa boa não é, pensei. Esperei o sinal, porque aquelas horas no Tabuleiro, meu fio, só responde se gente dê sinal.

“Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo, dona Celina!”

“Para sempre seja louvado, respondi.”

E depois desse sinal, perguntei:

“Quem me chama?

“A obrigação lhe chama,Celina parteira, monte na eguinha maida e risqué. Vamo ligeiro na beirada do rio, que Rita de Mané vaqueiro já tá com dô de menino.”

Levantei, fui no monturo atrás da casa buscar a égua acastanhada, toda égua de parteira é danada prá comer no monturo, não sei porquê. Botei a sela no lombo do animal e arochei a cia. Ah, menino! Quando eu já ia riscando, recebi ainda uma ordem:

“Olha, Dona Celina, avia ligeiro, tô avexado, quando eu saí de lá pra te buscar, o pai do bruguelo cuspiu no chão e disse: tem que vortá antes do cuspe secá!

Foi a maior carreira que eu dei na minha vida. A eguinha tava só os lóro e os caburé cantando dentro . No meio da noite saí galopando. Pocoto Pocoto …Abre cancela: heeeeim … pá… Fecha cancela: heeeiim… pá! Pocoto Pocoto pocoto… êpa !

Cancela como o diabo nesse tabuleiro: heeeeim… pá! Era por riba dos brocotos: patata patata patata patata… Saímos inriba da lagoa, só escutava cantiga de sapo. Moço! Na velocidade que eu vinha a infeliz da égua deu uma esbarrada tão danada na beirada dessa lagoa, que o rabo quase passava da cabeça!… Passei a espora nos vazi dessa égua, ela se jogou n’água, parecia uma lancha de motor na bunda.

Passamos pelo rancho de João Cipó, rancho de beira de rio já viu:

“Au aí, au aí…”

Cachorro de beiradeiro late agudo.

“Tá me estranhano piaba?

Era piaba mermo o nome do bicho. Balançou o rabo. Não sei porque cachorro de beiradeiro tem sempre nome de peixe.

O povo da redondeza já tava tudo em volta da casa da mulher prenha. De longe ouvi alguém gritar:

“Celina parteira chegou!!”

Desapiei da égua véia, saudei o futuro pai do bruguelo, entrei pro reservado, a lua que me acompanhava me esperou lá fora, botei o vestido branco, pra Iemanjá, mãe d’água abençoá, amarrei a cabeça cum pano e fui dando as instruções:

“Acende uma vela e traz o candinheiro. Boa noite, ma cumade Rita”

“Ai, Dona Celina, que dô!”

 “É assim mermo, minha fia, aproveite a dor. Chama as muié d’essa casa, pra rezar a oração de Nossa Senhora do Bom Parto, que esse cristão vem ao mundo nesse instante. Boa noite, cumade Cesarina. As comadre sabe a oração de Nossa Senhora do Bom Parto?”

“ Nóis sabe”

“Ah Sabe, né? Pois vão rezando aí, já viu? Cadê os pitador, tem fumo de corda? Me dê uma capinha pra ela mastigar. Pegue D. Rita, mastigue essa capinha de fumo e não se incomode. É do bom! Aguenta nas oração, muié! Mastiga o fumo, D. Rita… Ô esse menino , tem cibola roxa?”

“Ai Dona Celina! Cibola não, que eu espirro”

“Pois é prá espirrar mesmo minha fia, ajuda”.

“Credo”

“Mané Capote, bote uma faca fria na ponta do dedão do pé dela, bote. Mastigue o fumo, D. Rita. Aguenta nas oração, muié”.

“Ai, Dona Celina! se eu soubesse que dor de parir era assim, eu num tinha cassado menino.”

“Pois é assim mermo minha fia, você cassou. Agora cumpra seu dever, minha fia. Desde que o mundo é mundo, que a muié tem que passar por esse pedacim.”

“ Ai, que dô!”

“Aproveite a dô, minha fia. Dê uma garrafa pra ela soprá, dê. Ô, muié, hein? Essa é a oração de Nossa Senhora, mermo?”

“ É..é. “

“Voceis num sabe outra oração, de São Raimundo Nonato ou de Santa Margarida?”

“Nóis num sabe…”

“Uma oração mais forte que essa, vocês num têm?”

“Tem não, tem não, essa é boa”

“Pois chame Mané Capote, ele conhece reza braba.”

“Deixe comigo, eu vou rezar uma oração aqui, que se ele num nascer, ele num tá nem cum diabo de num nascer: “São João miudim, amansador de burro brabo, fazei nascer esse menino, com mil e seiscentos diabo!”

“ Ué, ué, ué…”

“Nasceu e é menino homem! E é macho!”

“Ah, se é menino homem, olha se é? Venha vê os documento dele!”

O pai do bruguelo foi lá detrás da porta, pegou a espingarda bate bucha, chegou no terreiro, deu um tiro tão grande, que lascou o cano. Nas redondeza não tem um fi duma égua que num tenha escutado.

“Prepare aí a chéla, ah, prepare a meladinha, que o nome do menino é Dimião…”

Coisas de Xique-Xique na Bahia.

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DICIONÁRIO BEIRADEIRO
Bruguelo – Bebê, criança.
“Loro e caburé cantando dentro” – Expressão usada quando alguém ou algum animal está magro, está só o pó, está só o bagaço
Chéla – Cachaça 
Meladinha – Caipirinha sem gelo

Arilson B. da Costa Contributor
Arilson Borges da Costa ,nasceu em 22 de fevereiro de 1970, em Xique-Xique – BA. Filho de sorveteiro e neto de pescador, é professor e auxiliar de serviços gerais. Estudou contabilidade na escola pública de Xique-Xique, no interior da Bahia, porém em 2008 abandonou definitivamente a área de exatas e passou a estudar letras vernáculas, na universidade pública da Bahia (UNEB), com a finalidade de aprofundar na área da lingüística e literatura. Ao longo de sua vida acompanhou pescadores às margens do rio São Francisco, no intuito de entender o sotaque do povo ribeirinho, por isso migrou seu trabalho para escrita de contos e causos do povo ribeirinho.Está continuamente produzindo contos e causos de ribeirinhos, poesia, vídeos, áudios e fotografias, a maioria deles disponibilizados em sua página do Facebook.
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